Colette (2018)

December 21, 2018

 

A primeira reação ao ver o nome da Keira Knightley em mais um
filme de época foi questionar se era mais uma produção em que ela
assume uma heroína romântica ou trágica, como nas três parcerias
com o diretor Joe Wright. Mas a expectativa se prova falsa
rapidamente. Não apenas porque o comando fica por conta do
inglês Wash Westmoreland, mas pelo que este Colette realmente é.
Principalmente porque a mulher real que dá nome ao filme, Sidonie
Gabrielle-Collete (Knightley), protagoniza uma história curiosíssima
sobre o papel das mulheres na sociedade. No primeiro casamento,
com o escritor Willy (Dominic West), ela descobriu com as
desculpas dele para infidelidade a liberdade para ser o que
quisesse, mesmo que tivesse que enfrentar os valores sociais da
Inglaterra na transição dos séculos IXX a XX.
Nas mãos de realizadores mais fracos, Colette seria um drama de
tribunal ou uma análise sobre o processo criativo da escritora, mas
o que importa para os roteiristas Richard Glatzer, Rebecca
Linkiewicz e o próprio Westmoreland é a transformação.
Colette começou como uma garota vitoriana que apenas queria
casar e ser dona de casa e, com o passar dos anos, se tornou um
ícone feminista, uma das escritoras mais importantes da França, e
alguém disposta a romper com o esperado. O fato de que os
primeiros livros dela foram publicados pelo marido em segredo para
vender mais como ele diz, é fundamental, mas não é a força motriz
da trama.
Assim, Willy se torna um personagem importantíssimo.
Representante da alta classe, ele não consegue não trair a esposa.
Quando ela descobre e questiona, ele não promete que não vai
dormir com outras mulheres, mas que não vai mentir sobre isso. Ela
então, segue o caminho lógico de que pode dormir com outras
pessoas.
O argumento dele é que os homens têm, por natureza, a
necessidade de fazer sexo com várias mulheres. Com as falácias
que um espectador atual facilmente percebe, ela cresce, ao invés
de se deixar reprimir. Nesse caminho, o roteiro constrói as
situações aos poucos, até que a Colette na tela não é mais a

mesma que o espectador conheceu no começo. E acompanhar isso
é extraordinário.
Ainda mais com a dupla de atores principais. Knightley sempre foi
eficiente, mas aqui ela revela uma faceta diferente. Menos
introvertida e mais confrontadora, mesmo que ainda não se
destaque. Principalmente ao lado de West, que aproveita a falta de
bom senso de Willy para pular, gritar e brincar com estereótipos de
homens vulneráveis à própria insegurança.
Westmoreland dirige com eficiência e sutileza. Quando Willy
compra uma casa para Colette, o diretor os coloca em espaços
separados do enquadramento, como se ela fugisse dele. No
entanto, o ator se movimenta pelo cenário e sempre a alcança.
Como um reflexo de que ela sabe que deve se afastar, mas ainda
se sente apegada ao marido.
Outros detalhes nos figurinos também chamam a atenção. Como o
uso constante de preto por Willy e de cores claras por Colette. No
entanto, quanto mais ela se envolve nos esquemas e trejeitos dele,
mais detalhes escuros ela ganha. Quanto mais ela se afasta, mais
limpos ficam os tecidos.
O resultado é um excelente filme questionador. E que choca
quando se percebe que os erros sociais apontados continuam
atuais. Nada melhor que a história para ensinar, certo? Ainda mais
com uma obra divertida e que não segue pelos mesmos caminhos
de sempre. Infelizmente, poderia abordar melhor a persona de
Willy, mesmo que isso seja compensado pela interpretação de
West.

 

Foto - divulgação


Vinícius Brandão é autor do site Aquela Velha Onda e novo parceiro da Se7e Cultura. Confira aqui a programação dos cinemas. 

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