Infiltrado na Klan (BlackkKlansman – 2018)

November 28, 2018

Hoje em dia, quando se fala do estilo blaxploitation, o que vem à mente são as referências do Quentin Tarantino, os filmes do Shaft, ou a atriz Pam Grier. Restrita a uma época específica, a estética existe acima do visual e das músicas, mas também na valorização da população negra. E, felizmente, este Infiltrado na Klan se encaixa bem na descrição.

 

Ele acompanha o policial novato Ron Stallworth (John David Washington, um achado) após ele ligar para um anúncio da Ku Klux Klan no jornal local e marcar um encontro com os representantes do grupo. Como Stallworth é negro, o parceiro judeu Flip Zimmerman (Adam Driver, que empresta a estoicidade comum dele para um homem dividido entre o profissionalismo e a revolta) precisa se passar por ele.

 

A proposta, por mais absurda que pareça, é adaptada de livro escrito pelo Stallworth real. Um dos representantes da KKK no filme, inclusive, apareceu em noticiários brasileiros recentes após elogiar as ideologias de um candidato eleito das últimas eleições. E o diretor, Spike Lee, transita entre a dualidade do material original. O horror do racismo, e a comicidade da estupidez por trás do preconceito.

 

É por isso que Lee mostra os personagens “racionais” em ambientes descontraídos. Zimmerman e Stallworth brincam com a ideia de que o homem que encontra os preconceituosos é fisicamente judeu e negro em origem, mas não conseguem evitar o sentimento de revolta ao confrontarem de frente pessoas que os odeiam sem lógica. Mais ainda, quando descobrem o nível de periculosidade desses indivíduos.

 

Para isso, os roteiristas Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott, e o próprio Lee, dividem as cenas em extremos opostos. Em momentos, zombam abertamente dos racistas ao expor racionalizações estúpidas, como a propriedade do presidente da KKK, David Duke (Topher Grace, que serve mais uma vez ao papel do homem ignorante à própria pequenez), em achar que é capaz de reconhecer pessoas negras pelo jeito de falar.

 

Em outros momentos, o humor some para dar espaço para a tensão dos personagens que sofre abusos. Numa das cenas mais tensas, Patrice Dumas (Laura Harrier, surpreendentemente poderosa e raivosa após a patricinha adorável do último Homem-Aranha), possível interesse amoroso de Stallworth, é assediada por policiais brancos durante uma batida. É quase um reflexo do mundo real, onde as pessoas vivem calmas e sorriem durante a rotina, mas são forçadas a bater de frente com pequenos horrores diários.

 

Assim, Lee, usa e abusa do blaxploitation para criar as situações descontraídas, e desmonta tudo com um estilo cru e verossímil para os horrores. Não é difícil chutar que uns 90% dos personagens negros usam o famoso black power nos cortes de cabelo, com roupas que remetem fortemente à década de 1970, com muitas cores e colarinhos altos.

 

O diretor, inclusive, faz com que a montagem siga o ritmo de batidas de discotecas enquanto coloca sintetizadores na música incidental. Parece quase um videoclipe que engrandece a cultura afro dos Estados Unidos. Até que o preconceito do país bate neles de frente. Então as músicas param, a câmera abre os planos para que o espectador veja tudo o que acontece em cena.

 

Assim, a história é conduzida para um clímax de suspense em que todas as peças têm importância e o espectador se vê preso na cadeira enquanto torce para que aqueles ignorantes não machuquem personagens que são culpados apenas de viverem entre eles e querer direitos básicos.

 

E Lee, como não pode deixar de ser, faz questão de dar um ponto final pessimista para a história. Isso porque ele sabe que mesmo que a história se passe em um passado onde o racismo era mais aberto, ela ainda reflete preconceitos muito presentes no mundo atual. Mesmo que divirta do começo ao fim, é preciso lembrar o horror de então, e de agora.

 

P.S.: Lee aproveita para fazer uma merecida crítica ao primeiro filme narrativo da história do cinema, O Nascimento de uma Nação, aclamado pela importância da linguagem da arte, mas ainda uma das piores coisas feitas para as telonas.

 

Foto: divulgação

Vinícius Brandão é autor do site Aquela Velha Onda e parceiro da Se7e Cultura. Acesse aqui a programação dos cinemas.

 

 

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