Um Brasil que tenta ser rico apesar dos governos

January 22, 2018

Existiria uma chave para entender o Brasil. Desde a colônia, um Estado precário teria a função de arrecadar o máximo possível dos cidadãos para repassar a poucos. Esses poucos variam no decorrer das eras, da nobreza de Portugal às corporações de funcionalismo público com seus direitos especiais adquiridos (ou empresários amigos). Aquele dito de que tudo muda para continuar como estava ajudaria no nosso auto entendimento como nação. O Brasil que prospera tenta passar longe desse mecanismo e sobrevive na informalidade, nos negócios fora do âmbito do governo, na luta diária de seus habitantes aguerridos, sejam ricos ou pobres.

 

O Brasil que verdadeiramente se desenvolve teria sido esquecido da historiografia oficial, que preferiu sempre se concentrar na trajetória do Estado brasileiro e dos senhores que o apoiavam. Para se ter uma ideia, na abolição, pouco mais de 5% dos brasileiros eram escravos; os senhores, menos de 1%. Mas a história costuma se esquecer dos outros mais de 90%. Onde estavam? Muito além de fazer parte de uma suposta economia de subsistência, eles estariam negociando com os vizinhos, fazendo pequenos negócios para sobreviver, criando frotas de mulas para servir a comerciantes, prosperando na medida do possível.

 

Essa maneira de contar os caminhos do Brasil está presente no recém-lançado livro de Jorge Caldeira, a História da Riqueza do Brasil, da editora Estação Brasil. Mostra um país muito mais complexo do que o ensinado nas escolas, porém mais interessante.

 

Na visão de Caldeira, por exemplo, não houve exatamente extermínio de índios pelos colonizadores. Mas seguidas alianças entre portugueses e Tupis que permitiram a entrada progressiva da colonização no inóspito território brasileiro. Os Tupis recebiam artefatos que lhe davam vantagens nas disputas com as demais etnias. Em contrapartida, ofereciam esposas aos portugueses, que abraçaram com gosto a poligamia. Aos padres restava reclamar, ou casar também. A miscigenação seria de fato um dos nossos traços constitutivos. 

 

Nisso tudo, o Estado oficial, “caranguejo”, não se animou muito a adentrar para o interior, preferia ficar pelo litoral - pelo menos até a descoberta do ouro. Se a arrecadação na alfândega fosse suficiente para sustentar a corte, tudo bem.  Foram deixados de fora de suas garras milhares de brasileiros que produziam, vendiam e trocavam entre si, em todo o sertão, por meio de verdadeiras instituições populares como a prática do fiado (que sobrevive até hoje). Na base, eleições garantiam a posse de representantes populares, numa mostra de que o Brasil profundo seria muito mais democrático do que o país dos dirigentes.

 

Entre o final do século 19 e começo do século 20, lembra Caldeira, o Brasil foi um dos países que mais se desenvolveu no mundo.  Boa parte da explicação estaria no café. Foi um período em que cafeicultores principalmente de São Paulo souberam dobrar governos reticentes para garantir preços mais altos e mais divisas para o país. O excedente do negócio foi investido na indústria. Uma parceria entre Estado e particulares que deu certo para a população como um todo.  Na prática, segundo livro, o brasileiro comum se adaptaria muito bem ao capitalismo e o país perdeu chances de ouro quando se fechou para o mundo.

 

A partir da ditadura, uma visão megalomaníaca de um Estado controlando cada vez mais a economia teria botado muita coisa a perder. Ponto de vista que voltou a prevalecer na história recente e também deu errado.

 

Com suas 600 páginas, a História da Riqueza do Brasil cita Marx, Adam Smith, mas passa longe de tentar enquadrar nossa trajetória em manuais explicativos tradicionais como a de “luta de classes”, direita versus esquerda, índios versus colonizadores.  No máximo o que se vê são tentativas de modernização contra uma resistência para ficar tudo como está. Os grupos que querem manter tudo como está não por acaso resistem até hoje. 

 

Durante a leitura desse livro recebi a advertência de um historiador amigo: “muito cuidado com Jorge Caldeira”, no sentido de que sua obra seria bastante tendenciosa. Sim é possível, mas o conselho pode se estender a qualquer obra que pense o Brasil, como os clássicos de Sérgio Buarque de Holanda, Euclides da Cunha, ou Gilberto Freyre. Caldeira levanta sua tese e argumenta por ela. Cada um, com sua leitura, poderá concluir se procede ou não. Acredito que em boa parte procede.

 

É obra para quem tenta entender esse tremendo enigma chamado Brasil.

 

Foto - divulgação

Fabiano Lana é jornalista, filósofo, cinéfilo, colecionador de discos de vinil e colaborador da Se7e Cultura

 

 

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