Leonardo da Vinci. Por que é o gênio maior?

December 5, 2017

Alguém que raramente consegue terminar uma encomenda, que escreve bastante, mas não conclui o que se propôs a fazer, que vai deixando pelo caminho dezenas e dezenas de trabalhos inacabados. Com uma tremenda dificuldade de se focar, de se prender a algo. Sempre pensando em mil coisas, sempre deixando os chefes na mão. Essa pessoa nos dias de hoje não iria muito longe, certo? Provavelmente não iria. Mas esse alguém descrito é Leonardo da Vinci, que disputa entre alguns poucos o título de maior gênio que a humanidade já produziu.

 

Hoje vivemos uma época em que é necessário ser cada vez mais especializado em algo. Saber cada vez mais de cada vez menos. O pintor de Monalisa (que nunca entregou...) queria saber de tudo e cada vez mais. Do comportamento dos astros ao das gotas d’água. Da trajetória dos projéteis, da luz, ao funcionamento dos órgãos humanos e dos animais. E, no espírito de seu tempo, queria reunir tudo em um só, na busca pelo grande conhecimento da vida e das coisas. Do projeto maior, insistiu sem desistir até morrer. 

 

O desafio de biografar o polímata Leonardo da Vinci coube ao americano Walter Isaacson, que já tinha escrito a boa biográfica de Einstein e o sensacional livro sobre a vida de Steve Jobs. Agora tentou dar conta de Leonardo, que era tudo, ou melhor, se sentia tudo: cientista, músico, escultor, coreógrafo, engenheiro, urbanista, chargista. E pintor também? Sim, de vez em quando. Foram poucas obras na tela. E pouquíssimas conseguiu finalizar, como A Santa Ceia, com bastante atraso. O suficiente para estar entre os maiores artistas da humanidade.

 

O livro é humilde o suficiente para dizer quando se trata de especulação e quando ali se relatam fatos. É claro ao mostrar suas fontes (Da Vinci deixou cerca de sete mil páginas de manuscritos, o que já é um caminho para hercúlea tarefa de biografá-lo). Mas sem dúvida escrever sobre Leonardo é uma tarefa monumental que Isaacson conseguiu enfrentar a contento em 635 páginas.

 

Mas o que fez de Leonardo um gênio inquestionável? Curioso que a resposta a essa pergunta é menos complexa que se sugere. A verdade é que sem formação escolar suficiente, quase deixado de lado pela família por ser um filho bastardo, restou a Da Vinci observar, experimentar, escrever, teorizar e desenhar sobre o que via. Como não sabia que os livros traziam informações erradas, foi lá e aprendeu o correto por meio de seus olhos. E quando lia algo diferente do que via, preferia questionar, apontar para o mundo.

 

Some-se a isso a criatividade imensa, a habilidade manual até então inusitada. Saber colocar um toque de fantasia no que produziu - o que o fez hoje ser muito mais reconhecido como artista completo do que um engenheiro capaz de produzir armas de guerra. Por sorte esse seu outro intento fracassou. Fracassou também seu projeto de escrever um livro sobre o corpo humano após dissecar dezenas de cadáveres, mas o conhecimento que acumulou foi o suficiente para pintar peles e músculos como ninguém, caso dos ultra-investigados lábios de Monalisa.

 

Amigo dos amigos, simpático, popular, Leonardo sempre andou rodeado de amantes. Chegou a enfrentar problemas por homossexualidade, aberto, mas em muitas questões morais as cidades italianas do século 16 eram mais liberais do que a gente hoje, viu MBL? Leonardo, suspeita-se, chegou a pintar um amante como o Cristo batizado por João Batista. E... tudo bem. O que impressionou mesmo foi a imensa técnica daquele jovem ao conseguir reproduzir como os pés de Jesus são iluminados sob a água. Até os papas e reis gostavam dele, apesar de ser considerado muito avoado.

 

Num momento em que a gente, quando quer saber das coisas, corre para o Google (meu caso), Leonardo está aí como exemplo de que permanece na história é quem sabe decifrar a natureza mais profunda das coisas. Sugiro o livro como compra para o Natal.

 

Foto - divulgação

Fabiano Lana é jornalista, filósofo, cinéfilo, colecionador de discos de vinil e colaborador da Se7e Cultura

 

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