Aventuras num spa

September 26, 2017

Onde buscar ajuda quando na hidroginástica o casal de novos amigos decide se revelar

 

Com dez dias de atraso, sento pra digitar esta coluna on the road. Combinei com a minha editora, Michelle Maia, que escreveria algo sobre a viagem de carro pelo litoral de três estados que faço na companhia do meu filho Gabriel entre setembro e outubro.

 

Aqui, então, com um pedido de desculpas, o capítulo 1: “Emagrecendo”.

A fome impunha ao meu corpo flácido e à minha alma o pecado capital da desídia, mal famoso entre nós como a popular preguiça.

 

Na piscina aquecida, quentinha, eu figurava completamente retardado, tentando – de maneira madura, adulta e higiênica – não fazer xixi no espaço coletivo.

 

Sei lá por que a agonia de estar ali, apertado pra caramba, me levou a enumerar em silêncio versões erradas de palavras que não conseguia mais falar corretamente na intimidade.

 

Convido o leitor a repetir comigo aqui no mocó: “pobrema”, “escroteiro” (nada contra o escotismo, eu mesmo fui “bobinho”, quer dizer, lobinho), “menas”, “bródi”, “véi” e, claro, “micoginástica”.

 

Eu ia no embalo desse mantra analfabético quando a professora loira, má e rechonchuda de hidroginástica aumentou a música ruim.

 

Todo rigor físico da austera ariana se projetava na minha cabeça torturada sob a forma sinistra da frase do portão principal de Auschwitz: Arbeit macht frei (O trabalho liberta).

 

Abatido, parti em busca de companhia. Puxei conversa com meu neocolega de spa (de piscina e, diria, de campo de concentração), um jovem senhor na casa dos 40 anos recém-completados.

 

Papo vem, papo vai, o distinto camarada anunciou com a naturalidade de quem chupava manga num pé da Asa Norte: “Vou votar no Bolsonaro pra presidente no ano que vem”.

 

Ato contínuo, a esposa dele, uma morena brejeira de menos de 30 anos, com a maior pinta de backing vocal do Leonard Cohen, abria um sorriso de propaganda de margarina e manifestava cumplicidade felizona.

 

A respeitável senhorinha fazia também questão de publicitar – entre um exercício aquático ridículo e outro – sua paixão política: “Esse aí, o Bolsonaro, tem meu voto, com certeza, em 2018”.

 

Saí da piscina tonto, voltei pro meu quarto e pras minhas leituras. Febril, passei a procurar, então, uma justificativa fenomenológica (ops!) pra entender o provocante casal que acabara de conhecer.

 

Uma dupla que a sincronicidade pôs tão perto de mim e a sensibilidade democrática tão longe do meu mundo.

 

A escritora norte-americana Jennifer Egan, em A Visita Cruel do Tempo, romance arrojado e laureado com o Pulitzer de ficção em 2011, generosamente me ofereceu de bandeja uma chave pra desvendar a “hidroexperiência” que sofri.

 

Eu, André Campos, “senti entre os dois (o neocolega e sua mulher) uma compreensão demasiado profunda para ser articulada: a consciência indizível de que tudo está perdido”. Será?

 

Resultado de toda essa minha loucura chamada spa: em dez dias, dois quilos e meio mais magro.

 

Não tenho e nem quero ter um milhão de amigos. Mas ganhei mais dois.

 

Ah, eu e Gabriel estamos agora rumo à praia. Prometo contar tudo. Tchau.

 

André Campos é jornalista e colaborador da Se7e Cultura

 

 

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