O cafajeste e as mocinhas do bem

August 14, 2017

 

Se você vive de modo superficial as coisas ficam muito mais fáceis.  Há sentimentos positivos como amor, alegria, inocência, carinho, cortesia, generosidade. Há sentimentos negativos como inveja, ódio, egoísmo, estupidez. A sabedoria consistiria em existir em um polo e evitar o outro. Tudo cristalino.

 

Não é preciso fazer muito esforço mental para perceber que nunca nenhum desses sentimentos ocorre de forma pura ou isolada. Vêm em uma mistura onde um depende do outro e o bom só pode ser percebido porque o mal está ao lado, à espreita e à espera para atuar.

 

O filme em cartaz “O estranho que nós amamos”, de Sofia Coppola, trata dessas coisas. De como os sentimentos são ambíguos. De como os conflitos marcam as relações humanas e as circunstâncias no máximo ajudam apenas a aumentar ou a diminuir o período de armistício.

 

 A história é a do soldado ferido da Guerra Civil Americana (1861-1865) acolhido pelas internas de uma escola rural no Sul, em tese território inimigo. Ele é protegido por muito afeto pelas meninas e mulheres. Aí que está o problema. O amor das moças vem com todo seu componente tradicional como rancor, ira, ciúme. E nem crianças escapam das afeições contraditórias da vida.

 

Como um véu, paira a tensão sexual sobre tudo, o que é um elemento subversivo na trama. O acolhido-prisioneiro é antes de tudo um sedutor. Mesmo mal conseguindo andar devido a uma perna baleada, busca enfeitiçar as mulheres para manter-se ali de maneira mais deleitosa e segura possível. Ele está no comando ou o sexo oposto? As interpretações de que é um “filme feminista” são um reducionismo. Trata-se de algo mais obscuro, labiríntico. O jogo é de manipulações. O que fica é certo pessimismo sobre a possibilidade virtuosa da convivência humana.

 

“O Estranho que nós amamos” que está no cinema é releitura de filme do mesmo nome estrelado por Clint Eastwood de 1971 - disponível na Apple TV por U$S 2,99, pouco mais de R$ 10 (O original é The Beguiled, algo como “cativado”).  Vale a pena ver ambos os filmes para perceber, pela ótica do cinema, o que a sociedade mudou nesses 45 anos.

 

Além de na filmagem dos anos 70 o figurino das moças ser de um marrom roto e agora de um branco angelical, uma mudança evidente, entre outras, é o sumiço de uma escrava da escola. Personagem em 1971 que não existe em 2017. Coppola argumentou que não queria abordar o assunto da escravidão em seu filme. De quebra sofreu acusações de tentar “embranquecer” a obra. Ou seja, quis evitar questões políticas e entrou num buraco ainda maior, o que se torna mais um exemplo de que as coisas no fundo não têm solução efetiva e viver é apenas uma maneira de administrar litígios.

 

O filme também tem algo de Nelson Rodriguiano na sua história, originária de um romance de Thomas Cullian - o que pode agradar certo público brasileiro. O ritmo é lento, mas a tensão (sexual) e o humor (negro) mantêm o fôlego do início ao fim. As atrizes estão muito bem, Nicole Kidman e Kirsten Dunst à frente. E Colin Farrell desempenha um cafajeste de primeira, para nenhum machão latino-americano botar reparo, do sensível ao cínico sempre que preciso. Mas, na versão de 1971, Eastwood é muito mais canalha (no sentido carioca do termo). Por isso, insiste-se aqui, gaste um pouco mais de seu tempo e coloque a mão do bolso para ver as duas versões – o custo benefício compensa as pinceladas de natureza humana que verá.

 

Confira aqui a programação.

 

Fabiano Lana é jornalista, filósofo, cinéfilo, colecionador de discos de vinil e colaborador da Se7e Cultura

 

 

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