Ao som dos pastéis cantores

July 28, 2017

Há quase 20 anos, um amigo meu, Danilo Cecílio Salomão, conhecido nos meios acadêmicos e artísticos como Professor, participou da organização de uma festa junina na Escola de Música de Brasília (EMB), onde trabalha. O evento reunia vários quiosques temáticos, associando a culinária à música.

 

Nesse contexto, coube a Danilo Cecílio se responsabilizar pela Barraca dos Pastéis Cantores. Lembro, na época, dele comentando com os amigos sobre como bolaria um cartaz para a empreitada.

 

– Pessoal, como seriam os Pastéis Cantores? Será que eu poderia desenhar um pastel com um microfone? – perguntava.

                                                                      Foto: Divulgação

Nem sei como a participação na festa junina se concretizou, porém esse episódio me veio à mente nos últimos dias. Trabalho em uma área famosa da capital do país que se chama Setor Comercial Sul. Apesar da importância histórica e de reunir várias lojas legais, a área anda bastante degradada, a exemplo dos centros das grandes cidades brasileiras. Sinalização de trânsito apagada, calçadas quebradas, cracolândia, iluminação precária, falta de policiamento, caos nos estacionamentos e no tráfego, lixo pelas ruas, a tomada desordenada do espaço por camelôs. Parece que o poder público há anos abandonou a região, para desespero dos empresários e dos consumidores.

 

Voltando aos pastéis, em meio a esse cenário, conforme falei, existem opções interessantes. Recentemente, descobri uma pastelaria chamada Fujiyama, tocada por dois empreendedores, Pedro e Zucco. Além de oferecer pastéis, biscoitos e pães de queijo saborosos, primam por tocar música de qualidade.

 

A primeira vez em que lá estive, saboreava um pastel de queijo, enquanto no som tocava Love Will Tear Us Apart, da banda inglesa Joy Division. Na sequência, rolaram The Smiths, The Cure, New Order e outros.

 

Numa segunda ida, o repertório já era heavy metal. Dessa vez, ouvi Ozzy Osbourne e mais alguns petardos metaleiros. Na terceira vez, na play list, stoner rock, fusão do metal com a psicodelia. Na última ocasião na pastelaria, comendo um biscoitão de queijo, vi que saíram do rock e foram para o jazz, colocando um disco do célebre trompetista Chet Baker.

 

Se empreendedores conseguem valorizar seu negócio com boa comida, ambiente legal e música interessante porque os órgãos de governo também não se mexem para revitalizar a infra-estrutura desses locais? Esse tipo de iniciativa melhoraria a economia local, atraindo consumidores que se afastaram, e até turistas, já que a região dispõe de uma rede hoteleira. Falta dinheiro? Certamente, afinal vivemos uma crise econômica aguda, porém, falta, principalmente, vontade. Mesmo com poucos recursos, com criatividade, inovação e parcerias com a iniciativa privada e a sociedade se consegue muito. No entanto, volto a dizer, uma ação vigorosa do estado passa longe dali.  

 

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

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