Black Sabbath ao Vivo no Terreiro de Pai Meneses

July 14, 2017

Essa noite, tive um sonho para lá de inusitado. Estava num show da banda de rock inglesa Black Sabbath. Até aí, nenhum acontecimento fora do normal, porém o incomum é que esta apresentação acontecia em um terreiro, com direito a encontros animados entre os artistas do heavy metal e adeptos das religiões afro-brasileiras.

                                                         Foto: Divulgação

O palco se situava em uma área com pouca luz, dentro de um terreiro, com a bateria ao centro, o baixo do lado esquerdo e a guitarra do direito. Para meu espanto, uma placa pendurada na parede indicava: Terreiro de Pai Meneses. Pensei: “O que o Black Sabbath veio fazer aqui?”. Na plateia, que lotava o ambiente, havia centenas de pessoas, que iam de metaleiros e roqueiros cabeludos, com suas roupas pretas, a pessoas trajando branco, cor usada nas cerimônias religiosas de matriz afro.

 

De repente, entra no palco um homem alto, negro, de cabelos alvos curtos e vestido de branco. Ele pegou o microfone e nos deu boa noite, com uma voz bem grave. Perguntei a um rapaz ao meu lado quem era, no que ele me respondeu que se tratava de Pai Meneses, o líder espiritual do lugar.

 

– Meus amigos, é com prazer que chamo ao palco o Black Sabbath – anunciou Pai Meneses, para delírio do público.

 

Os membros do Sabbath entraram com a aparência na casa dos 20 anos de idade, que tinham em 1970, quando lançaram o primeiro disco. Lá estavam o cantor Ozzy Osbourne, com uma bata psicodélica, o guitarrista Tony Iommi, o baixista Geezer Butler e o baterista Bill Ward. Tocaram Iron Man, um de seus grandes hits. Em seguida, teve The Wizard e Paranoid, que agitaram a audiência.

 

Foi quando Ozzy falou, em inglês, agradecendo a oportunidade de cantar mais uma vez no Brasil e agora em outro tipo de espaço, como o terreiro. Ele disse obrigado a Pai Meneses e chamou o babalorixá ao palco. Ozzy abraçou Meneses. Nisso, entrou um grupo de vários homens trazendo tambores.

 

– Vamos fazer uma jam bacana – anunciou Osbourne.

Com Pai Meneses nos vocais, levaram uma versão bem pesada de Cavaleiro de Aruanda, canção composta por Tony Osanah e gravada em 1972 por Ronnie Von. O povo foi ao delírio, com a bateria, baixo e guitarra pesados se fundindo aos vocais graves de Pai Meneses e ao balanço das percussões. Ozzy pulava como um garoto. O show conjunto prosseguiu, com improvisações e músicas do Sabbath ganhando um toque do candomblé.

 

– Obrigado. Nós amamos vocês, disse Ozzy, ao final, abraçando Pai Meneses, que esboçava um largo sorriso. Na plateia, metaleiros se confraternizavam com os membros do terreiro.

 

Então, acordei, maravilhado com aquele sonho. Se pudesse, se fosse rico, certamente patrocinaria uma vinda do Black Sabbath ao Brasil para tocarem juntos com povos dos terreiros.

 

Fusão do sincretismo afro-brasileiro com metal não é uma novidade. A banda carioca Gangrena Gasosa surgiu no começo dos anos 90 propondo tal estética e permanece na estrada até hoje.

 

Para mim a simbologia maior deste sonho ficou por conta do encontro de culturas tão diferentes, se irmanando. Na realidade, isso acontece o tempo inteiro mundo afora. Porém, vivemos um momento de grande intolerância e a religião não escapa desse clima. Terreiros incendiados, adeptos das religiões afro agredidos em verdadeiros episódios de barbárie. No exterior, temos os fanáticos do Estado Islâmico espalhando o terror, escravizando pessoas e forçando o êxodo de milhões, além dos assassinatos em atos terroristas. Quanta insanidade!

 

Cristãos, muçulmanos, ateus, judeus, adeptos do candomblé, europeus, brasileiros, brancos, negros, índios, ricos, pobres, ocidentais, orientais: não importa. Todos podemos viver em paz ou pelo menos sonhar com o dia em que nenhuma diferença de qualquer tipo importe o suficiente para impedir uma convivência civilizada, como naquela onírica jam entre o Black Sabbath e pai Meneses.

 

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

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