No contrabaixo, Dunga. Quebra!

July 3, 2017

Se você perguntar nos meios musicais brasileiros quem é Marcelo Machado Vieira, talvez não obtenha resposta. Porém, se você falar de Dunga, todos saberão de quem se trata. Contrabaixista, produtor musical e empresário, integrou a banda de Lulu Santos de 1992 a 1998 e de 2006 a 2011. Seu baixo cheio de suingue faz parte da história da música brasileira a partir dos anos 90. Músico de estúdio e de shows, registrou cerca de 1,8 mil fonogramas, com artistas tão diferentes quanto Oswaldo Montenegro, Maria Bethânia, Adriana Calcanhoto, Gilberto Gil, Marina Lima, Marisa Monte, Zélia Duncan, Erasmo Carlos, Ana Carolina, Claudinho e Buchecha, Gian & Giovani, Gabriel O Pensador, Kid Abelha, Gal Costa, Paulinho Moska, Milton Nascimento e muita gente. Atualmente, faz parte da banda de Ney Matogrosso. Junto com o cantor e instrumentista Milton Guedes, é proprietário da produtora Quase9, que tem um estúdio na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, no qual se produzem peças publicitárias, jingles, trilhas sonoras e outros materiais. Dunga ainda assina a direção musical do programa Dancing Brasil, na TV Record, estrelado por Xuxa e cuja segunda temporada começa no dia 24 de julho. Nascido no Rio, em 1967, foi para Brasília com apenas dois anos, por conta da carreira militar do pai. Na capital do país, onde morou 20 anos, iniciou-se na música. No Planalto Central, montou o supergrupo Habeas Corpus, com o vocalista Pierre Aderne, o baterista Mac William, o guitarrista Mauricio Lavenere e o tecladista Fernando Venturini. Em 1987, o Habeas Corpus participou da coletânea Rock Brasília Explode Brasil, da WEA, com a faixa E o Tempo. Em 1989, voltou à Cidade Maravilhosa, onde permanece como um dos músicos mais requisitados do Brasil. Em meio a uma agenda lotada, gentilmente Dunga arrumou tempo para dar uma entrevista à coluna 7 Point, da Se7e Cultura. Na conversa, ele recorda os tempos em que viveu na capital do país, do que aprendeu com pessoas como Oswaldo Montenegro e Lulu Santos, da atividade de instrumentista e de produtor. 

                                                                           Foto: Divulgação

- Você é carioca, mas morou um tempo em Brasília. Como chegou à capital?

- Meu pai era militar. Em 1969, ele foi transferido para Brasília, para trabalhar na Presidência da República. Eu morava na 308 Sul. Meus pais ainda estão na capital e tenho um irmão advogado que vive na cidade.

- De que maneira teve início a sua carreira musical?

- Eu sou praticamente autodidata. Cheguei a estudar violino na Escola de Música de Brasília entre 1977 e 1979, mas parei ali. Comecei a tocar violão com 13 anos por causa dos Beatles. Sempre participava de umas rodinhas de violão com os amigos. Em 1982, quando estudava no Colégio Militar, comecei a pensar em formar uma banda com meu amigo Peu Nunes. Procuramos um baterista e encontramos o Mac William. Ele disse para a gente que tocava, só que era mentira. Marcamos um ensaio para duas semanas depois. Ele se enfurnou em uma igreja onde havia uma bateria e acabou aprendendo a tocar. Essa primeira banda tinha dois violões e a batera. Eu queria ser guitarrista, mas como era o mais novo da turma, me mandaram ser baixista e assim acabei adotando o instrumento.

- Quais eram suas influências nesta época?

- Escutava muito rock progressivo, como Yes e Rush. Tocava todas as linhas de baixo do Geddy Lee (baixista e vocalista do Rush). Também ouvia bastante Iron Maiden e Van Halen. Por outro lado, cresci curtindo música brasileira em casa. Minha mãe adorava duplas caipiras. Tocava no som do carro e aos domingos a gente assistia àquele programa do Rolando Boldrin, o Som Brasil, dedicado à música regional. Além disso, sempre nas férias eu viajava para a casa da minha avó, que morava em Padre Miguel, bairro do Rio. A casa dela ficava ao lado de um clube chamado Creib, onde rolavam bailes black. Eu passava dois meses ouvindo aquilo direto, cantores como Tim Maia, que eu nem sabia quem era. Esse contato representou uma influência muito forte em minha formação.

- Como seu pai, que era militar, encarou suas pretensões artísticas?

- Eu nunca tive problemas na escola, mesmo tocando em bandas. Porém, um dia, o Mac William estava lá em casa e fui levá-lo ao ponto de ônibus. Naquele momento, meu pai percebeu o quanto eu estava envolvido com a música e não gostou nada disso. Ele pegou todos os meus elepês e quebrou, curiosamente, deixando as capas intactas. Quando voltei e vi aquilo peguei as capas e colei todas na parede, dando uma resposta a ele. Foi uma fase barra pesada da minha vida. Quando cheguei ao final do Ensino Médio, fiquei em uma encruzilhada. Ou me dedicava à música ou iria para a carreira militar, conforme papai desejava. Falei para ele que não viraria militar e que seria músico. Meu pai aceitou o fato e nunca mais tocou no assunto. Deixou de ser um problema..

- Os anos 80 foram um período efervescente na música de Brasília, não?

- Sim. Eu me aproximei do Toninho Maya, que fazia jazz. Baixistas como Adriano Giffoni e Jorge Helder tinham saído da cidade para tocar no Rio com grandes artistas. Nessa cena, atuei com muita gente, como Renata Arruda, Rubi, Eduardo Rangel, o grupo Invoquei o Vocal e a Cássia Eller. Participei de um grupo com o Mac William e o guitarrista Maurício Lavenere de metal instrumental chamado Excalibur. Tempos depois, o cantor e compositor Pierre Aderne, que queria montar um grupo, chamou o Mac, que me levou junto. Teve até um concurso de bandas promovido pela gravadora WEA, que resultou na coletânea Rock Brasília Explode Brasil. Os caras queriam encontrar uma nova Legião Urbana, mas acabou que nenhuma daquelas bandas aconteceu.

- Quando decidiu ir para o Rio?

- Nesse período, também conheci o Tom Capone, guitarrista de um grupo chamado Peter Perfeito. Eu, ele e o Mac William acompanhávamos o Eduardo Rangel. Quando fomos tocar com o Edu no Rio, conhecemos o Milton Guedes, que já morava aqui e tocava com Oswaldo Montenegro. A partir dali, sempre que o Milton ia a Brasília o acompanhávamos em seus shows solo. O Milton falou para o Oswaldo sobre a gente. Numa tarde de sexta-feira, em 1989, estava em casa, em Brasília, quando o telefone tocou. Era o Oswaldo Montenegro. Disse que queria que eu tocasse com ele em um espetáculo que estava montando. Só que precisava que eu estivesse disponível, no Rio, já na segunda-feira de manhã.

- O que você fez?

- Em duas semanas, ia acontecer um festival chamado Flac e eu tinha que tocar com uns nove artistas. Precisei ligar para todo mundo dizendo que não poderia mais participar dos shows. Uns ficaram chateados, outros me deram a maior força. Uma destas pessoas foi a Cássia Eller, que disse que eu tinha que ir mesmo para o Rio tocar com o Oswaldo e que não deveria perder a oportunidade.

- E o começo no Rio?

- Fui morar no apartamento do Eduardo Rangel, onde também viviam o Milton Guedes e o Luiz Carlos Ramos (Dente). Ele era uma das pessoas com quem eu ia tocar no Flac. Não só liguei para o Edu para desmarcar como ainda pedi para ficar no seu apê. Ele foi muito generoso e me deixou morar lá por quase um ano. Devo muito a ele. Nisso, fiquei ensaiando seis meses com o Oswaldo, mas, na véspera da estreia, o espetáculo foi cancelado. A grana que eu tinha guardado havia acabado. Ou voltava para Brasília ou continuava. Decidi ficar. Depois, terminou rolando um projeto chamado Ponte Aérea, organizado pelo Eduardo Rangel com artistas brasilienses que viviam no Rio, em um bar no Leblon chamado Gig Salada. Tinha o Eduardo, Milton Guedes, Dentinho e eu fazia parte da banda de apoio, que acompanhava todos. Durante dois meses, tinha show de segunda a segunda. Quando terminou, em março de 1990, o Oswaldo me chamou para tocar na banda dele, já excursionando pelo país. Também gravei o disco da Cássia e fui ficando no Rio.  

- Você frequentemente fala que quando tocou com Oswaldo Montenegro teve de reaprender seu instrumento. Por quê?

- O primeiro ensaio com ele aconteceu no Teatro Casa Grande. Eu era novo e gostava de tocar muitas notas de um jeito virtuosístico. Ele, sabiamente, me falou: “Sei que você está com sede de mostrar o que sabe, mas é importante que toque de acordo com o que a canção precisa. Toque uma nota por compasso e depois você vai entender o que eu quero te passar”. Demorei a compreender, porém precisei começar a tocar de uma forma mais simples. Foi difícil e tive de me dedicar. Não podia perder a oportunidade da minha vida e devia tocar como o Oswaldo desejava. Ele abriu meu horizonte ao me fazer perceber que menos é mais. Falo isso para a garotada nas palestras que dou. Eles chegam arrasando no instrumento, exibindo técnica. É bom dispor dessas ferramentas, entretanto você tem que saber que dificilmente usará todo esse repertório técnico em uma música comercial. Não dá para sofrer por conta disso.

- E como o Lulu Santos entrou na sua vida?

- Conheci o Lulu tocando com Milton Guedes. Engraçado que enquanto o Oswaldo é bem direto o lulu fica meio que te sondando. Ele chegava para mim e falava que meu baixo soava muito agudo, com muitas notas, que eu precisava ouvir mais discos de música pop, que eu era garoto fascinado por rock progressivo e que tinha que ouvir Liminha (baixista dos Mutantes e produtor musical). Ele descascou tanto que pensei que nunca iria tocar com o Lulu. Então, comecei a pegar esses toques, dando uma filtrada, e resolvi aplicar no meu som. Dois meses depois, ele me viu em uma apresentação com o Milton e me convidou para tocar com ele. Havia um show agendado um mês depois, no Brazilian Day, em Nova York. O Lulu me levou na casa dele, me deu um baixolão (instrumento híbrido de baixo com violão) e me ensinou a tocar com palheta, algo que não fazia. Depois, me deu dez CDs dele e me mandou ouvir e tirar todas as músicas. Foi legal porque naquele momento eu ainda não estava preparado para tocar com ele. Antes de mim, o posto de baixista foi ocupado por caras como Arthur Maia. Mesmo assim, ele viu algo em mim e investiu no meu trabalho. E aprendi muito com o Lulu de música, não apenas como tocar, mas sobre como se comportar no palco, como coreografar um show, a ter atitude. Ele me deu liberdade de criar. Embora o nome fosse Lulu Santos, éramos uma banda e não atuávamos como meros acompanhantes. O Lulu sabe tudo de palco, em detalhes como a iluminação e tudo mais. Ele é um artista completo. Depois, gravamos o disco Assim Caminha a Humanidade, lançado em 1994. Deu tudo certo e esse trabalho virou uma vitrine para mim. Passei a ser chamado para gravar e tocar com muitos artistas. Os produtores me queriam com eles.

- Em que contribui para o desenvolvimento de um artista tocar com tanta gente diferente como você faz, de Claudinho e Buchecha a Ney Matogrosso?

- Sempre fez parte da minha formação ouvir de tudo um pouco. Me ajudou a não ter preconceito em relação a estilos, o que me ajuda bastante. Fazer um disco com a Roberta Miranda soa natural, pois é como se estivesse me envolvendo com aquele repertório regional de que a minha mãe gosta. Gravar com o Netinho, um cara do axé music, significou um achado e abriu portas para depois tocar com a Banda Eva e a Banda Cheiro de Amor. Cada trabalho gera outras perspectivas. Legal que acabo imprimindo minha marca na música dessas pessoas. Muita gente pegou minha sonoridade e os meus fraseados como influência.

- Quando iniciou a atividade de produtor?

- Minha primeira grande produção foram cinco faixas no disco da Ana Carolina de 2001. Durante cinco anos, produzi os discos dela e cuidei da direção artística dos seus shows. De vez em quando, tem uns intervalos, mas volta e meia nos reunimos. Hoje estou muito focado na minha produtora, a Quase9, criada em 2013. Tocar baixo é fundamental e nunca vou parar, só que quero seguir outros caminhos desafiadores.

­- O que está achando da experiência de trabalhar com a Xuxa no programa Dancing Brasil como diretor musical?

- Esse convite veio por intermédio do Daniel Figueiredo, produtor musical da TV Record, encarregado das trilhas sonoras das novelas bíblicas. Deu muito certo a experiência. A Xuxa é gente finíssima. Um dia desses, veio gravar aqui no estúdio e rolou um clima superbacana. Ela é uma pessoa extremamente generosa, talentosa e com muito tempo de estrada. Finalizamos a primeira temporada do programa e já vai começar outra. Estou completamente empolgado com o trabalho na televisão, que para mim é uma grande novidade e um enorme desafio. 

 

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

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