E tome zine, zine, zine, zine, zine em papel xerox

June 19, 2017

Os fanzines ou simplesmente zines têm suas origens nos meios literários americanos, no século XIX, nas chamadas Amateur Press Associations (Associações de Imprensa Amadora), que publicavam contos, poesias, críticas e outros textos de autores que não eram profissionais. O célebre escritor de contos de horror H. P. Lovecraft foi um dos que tiveram passagem por esse circuito. Ao longo de sua história, os fanzines se popularizaram como veículos que primaram por democratizar a arte e a informação, desconcentrando-as um pouco das grandes mídias e do mercado editorial tradicional.

 

                                                                     Foto: Divulgação

No Brasil, o modelo ganhou fôlego nas décadas de 70 e 80. No período, nasceram inúmeros fanzines dedicados à literatura, às artes plásticas e à música, produzidos das mais variadas formas, divulgados nas portas de shows, de museus, de bibliotecas, nas universidades ou no agito da noite, nos bares. Textos ora escritos à mão, ora datilografados, fotos escuras, manchas no papel, desenhos, cópias em equipamentos como máquinas de xerox ou mimeógrafos. É uma linguagem totalmente conectada à filosofia punk do “do it yourself” (faça você mesmo).

 

Em 1988, a banda Hanoi Hanoi, do cantor e baixista Arnaldo Brandão, gravou a música Fanzine, que ilustrava bem o fenômeno. A letra trazia no refrão: “E tome zine, zine, zine, zine, zine em papel xerox. O futuro é preto e branco, e todo branco e preto pode ter. E tome zine, zine, zine, zine, zine em papel xerox. Vem do fanzine novo papo, nova onda, novo ABC”.

 

Nos dias atuais, os fanzines continuam a todo vapor, em P&B ou coloridos. No último fim de semana, rolou em Brasília, no centro comercial Conic, um mega evento de zines, a Feira Dente, que reuniu artistas da capital federal e de outros cantos do país. Quadrinhos eróticos, poesia, terror, política e várias tendências culturais estavam representados ali.

 

Entre os participantes, o professor, artista plástico e poeta Luiz Reis, que junto com o publicitário e também artista plástico Fábio Lucas comanda a editora Náutilus. Este selo tem investido na produção independente. Na ocasião, lançaram a quarta edição do zine Lobotomia, do qual tenho a honra de participar com um conto inédito chamado O Menino que Maltratava Bichos.

 

Esta é minha quarta colaboração com a Náutilus, após o livro Casa dos Sons e contos na revista Bacanal vol. 2 e no primeiro Lobotomia. Ao avaliar o evento, Luiz Reis comentou: “É, cara, foi bem legal. A gente teve um bom retorno. Vendemos bastante. E tem outras pessoas criativas aqui, como a Morgana, que faz uns desenhos alucinantes. Éeeee!”.  

 

Também estava presente Daniel Cariello, jornalista e escritor brasiliense radicado no Rio de Janeiro, que dirige o selo Longe. Cariello apresentou mais uma vez seus livros, que mostram experiências de gente do DF vivendo fora da terra natal, como seu Chéri à Paris, sobre cinco anos passados na capital francesa. Empreendedor cultural, Daniel tem um grito de guerra que retrata a força da juventude. Ergue os braços para o alto e fala: “O jovem brasileiro! O jovem brasileiro! O jovem brasileiro”.

 

É isso aí. Viva a energia jovem dos zines, que em tempos de crise econômica braba e de momentos sombrios na política, rendem arte com muito talento e atitude.

 

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

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