Herói do rock’n’roll

May 28, 2017

Nesta coluna, queria falar de algo alegre, já que na semana passada o tema foi a morte do ex-vocalista do Soundgarden, Chris Cornell, mas não poderia deixar de prestar homenagem ao grande Kid Vinil, morto na última sexta-feira (19 de maio), aos 62 anos. Cantor, compositor, jornalista, radialista, DJ, VJ, produtor e executivo do mercado fonográfico, Vinil se destacou como uma personalidade marcante na cena musical brasileira.

 

                                                                                       Foto: Divulgação

Nascido Antônio Carlos Senefonte, ganhou o apelido de Kid Vinil em 1979, quando apresentou um programa sobre punk e new wave na rádio Excelsior, em São Paulo. O pseudônimo derivava de Kosmo Vinyl, manager do Clash, e de Kid Jensen, locutor da BBC, de Londres.

 

Nessa época, já era vocalista do conjunto punk Verminose. No começo dos anos 80, o grupo passou a se chamar Magazine, adotando o nome de uma banda britânica de new wave e post-punk que havia encerrado as atividades.

                                                                                         

Com o estouro do rock nacional, o Magazine emplacou alguns hits nas paradas, como Eu Sou Boy, Tic Tic Nervoso e a versão de A Gata Comeu, de Caetano Veloso, que virou tema de uma novela global. Com um estilo bem-humorado, o quarteto paulistano se destacou por um som leve e dançante, com letras abordando o cotidiano urbano.  

 

Em 86, Kid deixou o grupo e gravou um LP com a banda Heróis do Brasil. Em 89, lançou um álbum solo. Ao longo dos anos, Kid e o Magazine voltariam a se reunir e a gravar.

 

Considero até mais forte o trabalho de Kid Vinil como um educador do rock’n’roll. Li um texto de alguém comentando que naqueles tempos, no final dos anos 70, quando ainda não tínhamos a rede mundial de computadores, “Kid era a internet”.

 

Uma enciclopédia musical, em toda a sua carreira, atuou como divulgador das novidades que rolavam lá fora e aqui no Brasil. Muita gente conheceu novos artistas e bandas graças a ele. Em uma entrevista no ano passado, em sua casa, ao programa Vídeo Show, da TV Globo, Kid disse que sua coleção de discos reunia em torno de 10 mil CDs e outros 10 mil vinis.

 

Na TV Cultura, apresentou o programa Boca Livre, que abria espaço para o rock nacional, principalmente o independente, e o Som Pop, no qual apresentava clips. Um dos melhores momentos do Som Pop ocorreu no começo dos anos 90, quando Vinil produziu uma série sobre a história do rock, com direito a teatralizações divertidíssimas em que se vestia a caráter como punk, metaleiro, gótico e outros tipos.

 

Essa série do Som Pop tornou-se uma febre para mim. Gravei e revi infinitas vezes, a ponto de decorar e imitar frases ditas por Kid no programa, para alegria ou irritação dos meus amigos. “Pois é. Essas novas bandas que vieram a partir dos anos 80 trazem de volta as velhas guitar bands, a psicodelia e o rock de garagem dos anos 60. Tudo isso misturado com energia punk e, é claro, a usina sonora do heavy metal”, discursou ele no episódio dedicado a grupos barulhentos dos anos 80 e começo dos 90.

 

Tive o prazer de conhecer Kid Vinil e de entrevistá-lo para o Jornal de Brasília no começo da década de 2000, quando veio à capital para participar do festival Porão do Rock. Foi uma longa conversa na extinta Academia de Tênis, onde se hospedou. Na ocasião, falou do Magazine, de influências e do trabalho que começava a desenvolver como gerente da área internacional da recém-criada gravadora Trama.

 

Após a entrevista, contei-lhe que era fanático pelo Som Pop e que ficava imitando suas performances. Então, fiz a imitação para ele, que riu muito. Meses depois, durante visita à gravadora Trama, em São Paulo, o cantor me viu e veio me cumprimentar. O cara era extremamente simpático e atencioso.

 

Kid Vinil deixa saudades, por seu imenso carisma e pelas quatro décadas de amor à música, responsável pela formação de muitas cabeças roqueiras. Valeu demais!

 

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

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