O rei da baixaria

May 23, 2017

Uma das coisas boas destes tempos ultraconectados são os documentários da Netflix. Tem de tudo lá: sobre tubarões que ameaçam banhistas, o último homem que pisou na lua, o ator sob a máscara de Darth Vader, bandas musicais que pouca gente ou quase ninguém ouviu falar, como a Incredible Bongo Band. É um cardápio que você nunca sabe se virá uma iguaria ou uma verdadeira bomba. Convém garimpar, convém perguntar. De vez em quando só nos resta parar no meio do caminho.

 

                                                                     Foto: divulgação

Nisso foi lançado agora uma produção da própria Netflix chamada “Get me Roger Stone”, sobre um supostamente ultrapoderoso consultor político de Donald Trump. Stone estaria por trás de célebres baixarias atribuídas ao atual presidente americano, como sustentar que Barack Obama não era americano, ou na concepção de camisetas com os dizeres: “Clinton estuprador”. Coisas de deixar João Santana ruborizado, se bem que talvez isso não seja possível.

 

Roger Stone é apresentado como um arrivista egocêntrico, um fanfarrão extravagante que tem feito maldades em campanhas eleitorais desde os tempos de Nixon, nos anos 70. Como parte considerável dos documentários do cardápio da Netflix, a construção do personagem se dá por meio de entrevistas com ele ou com quem convive com ele. No caso, para dar um padrão luxo a Roger Stone, uns do que mais falam sobre o sujeito é o próprio Donald Trump.

 

O espectador pode pensar: “Oh, para o Trump parar sua agenda para conceder entrevistas sobre esse Roger ele deve ser bom mesmo”. Mas depois, no decorrer do filme, é também possível perceber certo cacoete que perpassa boa parte dos documentários. Há uma tentativa forçada, artificial, de tornar o personagem ou o tema maior do que ele realmente é. Como se Roger fosse o verdadeiro cérebro de Trump. Parece não ser o caso. Gostemos ou não, o presidente americano tem estrela própria. Em tempo - o filme sobre o cara da máscara do Darth Vader, “I am your father”, dá a entender que o pobre homem, de quem não se aproveitou nem a voz, se tratava de um Laurence Olivier injustiçado sob o disfarce de terror das galáxias.

 

“Get me Roger Stone” no final das contas é um bom documentário.  Mostra facetas da campanha de Donald Trump que talvez ainda não sejam conhecidas para o brasileiro. São curiosas as dicas de Stone para o marketing político, como lidar com a mídia: “é preguiçosa, maligna, ou ambas as coisas”. O filme cumpre a função social dos documentários Netflix de instruir sem entediar.

 

Mas quer ter emoção, reviravoltas, surpresa, surrealismo, vingança, roteiros inventivos: pode acompanhar qualquer jornal televisivo brasileiro na parte de política.

 

Fabiano Lana é jornalista, filósofo, cinéfilo, colecionador de discos de vinil e colaborador da Se7e Cultura

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