• André Giusti

Brasília de grilos e vagalumes


Uma lembrança forte que tenho da infância bem remota são os grilos cantando na varanda da casa de uma de minhas tias, no bairro da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro.

foto: divulgação Portal dos Animais

Concentrava meus ouvidos naquele cri-cri-cri incansável e em poucos minutos ele já pairava acima da conversa chata dos adultos. Mais meia hora que se passava, e a cantoria repetida embalava meu sono no início da madrugada.

E como a opção fosse pelas luzes apagadas para que o luar desse conta da varanda escura, vagalumes cortavam as sombras da noite, completando meu divertimento e desaparecendo quando o peso do cansaço cerrava meus olhos.

Permeando o cantar dos grilos e o luzir mágico dos vagalumes, a brisa entregava o cheiro da maresia que vinha de uma Baía de Guanabara ainda não poluída (ou pelo menos não tanto).

Eu cresci, o Rio de Janeiro ainda mais do que já era na minha infância. Por lá, provavelmente não haja mais sinfonia de grilos nem piscar de vagalumes.

Aos 30 anos, viajei 1.200 quilômetros para mudar completamente minha vida e minha história, e no primeiro dia morando numa antiga quadra da Asa Norte, o que ouço ganhando o silêncio de fim de noite? Sim, minha infância viajando na distância da geografia e do tempo para me visitar. Meu Deus! Em Brasília se ouvem grilos! Sorri consternado, e logo pensei nos vagalumes, sem imaginar a surpresa que um apagão na cidade me reservaria cerca de uma semana depois: duas ou três luzinhas esverdeadas acendendo e apagando junto ao tronco da sibipiruna próxima à minha janela.

E como o cheiro da maresia não chega até aqui, me viro como posso com esse perfume agreste do cerrado e suas flores exóticas, suas belas árvores tortas.

André Giusti é jornalista e escritor


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