• Juliana Monteiro

Cidadã brasileira em Roma traz novos relatos emocionantes da quarentena


Hoje é o décimo quinto dia de quarentena. Estamos em casa desde 4 de março, ainda que tenha sido decretada, oficialmente, cinco dias depois.

Já não fazemos planos para quando tudo passar, agora adaptamos a vida resignados à uma longa temporada. Com o número de mortos e contagiados crescendo a cada dia, evitamos o assunto, é de mau tom e é também para não desesperar.

As palavras “sábado” e “domingo” têm tanta relevância para distinguir ócio e trabalho quanto “carambola” e “geladeira”, todos os dias tem trabalho, todos os dias são de ócio.

Com duas crianças em casa, os adultos, entre os quais me incluo, passam muito tempo na cozinha, café da manhã, almoço, louça, janta, leite, água, louça, mais louça, a cozinha é o centro nervoso da logística dos dias. O fato do encanamento da pia ter arrebentado logo na primeira semana é o toque trágico do roteiro. A pia da cozinha. Que é integrada à sala.

O encanador mora em outra comune, não pode vir aqui, nem numa emergência, tentou orientar por telefone e Gui passou três dias tentando resolver o problema antes de se conformar em esvaziar a pia no balde e o balde no ralo do terraço. As casas italianas simplesmente não tem ralo. Nos dois primeiros dias pensava em pular do quinto andar, hoje, ver o Gui com o balde cheio atravessando a sala enquanto despacha com o chefe pelos fones de ouvido, faz parte da paisagem junto com o rastro de brinquedos que desisti de catar do décimo primeiro dia e desde então digo que amanhã dou um jeito nisso.

Hoje nos vimos reaproveitando papel toalha. É um dos produtos que não consegui comprar na última missão do mercado. Também não consegui comprar pão, água, leite, mozarela e, claro, papel higiênico, obsessão mundial.

As duas vezes que saí de casa foram para ir ao mercado e se mantemos a gentileza e a solidariedade também mantemos cada vez mais distância uns dos outros. Ninguém divide mais a mesma calçada, falamos quase de perfil uns com os outros, mas preferimos não falar, os gestos às palavras, o romano jamais foi tão silencioso, acho que por isso me parecem tão abatidos. Também me sinto abatida. O confinamento dá uma paúra de falta de anticorpos quando saímos à rua. De repente você não quer que todo esforço seja em vão. Não toca em nada que não seja imprescindível, mesmo de luva cirúrgica, afasta o cabelo do rosto com o ombro, vai pra casa querendo se livrar logo das luvas cheias de coronavírus. Na segunda ida ao mercado foi tudo mais triste. Não achei que fosse ter desabastecimento em Roma, não vi ninguém com pilhas de papel higiênico mas, sim, as prateleiras estavam vazias. Gastei uma fortuna comprando marcas mais caras do que costumo comprar, eram as últimas opções. Tem salmão defumado e importado mas eu trouxe as três últimas bandejas de presunto. Prosciutto cotto. Em Roma. Mesmo assim, não faço estoque, compro o suficiente pra uma semana, preciso conservar os escrúpulos para depois da guerra, recomendo a todos, teremos muito a construir, não nos percamos. Se estamos na merda, continuamos sendo (ainda mais) privilegiados. Mais do que nunca tudo a minha volta, na minha casa caótica, é privilégio.

A escola de Gael, sem perspectiva de retorno, ativou a tele-aula, sem planejamento ou testes, tudo sendo criado enquanto funciona, un casinò. Somos forçados a participar ativamente da vida escolar dele - italiano e demais humanas para mim, inglês e exatas pro Gui, coitado. Mas eu fiquei com o italiano, é justo, e também é das maiores delinquências da minha vida. Na tela do computador, a carinha dos amigos da turma escutando a maestra dar o seu melhor para ter a atenção de crianças de 8 anos, nessas circunstâncias. Não é fácil para elas, precisam cumprir o programa que celebra a primavera trancadas na quarentena. Era para estarmos voltando às ruas depois de tanto inverno, quantos drinks adiei esperando o frio passar.

Anita sente falta da escola, da rotina e dos amigos. Coloca a casa abaixo e eu só interfiro quando o foco de incêndio está perto do álcool gel. Durante boa parte do dia eu e Gael tentamos estudar e Gui tenta trabalhar. Ela fica quicando entre nós, algumas tardes, de tão entediada, dormiu, o que não fez nem quando recém nascida. Ela agora prepara seu próprio leite levando pra lá e pra cá uma escada quase do tamanho dela. Demora uns 20 minutos, já é alguma atividade, antes a gente intervinha, agora só olhamos torcendo pra não derramar muito chocolate na bancada.

Ontem nosso porquinho da Índia morreu. Ele chegou aqui apenas uma semana antes da terra parar e tornou-se a novidade dessa temporada, uma fonte de ternura e, se as crianças ficaram felizes com a quarentena, foi porque podiam passar o dia todo com o Zico. Pelo menos pudemos todos chorar. É mesmo extraordinária nossa capacidade de amar, é só o que nos redime da destruição que provocamos, do contrário o planeta faria bem em expelir nossa espécie.

O que salva são as palmas que antes tinham hora marcada mas agora acontecem em qualquer momento de desespero. Começa com alguém batendo palmas e elas ecoam por essas ruazinhas romanas desertas. Um vizinho escuta a palma e bate também, tecendo a manhã, como no poema de João Cabral de Melo Neto. As pessoas escutam, saem para suas varandas e janelas, alguém coloca uma música ou puxa uma canção. Do meu terraço vejo pouca gente mas escuto alto o barulho e a cantoria dos prédios vizinhos. Os sentidos precisam se adaptar, os olhos escutam, os ouvidos enxergam e aí temos uma imagem da vida por trás das paredes.

Tem uma senhora no prédio em frente que sempre me faz sorrir, “Coraggio, ragazzi! Andrà tutto bene! Siamo forti! Siamo il bravo popolo italiano!”, mas hoje chorei. Que também ninguém é de ferro.

Juliana Monteiro, jornalista brasileira, mora no bairro de San Giovanni, de Roma, há seis anos e compartilhou o relato acima em suas redes sociais.


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