• Vinícius Brandão

O Banquete (2018)


O cinema, inúmeras vezes, se mete a desenvolver histórias com narrativas teatrais, que se passam em um único cenário. Hitchcock, o mestre, fez isso de forma magistral com uma sugestão de plano contínuo em Festim Diabólico. O cenário é sempre o mesmo, com mudanças e dinâmicas feitas pelas ações dos personagens. Chegou a vez de Daniela Thomas experimentar com este O Banquete.

Ela acompanha um jantar entre amigos jornalistas de uma revista organizado na casa de uma das editoras, Nora (Drica Moraes). O grupo parece querer esquecer a tensão da possibilidade do fim da revista e da carreira deles no dia seguinte devido ao contexto político do Brasil em 1992. Mas Nora tem uma intenção secundária com as pessoas convidadas para o banquete.

O espectador, assim como vários dos personagens, compreende isso quando Maria (Fabiana Gugli) percebe que não é uma festa, mas uma janta, e que terá que compartilhar mesa com o amante e a esposa dele no aniversário de casamento dos dois. O companheiro dela, Lucky (Gustavo Machado), tenta quebrar a tensão com piadas sobre sexo e pequenas observações sobre os conflitos entre os presentes.

Com esse olhar sarcástico, Thomas (também roteirista do filme) dá o tom de humor cruel para tratar aquelas relações tão humanas e tão complexas. É tanto ódio contido. Somado a tanta raiva e tristeza. O resultado é um clima doentio, em que toda fala parece reforçar que, por trás de toda cordialidade da vida adulta, há segundas intenções. Sejam elas sexuais ou violentas.

Para dar a noção de uma história que se desenvolve em tempo real, como em uma peça, Thomas faz as cenas com planos longos que seguem os personagens pelo cenário. Assim, quando a convidada surpresa Cat Woman (Bruna Linzmeyer) toca a campainha, todos olham na direção da porta, a câmera corta para seguir a personagem por trás até ela ser revelada para os outros convidados.

O foco é sempre de pouca profundidade, para que o espectador esteja fechado junto com os personagens e suas perspectivas individuais. O que também deixa sempre difícil compreender todo o espaço. Além disso, usa de tons monocromáticos junto com uma fotografia granulada para dar uma sensação de um lugar nebuloso e claustrofóbico. Nada mais adequado para as situações nojentas em que os personagens se encontram.

Tudo isso sustentado por grandes interpretações. Todos os personagens são complexos e diferentes entre si, apesar de terem a mesma motivação sempre: o sexo, o medo e o ódio. Desde Maria, contida e tímida, mas que se recusa a abrir mão do amante, até a Nora, fria, calculista e vingativa. Destaque para a excelente interpretação de bêbado de Caco Ciocler, que é tanto vítima quanto culpado do casamento doentio em que vive.

Porém, as discussões, as piadas cruéis e a ambientação nojenta em que esses convidados estão não sustentam o ritmo com fluidez. Especialmente quando o foco muda para Lucky e a vontade dele de transar com o garçom. Ele é um dos poucos personagens sem conflito e desenvolvimento, então se torna um fardo para a velocidade do filme. No entanto, não compromete o ótimo texto.

Assim, Thomas conduz uma longa conversa que faz rir pela tensão e pelo desconforto, mas também leva a reflexões sobre relações monogâmicas, sobre como ódio se liga a sexualidade e sobre como o rancor pode ser imaturo e se sustentar até em adultos que não percebem como são vulneráveis.

Foto: divulgação

Vinícius Brandão é autor do site Aquela Velha Onda e parceiro da Se7e Cultura. Acesse aqui a programação dos cinemas.


4 visualizações

Posts recentes

Ver tudo
Anuncie aqui na Sete Cultura
banner 17 dias.jpg
thumbnail.jpg

Os roteiros de cinema, shows, teatro, diversos, exposição e festas não são publicitários. Estes podem ser enviados para o nosso email contato@setecultura.com

Não nos responsabilizamos pelas modificações de última hora. 

As fotos utilizadas são de Divulgação.

Os artigos assinados não são de responsabilidade da Sete Cultura. Todos os direitos reservados. 

Reprodução proibida sem autorização por escrito.

Dúvidas, Anúncios e Programação

Envie seu email para:

contato@setecultura.com

  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon

@setecultura

© 2017 por Sete Ltda. Orgulhosamente criado com Wix.com