• André Campos

O indivíduo é um dogma


Somos contraditórios. Em sociedade, porém, recomenda-se camuflar conflitos internos. Põe aí a máscara de fodão rapidinho, camarada, senão dá ruim. Os mercadores de certeza – da política, da cultura, das famílias – nos guiam atropelando consensos básicos da neurociência. Nossos líderes escondem ou ignoram que o chamado indivíduo é um conceito questionável. Tão frágil quanto categorias como coletivo ou bem comum. Somos indivíduos contraditórios porque somos sempre muitos – e diversos desses muitos até inconscientes. O fato é que nossos cérebros, segundo pesquisas de ponta, impõem a todos nós uma convivência tensa entre, pelo menos, um eu-que-vive e um eu-que-narra. Na marra, nossos timoneiros escondem que percepções múltiplas nos fazem humanos. No lugar de estimular a dúvida que forja o conhecimento, nossos vitoriosos vendem no exercício do poder verdades únicas industrializadas em narrativas sustentadas por certezas divinas. Somos um povo governado por quem escolheu viver de tabus porque a sabedoria parece um estrangeirismo, uma ideia fora do lugar, um esnobismo. Resultado: vivemos uma democracia malandra, na qual a pluralidade está asfixiada, o novo repete o velho e a banalidade do mal generalizou-se. Oxalá as águas de março deste ano eleitoral lavem a nossa alma brasileira que, felizmente, insiste em ser mais alegre do que triste.

foto: ilustração Cabeça de Dinossauro

André Campos é jornalista e colaborador da Se7e Cultura nas horas vagas


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