• André Campos

Intervenção no Rio: só sei que nada sei


A intervenção no Rio é um daqueles trecos que deixam a gente mais confuso do que convicto.

Ainda mais se você possui uma história pessoal que passa pela Vila Isabel de Martinho e Noel.

Muito difícil acreditar que um general de quatro estrelas com Michel Temer ao telefone representa uma mudança auspiciosa no cenário de guerra fluminense.

Mas dava pra esperar?

Realmente fico sem resposta pra essa pergunta. E sei que dependendo do interlocutor, vou me deparar com posições conflitantes.

Depois do fracasso anunciado da reforma da Previdência, a opção sensata era o governo federal ficar paradão, sangrando rumo ao traço nas pesquisas de opinião?

Como seria a eleição de 2018 no Rio com esse clima de barata-voa, de esculacho geral?

Não sei. Posso argumentar que não dava pra esperar. Dou conta de defender uma posição crítica, de que seria melhor fazer algo mais inteligente.

Não consigo, porém, cravar nada peremptoriamente.

Sou um isentão, mortadela pra coxas, coxa pra mortadelas, atormentado pela total ausência de certezas.

Invejo a convicção de alguns amigos mais estudados. Cheios de verdades, já sacramentam — sem piscar — o fracasso da intervenção. Desastrosa, resumem.

Indago, então: o que fazer no curto prazo senão a intervenção? Fico sem resposta.

A volúpia intelectual por detestar “tudo que está aí” abafa minha pergunta.

Sobra a sensação de que a turma cabeça, com raras exceções, se importa menos com a ação do que com a desconstrução.

O imobilismo é, de fato, uma tradição consolidada do pensamento crítico brasileiro enraizado nas universidades federais, mas com desdobramento nas mais diversas burocracias.

Muitos doutores que conheço e admiro sabem claramente o que não querem, desmontam com apuro todas as iniciativas ideologicamente desalinhadas e sempre apontam interesses ilegítimos por parte de quem discorda deles.

O Brasil é pródigo em acadêmicos moralistas. O problema mais evidente é que esta preocupação com o correto só vai num sentido. Não é algo geral, de estatuto universal.

Fica a impressão de que o pau que bate em Chico não deve bater no Francisco ao analisar o posicionamento da nossa elite pensante.

E isso só aumenta a incerteza da gente comum.

foto: divulgação

André Campos é jornalista e colaborador da Se7e Cultura


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