• Marcelo Araújo

A intolerância chuta nossas portas


No último sábado, visitei um evento bem interessante aqui em Brasília, organizado por algumas das principais escolas de idiomas do país: Cultura Inglesa, Aliança Francesa, Instituto Cervantes e Instituto Goethe. A programação consistiu num mix de atividades educacionais e gastronomia.

Foto: arte divulgação

Quem fosse a uma dessas instituições de ensino poderia assistir gratuitamente a uma aula. O intuito era estimular o aprendizado dos idiomas estrangeiros inglês, francês, espanhol e alemão. E como aprender outra língua não se limita a estudar regras gramaticais e tem muito a ver com a prática cultural (música, cinema, culinária, teatro, literatura,...), o público conferiu o sabor de salsichas e cervejas germânicas, vinhos franceses e várias delícias.

Esse tipo de festividade contribui não só com a divulgação para brasileiros da identidade de outras nações como incentiva a confraternização entre indivíduos de diversas nacionalidades. Essa postura cai muito bem no Brasil e no mundo atuais, em que o fenômeno da intolerância marcha diante dos nossos olhos.

Uma colega disse recentemente uma frase que me chamou atenção: “Algumas pessoas em nosso país já eram homofóbicas, racistas, elitistas, machistas e agora estão aprendendo a ser xenófobas e fascistas”. Triste constatação.

Ao acessarmos redes sociais ou mesmo manifestações de rua, vemos, sob o manto de uma pretensa politização e combate à corrupção, ódio estampado em muitos rostos, com palavras de ordem contra os direitos individuais, censurando exposições de arte e até pregando o retorno da pavorosa Ditadura Militar que mergulhou o Brasil em trevas por mais de duas décadas.

Pura ignorância. Muitos desses enraivecidos nem viveram aquele período e não imaginam o que é sofrer sem liberdade, podendo ir para a prisão a qualquer hora do dia ou da noite, sem acusação formal, com tortura e até assassinato. Quem também acha que não havia corrupção na época da Ditadura dê uma olhada nas obras faraônicas – muitas inacabadas – torradas com dinheiro público sem qualquer critério ou consulta à sociedade. Veja também que determinadas figuras que protagonizam escândalos na política mamaram intensamente nas tetas do estado durante o regime opressor iniciado em 1964.

Tudo bem que a intolerância se espalha pelo mundo, dos neonazistas ao Estado Islâmico, mas cabe aos brasileiros de bom senso reagir a esse monstro que nos momentos de crise cresce com vigor e ameaça nos abocanhar. Que este terror seja, de fato, uma página virada em nossa história.

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Autor do blog www.tijoloblog.wordpress.com. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.


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