• Fabiano Lana

Um cinema ilustre e cristalino


Quantas vezes a gente já ouviu algo como: “Ah, filme brasileiro? Nem pensar”. Então tentamos nos aprofundar na questão da rejeição e ouvimos argumentos como se as películas brasileiras fossem uma mistura de sequências com grandes pretensões artísticas de sexo, favela e ditadura. Mas em geral não se entende bem o que está se passando.

Foto: Divulgação

Como um fã declarado de filmes nacionais, tenho de tentar convencer meu interlocutor, muitas vezes de maneira infrutífera, que não é bem assim.

A outra opção de cinema nacional são aquelas comédias ligeiras, aparentemente uma continuação de produções televisivas transpostas para a tela (ok, nesse caso eu estou sendo preconceituoso, mas um dia tento me justificar melhor).

Esses pensamentos voltam à mente depois de assistir ao argentino “O Cidadão Ilustre”, de Mariano Cohn e Gastón Duprat. O mote é a decisão de um entediado e enfadado prêmio Nobel de literatura de voltar após 40 anos para receber uma homenagem no povoado em que nasceu.

Mas o que há nesse filme em especial? Ora, sem pretensões de ser uma grande arte é um filme que traz com naturalidade as aspirações cinematográficas brasileiras. “O Cidadão Ilustre” pode ser visto como comédia ligeira, pode ser visto como discussão do trabalho artístico, tem sexo (mas sem ser gratuito), e é absolutamente compreensível, cristalino. A história flui.

Mas por que não conseguimos produzir filmes assim? Tem algo a ver com o que uma antiga professora sentenciava em sala de aula: é preciso dizer as coisas complicadas de maneira simples e não o contrário. O cinema argentino consegue isso. Estamos no lado oposto.

E por que eles conseguem? Por enquanto só me resta especular. Mas basta flanar pelas ruas de Buenos Aires para trombar com uma livraria em cada esquina. O povo lá gosta de ler. E sobre qualquer coisa. E quanto mais gente a ler, mais fácil aparecerem os que gostam e sabem escrever.

E daí? E daí que a diferença primordial é o roteiro. Para escrever o filme em questão, alguém se sentou em uma cadeira, escreveu e reescreveu uma história. Leu o que fez, reescreveu, releu. Todo o processo com o objetivo de servir o espectador. A obra de arte cinematográfica argentina em geral não é um fim em si mesmo, não é um labirinto. É destinada ao público. Não considero nem que um artista deva se curvar à plateia, aprecio a confusão e até o desdém ao espectador, mas há em filmes como “O Cidadão Ilustre” o respeito ao sujeito que comprou o tíquete.

Ah, parece que já vai sair dos cinemas. Corra para assistir. Confira aqui a programação.

Fabiano Lana é jornalista, filósofo, cinéfilo, colecionador de discos de vinil e colaborador da Se7e Cultura


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