• Fabiano Lana

Um corpo estranho entre as séries da Netflix


Há um corpo estranho entre as opções de seriados da Netflix: a terceira temporada de Twin Peaks. Estranho é pouco. É bizarro, esquisito, insólito, extravagante, incompreensível, anormal e tudo mais que o dicionário traz de sinônimos para essas palavras. E passadista também. Retrô, como dizem. Com seus efeitos anacrônicos, fica até uma dúvida se os novos episódios dessa terceira temporada foram filmados lá pelo começo dos anos 90 e agora liberados ou se trata de coisa nova. A dúvida só se dissolve quando percebemos que os atores de fato envelheceram. Mas a falecida Laura Palmer, o agente especial Dale Cooper e alguns outros estão de volta.

Foto: Divulgação

E o diretor David Lynch continua sendo David Lynch. Não está nem aí se a questão é fornecer uma história a ser compreendida prontamente pelo espectador. Esqueça isso! Em Twin Peaks há longas sequências onde a intepretação não é uma possibilidade viável. Em outras palavras, a gente não entende nada. Mas se desentende com dificuldade de piscar os olhos. É uma viagem, um pesadelo que se até tenta sair, mas não consegue face à qualidade do tormento. É uma aflição que nos prende no sofá. Vale.

Mesmo velho e mofado, Twin Peaks está à frente de qualquer outro seriado badalado aí. Sua história se movimenta em um milhão de possibilidades de compreensão (ou nenhuma). Breaking Bad, House of Cards, Billions, Mad Men são todas ótimas, muito bem encandeadas, tramas com reviravoltas espetaculares. Mas conservadoras na forma, no roteiro. É tudo mastigado para o espectador não se perder. Sense8 com seus personagens trans, sexo grupal, e sei lá mais o que é a mesma coisa: uma série conservadora. Historinhas new age bem amarradinhas – na técnica são pinturas realistas, aquarelas. Twin Peaks é pintura abstrata, expressionista. O que Twim Peaks aparentemente perde na tecnologia atrasada ganha na vanguarda. Twin Peaks é mais nova do que todas essas séries aí!

Lembro-me em 2002, se não me engano, na saída do cinema, pessoas e mais pessoas dando sua interpretação particular para “Cidade dos Sonhos”, de David Lynch. Brigavam para mostrar que tinham razão. E “Cidade dos Sonhos” era apenas brincadeira de criança perto de “Império dos Sonhos”, de 2006. Na saída do cinema, em geral silêncio das pessoas que resistiram às 3h17 de duração. Esse sim, impossível de entender, mas uma maravilha de se ver (assisti duas vezes, um dia e no outro, o que para muitos depõe contra mim). “Império dos Sonhos” é o auge da transformação de um pesadelo incompreensível em obra de arte – e se a memória não me falha sem derramar uma gota de sangue na tela.

Então, Twin Peaks 2017, ao trazer de volta essa tradição do incompreensível, é o que mais de instigante, avançado, vanguarda que temos por aí. E, muito importante, se você não viu a primeira (ótima) e a segunda (ok) temporadas, não importa. É para se soltar.

Fabiano Lana é jornalista, filósofo, cinéfilo, colecionador de discos de vinil e colaborador da Se7e Cultura


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