• André Campos

Cultura e política como vocações


O Mecanismo, série sobre a Lava-Jato de José Padilha, vai jogar mais sujeira no ventilador em pleno ano eleitoral

Foto: Divulgação

No cruzamento entre cultura e política, a notícia mais importante vem do Netflix. Agora em junho começam as filmagens de O Mecanismo.

Inspirada na Operação Lava-Jato, a empresa líder do segmento de streaming anuncia o lançamento da nova série para 2018.

A direção fica a cargo dos premiados José Padilha (Tropa de Elite) e Elena Soarez (Eu tu eles).

Selton Mello – que dispensa referências – é o protagonista da trama, no papel de um delegado aposentado da Polícia Federal.

José Padilha pega um, pega geral – sempre com qualidade técnica, respeito pelo público e faro apurado para negócios.

Com fino domínio da linguagem audiovisual, o cineasta promete dar uma carcada nas vacas sagradas da política em pleno ano eleitoral.

Recentemente em O Globo, jornal no qual é colunista, Padilha explicitou seu posicionamento sobre a crise engendrada pela força-tarefa liderada pelo juiz Sérgio Moro.

“A Lava-Jato deixou claro que existe, no âmago da democracia brasileira, um mecanismo que transfere recursos da sociedade civil para quadrilhas formadas por fornecedores do Estado e partidos políticos”, defendeu.

Exceção na esfera da cultura brasileira, José Padilha é um realizador que bate duríssimo nas lideranças progressistas do país.

“É evidente que Lula, Dilma e o PT desviaram grande volume de recursos públicos em conluio com lideranças do PMDB. Nenhuma pessoa razoável consegue negar isto face as evidências disponíveis”, cravou.

O que propôs então o diretor? “Aplicada a lei, deveriam ser presos.”

José Padilha criticou sem dó “os pensadores de esquerda” que postulam “mirabolantes teorias conspiratórias para negar que Lula e o PT sejam corruptos, acusando a mídia, os procuradores e os juízes da Lava-Jato de tortura e de perseguição”.

Ficou patente o desconforto dele com a “gente inteligente” que relativiza a corrupção e argumenta com desfaçatez: “Se todos são corruptos, melhor ficar com os que têm consciência social”.

Pronto. Vixe! Lá vem o empolgadão, todo-todo serelepe, com aquele caô de craque que chuta com as quatro. “Podemos concluir, portanto, que José Padilha é um coxa lascando os mortadelas, certo?”

Nã, nã-nã, nã-nã. Nada disso. A complexa realidade brasileira não permite mais análises tatibitates, camarada apressadinho.

No mesmo balaio da Lava-Jato e do arrocho econômico, o debate político chegou a um limite no qual as reduções maniqueístas e as palavras de ordem precisam ser abandonadas.

Mas todo fim também é um começo, com o perdão do clichê. E depois de tanta destruição, a crise precisa despontar como inovação.

Então, agora vai? Aí depende de nós, cidadãos, como sempre. Está óbvio apenas que a desconstrução pura e simples nada resolve.

Bora conferir o que isso significa por intermédio do que batizei de “Método Interpretativo da Realidade Ruim Com o Capiroto, Pior Com o Anticapiroto”.

Ao aplicar a minha engenhoca se percebe, por exemplo, que a mais refletida posição crítica em relação às reformas propostas pelo governo federal (capiroto) NÃO pode ser uma postura intransigente antirreformas (anticapiroto).

Pensa comigo: se a moda anticapiroto pegar e tudo ficar como está, a bicicleta brasileira quebra e aí fodeu. Acabou a brincadeira.

Desculpa aí o palavrão e a alegoria satânica de mau gosto. Viajei. Onde eu estava mesmo antes desse papo infernal, hein?

Ah, voltando, meu diagnóstico é que José Padilha não sofre de binarismo crônico.

O argumento central do cineasta na coluna em questão é que “opera” nos meios intelectuais nacionais “um estranho princípio da reciprocidade” ideológica.

“Este princípio está tão arraigado no Brasil que estou convencido de que até os ministros do STF o levam em consideração”, afirmou.

O desdobramento deste raciocínio, segundo ele, é que “o STF deve estar se preparando para condenar algum político importante do PSDB no âmbito dos processos apresentados pela PGR antes do que se imagina”.

“Candidatos não faltam”, apostou José Padilha.

Na avaliação dele, a confirmação deste roteiro – tchan!, tchan!, tchan!, tchan! – “seria uma ótima notícia”.

Porque “o PSDB sofreria um baque e Lula poderia ser preso sem que o princípio da reciprocidade ideológica fosse contrariado”.

Ufa. José Padilha não pensa apenas fora da caixinha do Fla-Flu.

Reflete num octógono. Distribui pancadaria no melhor estilo MMA. Seu texto faz sangrar geral!

Ele tem o dom de desagradar a todas e a todos no circo político – militantes e atores tradicionais.

O cineasta dá também uma banana para dogmas, tabus e jargões de especialistas como advogados, cientistas políticos, sociólogos, antropólogos, jornalistas, economistas e afins.

Do lado do público, tanta liberdade é muito bem-vinda. Mas retratar a verdade – ou as verdades, sempre no plural – me parece meta inatingível para as gigantes do entretenimento dispostas a contar estórias.

Isso não impede, porém, de se aventar – com expressiva margem de segurança – um impacto considerável d’O Mecanismo no pleito de 2018.

Vivemos num mundo em que as percepções moldam o real (talvez tenha sido assim desde o Big Bang e só agora tudo esteja mapeado).

Nessa perspectiva, o pensamento livre de José Padilha – a ser ativado em rede pelo Netflix – projeta um estrago bisonho na já trincada imagem dos políticos às vésperas da corrida eleitoral.

Qual o tamanho exato desta nova chacina de reputações? Gigantesca, suponho. Global, arrisco.

Cínico e desesperançado, o eleitor de 2018 pode terminar refém de clones made in Brazil de picaretas-winners da laia de Roger Stone, estrategista sênior de Donald Trump e definidor do conceito de política como “o show business para pessoas feias”.

Oremos. Que Nossa Senhora dos Políticos Delatados – santa de devoção da ex-presidenta Dilma Rousseff – proteja a democracia desta nação deitada eternamente em berço esplêndido.

André Campos é jornalista e colaborador da Se7e Cultura


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