• André Campos

Só The Jesus and Mary Chain salva


Como contar a amigos mortadelas que você gostou de um político megacoxa

Foto: Divulgação Tocava no meu Spotify “Espiral de Ilusão”, lançamento do cantor e compositor Criolo, a mais completa tradução de uma cena cultural paulistana que ganhou o Brasil.

Quando o celular tocou.

“Alô, velho?!? Sou eu! Tá me escutando? Ouve aqui, camarada: minha vida pirou total e foi parar num roteiro de Damon Lindelof”, sussurrou, claudicante, um amigo asanortino de passado glorioso no roquenrol.

Demorei frações de segundo para me lembrar de Damon Lindelof, o roteirista do malfadado episódio final de Lost. Putz! Deu ruim.

Entendi logo que se tratava de uma emergência.

“Oi, meu irmão, pode falar um pouquinho mais alto? Aconteceu alguma coisa séria? Morreu alguém? Tá tudo bem?”, interpelei, preocupado, depois da abordagem sinistra.

A voz trêmula seguiu fantasmagórica. “Tudo mais ou menos, né. Guentaí... pronto. Estou saindo aqui do gabinete do Dória. Vim acompanhar um cliente. Dória, sabe, o prefeito de São Paulo?”

Claro que eu sabia. “E eu com isso?”, emendei algo impaciente, porém, aliviado com a ausência de um cadáver na história.

“Brother, tô impressionado com o sujeito. Todo almofadinha, mas despachado, um avião. Como é que vou contar que gostei do megacoxa pros nossos amigos, um bando de mortadelas? Será que virei direitista raivoso?”, rangeu, compungido, meu quase irmão.

Ri, mas de nervoso. A situação exigia recato até de mim, um liberal confesso, reduzido pelos adoradores do Estado e populistas em geral a um inocente útil metido a “isentão”. Ou seja, um bosta.

Pensei em pegar o atalho do pessimismo vulgar e avisar, clichê e de supetão, que os políticos – inclusive os que se apresentam como gestores – frustram sempre seus admiradores. Só que não.

A vida quer é coragem. “Quem não tem proceder, já era.”, cantei.

Embalado por “Hora da Decisão”, samba-protesto de Criolo, falei ligeiro e seguro: “Cara, não fica assim, na política, sabemos, é fera engolindo fera, sai do armário e, portanto, assume que gostou do Dória, não há crime nisso”.

Fiz uma pausa em busca da entonação perfeita. Para emendar: “Vai ficar tudo bem, somos todos adultos, experientes, não existe mais esse troço de direita e de esquerda, estamos no século 21”.

Apesar da convicção, não convenci.

Respirei fundo e citei, fleumático, o exemplo de lucidez e conciliação do usuário de crocs Pepe Mujica, ícone global para os esforços por um mundo melhor.

Em entrevista recente a Pedro Bial, Mujica falou coisas certas com sandálias erradas (crocs, gente, definitivamente não dá) e considerou o impeachment de Dilma “uma decisão legítima”.

Autointitulando-se “amigo político da Igreja Católica”, o ex-presidente uruguaio mitou ao legalizar a maconha, o aborto e o casamento gay durante seus governos.

“Vivemos na fronteira de mudanças institucionais que terão de chegar”, profetizou Mujica, em tom reformista, na TV Globo.

Com lirismo, acrescentou então que a luta pela justiça social era, no fundo, “solidariedade pelos oprimidos e, também, pelo opressor”.

E ainda definiu, poético, a política como um instrumento para “tentar colher amor social”.

“Porra, eu vi a entrevista. Maravilhosa. Venero o Mujica desde sempre. E só comecei a gostar do Dória agora”, contou, agonizante, a voz do outro lado da linha.

Um fiapo sonoro ainda argumentou. “Mujica tem 80 anos, André, e consegue o milagre de ser mais querido que o Lula entre os nossos amigos fundamentalistas! Eu não tenho o mesmo carisma dele para polemizar sem ser sacaneado.”

Perante tanto sofrimento via smartphone, desisti de fazer um paralelo entre o meu interlocutor e o ex-guerrilheiro Tupamaro.

Minha última cartada foi propor uma troca. “Conta que você até simpatizou com o Dória, mas ficou encantado mesmo com o programa do Gregório Duvivier na HBO.”

Silêncio. Mais silêncio. Psiu! “Você acha que vai funcionar?”, perguntou, ressabiado, o neodorista.

“O Greg News surgiu como candidato a melhor programa na faixa das 22h de sexta-feira, furou as bolhas ideológicas, fez rir do início ao fim e defendeu com humor causas iconoclastas, inteligentes e inovadoras”, sintetizei com franqueza.

“E se não der resultado?”

“Aí, só Jesus”, berrei, “só The Jesus and Mary Chain – no volume máximo – salva”.

André Campos é jornalista e colaborador da Se7e Cultura


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