• André Campos

Precisamos falar sobre astrolábia


Em plena Lua cheia, Lula presta depoimento a Moro

Foto: Patrick Grosner (www.patrickgrosner.com)

Nesta era de incertezas, encantar é preciso, sugere meu filho Gabriel, louco por astrologia.

Aliás, você já agendou algo especial para a próxima quarta-feira, 10, dia em que Lula presta depoimento a Moro em Curitiba?

Ou este texto é lido por alguém que não muda quando é Lua cheia?

Uma autoprogramada interação íntima com o satélite natural pode até não resolver nada, mas também passa longe de piorar qualquer coisa diante das notícias políticas do mundo, do Brasil e de Brasília nesta metade de 2017.

Como canceriano, recorrer à Lua sempre me pareceu legítimo e útil – mesmo para corações duros e personalidades cerebrais.

Comigo funciona assim: quando a realidade faz a razão bater no teto, ligo minha imaginação e tabelo com o pensamento mágico para não pifar.

Espero que você, cara leitora, caro leitor, drible a armadilha de desprezar a inteligência das pessoas interessadas nos astros como símbolos milenares muito além da pura racionalidade astronômica.

Se a tentação – humana demasiado humana – de diminuir o próximo (ainda mais o próximo diferente) te assombrar, sublime a vibe ruim com uma imersão em Poesia e Verdade, autobiografia de Goethe publicada em 1814.

Pois bem, o escritor germânico começa a narrar seu nascimento – no “dia 28 de agosto de 1749, ao bater meio-dia” – na mais refinada e deliciosa astrolábia. Zero crise, viu. Isso em pleno boom do cientificismo do século XIX.

Aqui ó: “A constelação era feliz: o Sol encontrava-se no signo de Virgem e em seu ponto culminante para esse dia; Júpiter e Vênus contemplavam-no favoravelmente e Mercúrio sem hostilidade; Saturno e Marte mantinham-se indiferentes”.

Segue, então, o pai do romantismo: “Só a Lua, cheia na ocasião, (...) opunha-se, por isso, ao meu nascimento, que não se consumou senão depois de transcorrido aquela hora”.

Goethe lapidou ele próprio a versão fantástica de ter superado a oposição de uma Lua cheia para nascer. Projetou-se, dessa maneira, na história como um vitorioso desde o parto. Foi, sem dúvida, um craque do marketing pessoal avant la lettre.

Conecto o passado ao presente. Atualmente, as mortes recentes de três pessoas tão incríveis quanto Goethe – cada uma, lógico, no seu quadrado – pintam de cinza esses dias nos quais as chuvas, como lágrimas envergonhadas, minguam em prenúncio à seca.

As despedidas de Lília, uma querida amiga, do cantor Belchior (“Alucinação”, de 1976, é sensacional) e do mestre e jornalista Carlos Chagas (um dos meus modelos de elegância e ética profissional) foram interpretadas por mim como um eclipse.

Por isso, no dia 10, vou me fixar no embate entre Lula e Moro, tomar um banho de Lua, reverenciar a memória dessa gente adorável e renascer no brilho intenso do astro. Bora?

André Campos é jornalista e colaborador da Se7e Cultura


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