Olívia Ajuda: um projeto de amor aos animais

Duas amigas, vizinhas, mães e com um amor em comum pelos animais. Assim surge a linda história de um negócio chamado Olívia Ajuda. Olívia é o nome da filha de Patrícia, designer gráfica que começou a fazer lembrancinhas para presentear a família com o nome da filha. Primeiro criou um bloquinho, depois veio a ideia de um calendário de vinil para ajudar nas compras e nos compromissos das mães e hoje são inúmeros produtos que ao serem vendidos são revertidos para ajudar os animais resgatados nas ruas do Distrito Federal.

 

A paixão por animais veio pela filha que pediu um cachorro de presente, a Veruska. A ninhada de Veruska uniu ainda mais Patrícia a Ysabella, funcionária pública e protetora de animais. Patrícia foi conhecendo melhor a causa da amiga e vendo o esforço que ela e outros protetores faziam para cuidar de casos complicados com pouco dinheiro.

 

O trabalho duro de Ysabella é movido pelo coração e sensibilizou Patrícia que decidiu criar estampas para camisetas para levantar recursos para doar para iniciativas como as de Ysabella. Daí para a sociedade foi um pulo. Patrícia é responsável pela criação e pela produção, Ysabella ajuda nas vendas. O lucro é totalmente doado para ajudar a causa dos animais.

 

Olívia Ajuda participa de vários eventos. Só em 2019, a marca esteve nos eventos Carnaval Pet, Hora do Planeta, Feira da Pupila no Dia da Cultura, Feira Ypê e também estará presente nos próximos eventos do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Além dos lindos produtos, a marca também ajuda animais resgatados a encontrarem novos lares. 

 

Os desafios das amigas são enormes. O custo com produção tem que ser baixo e os espaços nas feiras precisam ser doados. As parcerias são fundamentais já que o lucro da marca é todo revertido. Quando não há recursos suficientes para bancar cirurgias, castrações, remédios e alimentação dos bichinhos, a dupla recorre a vakinhas em redes sociais.  No momento, Olívia Ajuda está promovendo uma vakinha para ajudar duas cadelas do Céu Azul. Quem quiser pode contribuir diretamente até o dia 10 de junho, pelo link http://vaka.me/534183. Lá tem a história das duas e a evolução do tratamento delas.

 

Gostou da história? Quer saber mais? Acesse @OliviaAjuda no facebook e no instagram.

Michelle Maia é jornalista e editora da Se7e Cultura

Patrimônio Natural virando cinzas

A tragédia no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, no Norte Goiano, comoveu o país. Um incêndio iniciado há 15 dias já destruiu quase 30% da região, matando animais e a vegetação. Felizmente, não houve registro da morte de seres humanos, porém pode levar décadas para se reparar parte dos estragos, sendo que alguns danos ao meio ambiente talvez sejam irreversíveis.

A catástrofe motivou uma grande campanha pelas redes sociais, mobilizando, inclusive celebridades, como os atores globais Mateus Solano e Cauã Reymond, e a top model Gisele Bündchen. Pela web, famosos e anônimos empreendem esforços para arrecadar recursos e voluntários para não só combater as chamas, como reconstruir o que virou cinzas.

Conversei esses dias com uma pessoa que trabalha na prefeitura de Cavalcante, um dos municípios da Chapada. Ela me contou que o clima geral é de tristeza, por conta da devastação causada pelo fogo. Patrimônio Natural da Humanidade, título concedido pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), o Parque Nacional constitui a principal fonte de turismo para as cidades desta área.

O que surpreende nessa situação é a dificuldade do poder público em esboçar uma reação mais contundente não só em relação ao incêndio na Chapada como em tantas outras tragédias relacionadas a fenômenos naturais. Sabe-se que há séculos secas e enchentes atormentam a vida de moradores tanto dos centros urbanos quanto das zonas rurais, provocando, inclusive, a perda de vidas humanas. Bilhões são enviados todos os anos para “atender” a essas localidades, entretanto os recursos se perdem no ralo da corrupção em verdadeiras indústrias de exploração da miséria, operada por parasitas da pior espécie.

Países como Estados Unidos e Japão – só para ficarmos em dois exemplos – convivem com fenômenos naturais até mais agressivos que os nossos, como terremotos e tsunamis, fora mega incêndios como os que atingem a Califórnia. Há alguns anos, viajei a Israel, uma potência mundial, que tem boa parte de seu território situado em um deserto. Com irrigação e outros recursos, esse povo consegue plantar e criar animais em pequenas propriedades em áreas onde originalmente só existia areia e pedras, sem contar com o aproveitamento do turismo em regiões como o Mar Morto.

Com vontade e criatividade se faz muito. Com a corrupção nada se consegue. Que um dia a gente vire essa página e dê mais valor à belíssima natureza que temos nesta imensa nação chamada Brasil. Ajudemos, de alguma maneira, a Chapada dos Veadeiros.

Foto: Divulgação.

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Autor do blog www.tijoloblog.wordpress.com. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Sob o sol de Judá

Nos meus 47 anos de vida, 36 destes vivendo em Brasília, tive poucas oportunidades de visitar locais com uma seca mais forte do que na capital do país. Em 2017, o calor e a baixa umidade vieram com tudo, castigando os moradores do Planalto Central. Haja água, toalha molhada, hidratante e umidificador.

Em 2008, passei quase três semanas em Israel, em um curso a convite de seu governo. Fiquei a maior parte do tempo em Haifa, uma cidade litorânea, porém consegui visitar outros lugares, como a milenar Jerusalém, Nazaré, a região da Galileia, Cafarnaum, o Mar Morto e o deserto de Neguev.

Israel é fantástico. Recomendo. Parece um país da Europa situado no Oriente Médio, dado seu alto grau de desenvolvimento. Há muitas opções de turismo histórico, cultural e de lazer, com pubs e restaurantes para todos os lados. Do ponto de vista climático, chamou-me a atenção o fato dessa área apresentar níveis muito reduzidos de umidade, lembrando Brasília, e altas temperaturas, o que me recordou minha terra natal, Rio de Janeiro.

Justamente por conta de certas semelhanças naturais, um amigo meu que tinha fixação por imagens bíblicas gostava de comparar Brasília com a região israelense e suas adjacências nos tempos dos ancestrais hebreus. Em meio ao céu sem uma nuvem, ao calorão e à estiagem, ele dizia que a capital do país deveria ser rebatizada de República de Judá, em uma citação a uma das 12 tribos israelitas.

Quando esse camarada queria dizer que o tempo estava difícil de suportar apelava para nomes de figuras do Antigo e Novo Testamento para expressar suas impressões climáticas. “Cara, e esse sol de Jafé! E esse calor de Josafá!”, falava. Ele chegou a produzir uma camiseta com a inscrição Cafarnaum is not Dead (Cafarnaum não Está Morto), em uma alusão à canção Punk’s not Dead (O Punk não Está Morto), da banda britânica Exploited.

Este ano, Brasília está mais quente e seca do que nunca. Aliás, chove cada vez menos. Gosto desta cidade, mas fica difícil se acostumar a uma estação tão árida. A garganta dói, o nariz sangra, a pele resseca, a respiração ofega e até dormir torna-se uma tarefa difícil. Depois de mais de quatro meses sem cair uma gota do céu, o serviço de meteorologia anunciava a vinda de temporais e pedia cautela à população. Ao invés de um dilúvio, tivemos apenas dois dias de uma chuvinha fraca que não conseguiu nem esverdear a grama cinzenta.

Claro que parte da região Centro-Oeste é naturalmente mais seca do que outros biomas brasileiros, porém fica claro que a devastação da natureza por essas bandas piorou a situação. Com a complacência das autoridades, o Cerrado está sendo destruído impiedosamente pela especulação imobiliária e pela agricultura e pecuária predatórias. Não respeitam nada e só pensam em dinheiro. Onde antes existia verde agora proliferam condomínios, edifícios residenciais e comerciais. O concreto nos sufoca. E o pouco que sobrou parece que não vai durar muito, já que áreas de preservação ambiental têm sua destinação constantemente alterada para ceder espaço à ganância do mercado. Mais prédios, carros, lixões a céu aberto, esgotos vomitando dejetos no meio ambiente, escassez de água, calor e seca. Nesse rumo, vamos deixar um imenso deserto para as futuras gerações. Aguardem.

Foto: Divulgação.

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Autor do blog www.tijoloblog.wordpress.com. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Apesar de tudo, feliz Dia das Crianças

O Dia das Crianças não vai ser tão alegre este ano, após a tragédia na cidade mineira de Janaúba, na quinta-feira, 5 de outubro, quando um psicopata atacou uma creche. O demente, que trabalhava no local como vigilante, jogou combustível e ateou fogo nos meninos, provocando a morte de sete deles e da professora que tentou defendê-los. Após o crime, o bandido incendiou o próprio corpo e também morreu.

Não dá para entender o que leva alguém a praticar ato de tamanha brutalidade contra seres incapazes de se defender. Violência é sempre terrível, porém com crianças sempre ganha peso maior. Infelizmente, proliferam casos absurdos que envolvem menores, com violência física, tortura psicológica, exploração sexual, pedofilia, trabalho infantil, vício em drogas e até mesmo assassinatos.

Frequentemente, chegam notícias de crianças mortas em comunidades do Rio de Janeiro vítimas de balas perdidas, em meio a tiroteios entre marginais e polícia. Cito o episódio em que um bebê, ainda na barriga da mãe, levou um tiro, perdendo a vida pouco tempo depois. Ou o caso do garoto encontrado embaixo da cama de um estuprador, em uma prisão no Piauí, aonde foi levado pelo próprio pai.

São ocorrências chocantes. Assusta o fato de parte da sociedade conviver com esse cenário sem se indignar. Será que nos comovemos com as criancinhas com caixas de chicletes na mão, dia e noite, sob sol e chuva, frio e calor, descalças, nos semáforos das grandes cidades, sofrendo para nos convencer a comprar alguma coisa porque se chegarem às suas casas de bolsos vazios vão levar uma tremenda surra?  E outras milhões vendendo o corpo em troca de um prato de comida, carregando fuzis e trouxinhas de drogas, abusadas dentro do próprio lar ou convivendo com esgoto e balas perdidas nas favelas? O que se faz para mudar tudo isso?

Espanta que alguns vociferem no mundo real e nas redes sociais em defesa da inocência dos miúdos, e, ao mesmo tempo, se declarem a favor do castigo físico como forma de educar. Dizem: “Qual o problema em dar uma palmada ou cintada? Eu apanhei muito e não me tornei uma pessoa problemática?”. Como se um erro justificasse outro, afinal, é bem mais fácil agredir do que dialogar. As guerras no mundo inteiro seguem raciocínio similar desde o princípio da humanidade.

Que o Dia das Crianças nos incentive a pensar numa realidade mais justa para esses pequeninos. Alguns passos podem ser dados neste momento. Muitas empresas, instituições e pessoas físicas organizam campanhas para doar livros, brinquedos e roupas a quem não tem nada. Que tal colaborar?

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Autor do blog www.tijoloblog.wordpress.com. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

A intolerância chuta nossas portas

No último sábado, visitei um evento bem interessante aqui em Brasília, organizado por algumas das principais escolas de idiomas do país: Cultura Inglesa, Aliança Francesa, Instituto Cervantes e Instituto Goethe. A programação consistiu num mix de atividades educacionais e gastronomia.

Quem fosse a uma dessas instituições de ensino poderia assistir gratuitamente a uma aula. O intuito era estimular o aprendizado dos idiomas estrangeiros inglês, francês, espanhol e alemão. E como aprender outra língua não se limita a estudar regras gramaticais e tem muito a ver com a prática cultural (música, cinema, culinária, teatro, literatura,...), o público conferiu o sabor de salsichas e cervejas germânicas, vinhos franceses e várias delícias.

Esse tipo de festividade contribui não só com a divulgação para brasileiros da identidade de outras nações como incentiva a confraternização entre indivíduos de diversas nacionalidades. Essa postura cai muito bem no Brasil e no mundo atuais, em que o fenômeno da intolerância marcha diante dos nossos olhos.

Uma colega disse recentemente uma frase que me chamou atenção: “Algumas pessoas em nosso país já eram homofóbicas, racistas, elitistas, machistas e agora estão aprendendo a ser xenófobas e fascistas”. Triste constatação.

Ao acessarmos redes sociais ou mesmo manifestações de rua, vemos, sob o manto de uma pretensa politização e combate à corrupção, ódio estampado em muitos rostos, com palavras de ordem contra os direitos individuais, censurando exposições de arte e até pregando o retorno da pavorosa Ditadura Militar que mergulhou o Brasil em trevas por mais de duas décadas.

Pura ignorância. Muitos desses enraivecidos nem viveram aquele período e não imaginam o que é sofrer sem liberdade, podendo ir para a prisão a qualquer hora do dia ou da noite, sem acusação formal, com tortura e até assassinato. Quem também acha que não havia corrupção na época da Ditadura dê uma olhada nas obras faraônicas – muitas inacabadas – torradas com dinheiro público sem qualquer critério ou consulta à sociedade. Veja também que determinadas figuras que protagonizam escândalos na política mamaram intensamente nas tetas do estado durante o regime opressor iniciado em 1964.

Tudo bem que a intolerância se espalha pelo mundo, dos neonazistas ao Estado Islâmico, mas cabe aos brasileiros de bom senso reagir a esse monstro que nos momentos de crise cresce com vigor e ameaça nos abocanhar. Que este terror seja, de fato, uma página virada em nossa história.

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Autor do blog www.tijoloblog.wordpress.com. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

O rádio faz a diferença

Nesse fim de semana, uma triste notícia para o rádio no Distrito Federal e no Brasil. Na noite de sábado, 23 de setembro, perdemos Lúcia Garófalo, locutora e empreendedora do setor. Junto com o marido, o falecido Mário Garófalo, ela criou em 1980 a Brasília Super Rádio FM. Lúcia morreu aos 72 anos, vítima de um câncer. Tive o prazer de conhecer esse casal simpaticíssimo e encontrá-lo em várias ocasiões em eventos de cultura e comunicação na capital do país. Os dois deixam saudades.

A Brasília Super Rádio FM é conhecida na cena candanga pelo slogan consagrado na voz suave de Lúcia: “A diferença é a música”. A casa apostou em uma programação muito diferente das emissoras mais comerciais. Enquanto nessas últimas quatro décadas, a maioria das empresas do setor radiofônico privilegiou artistas de qualidade para lá de duvidosa, baixando cada vez mais o nível com sertanejo, axé, pagode, funk e afins, os Garófalo criaram um veículo que alia informação a especiais dedicados ao jazz, à música erudita e à ópera, entre outros gêneros.

Foi na Brasília Super Rádio que há 30 anos descobri o Clássicos de Todos os Tempos, totalmente produzido com CDs, novidade na época. Até hoje, o Clássicos de Todos os Tempos vai ao ar diariamente, das 20h às 22h, com grandes orquestras interpretando obras de Mozart, Wagner, Beethoven e diversos compositores.

Desde sua criação, no fim do século 19, o rádio resiste como importante canal de comunicação com as massas. Seu fim foi decretado mais de uma vez, em momentos como o surgimento da televisão e da internet, porém se adaptou a novas realidades. As web radios são exemplo de como essa mídia se reinventou, em um formato que possibilita ao ouvinte tanto as transmissões on-line quanto criar seu próprio cardápio a partir de uma programação gravada.

Particularmente, gosto de ouvir rádios de jornalismo, hábito que mantenho de manhã, me antenando com as principais notícias enquanto tomo café e me arrumo para o trabalho. Bem cedo, já fico sabendo informações de utilidade pública, como a situação do trânsito ou o boletim meteorológico.

Mesmo com tanta porcaria, ainda há trabalho de qualidade desenvolvido nas ondas curtas, médias e longas. Quero dedicar esta coluna à memória de Lúcia Garófalo e a todos os que batalham para que o rádio seja instrumento para potencializar a educação, a cultura e o acesso à informação e não somente uma caixa de ruídos primitivos usados como trilha sonora para dancinhas apelativas que alguns insistem em chamar de música.

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Autor do blog www.tijoloblog.wordpress.com. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Empreende na dor e na alegria

Conheci Marco Túlio, popularmente conhecido como Tuim, em 2001. Figura amigável e bem-humorada, estudou no colégio Laser, ao lado do não menos simpático Aléssio Alencar, vulgo Zarabataba. Planejam, inclusive, um reencontro de sua turma de escola, porém, devo confessar que já procurei adoidado este estabelecimento de ensino e não o encontrei. Gostaria de ir lá resgatar momentos interessantes da vida destes dois chapas para, quem sabe, futuramente, biografá-los.

Na época em que começamos a manter contato, esse meu amigo Tuim atuava como expert em Tecnologia da Informação (TI). Entretanto, com o tempo, circunstâncias da vida o fizeram se recolocar no mercado profissional. De empregado virou empreendedor.

Ao invés de ficar reclamando da vida, como muitos, Marco Túlio investiu no setor de gastronomia. Abriu o Butiquim do Tuim, na Quituart, espaço de culinária localizado no Lago Norte, bairro nobre de Brasília. Também chamada de Latinharia, a loja comandada por Marco e sua esposa, Elísia, vende cervejas artesanais, cachaças, caipirinhas e pratos como a Linguiça Catedral, criação da casa.

O Butiquim funciona de quinta a domingo, mas se engana quem pensa que Tuim trabalha apenas quatro dias por semana, como deputados e senadores. A vida dos que empreendem não é fácil. Tem que controlar estoques, comprar mercadorias, manter a limpeza do bar, calcular as despesas, se valer da inovação e por aí vai. “Ainda não encontrei um jeito de pedir para as cervejas virem direto até aqui, sem que eu precise me mexer e apenas tenha que dizer: entra na geladeira, cerveja!”, brinca Tuim.

Depois de duas décadas vivendo na Alemanha, em Berlim, Aléssio Alencar, a exemplo do antigo colega de sala, se transformou em empresário, só que do meio agrícola. Assumiu uma fazenda no interior de Pernambuco, junto a sua esposa Antina, e lá toca a produção de artigos agropecuários. Um autêntico faz-tudo, meio MacGyver, constrói suas moendas a partir de sucata. O cara é um gênio e quer contribuir para estimular a economia do Agreste.

Citei esses dois exemplos porque quis dedicar a coluna da semana à brava gente empreendedora, que enfrenta todo tipo de dificuldades, como carga tributária altíssima e burocracia hercúlea, para tocar seus negócios, gerando emprego e renda para milhões de trabalhadores.

Mais do que nunca manter uma empresa não está fácil. O Brasil afundou numa recessão com 14 milhões de desempregados. Que um dia a gente consiga sair deste buraco. E quando isso acontecer, sem dúvida, deveremos muito não aos políticos e sim a camaradas como Tuim e Zarabataba, que levantam cedo e pegam no batente para sustentar suas famílias, atender muito bem os clientes com produtos de bom nível e ainda levar o país para frente. Vai nessa, rapaziada.

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Autor do blog www.tijoloblog.wordpress.com. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Parabéns aos veterinários

Todo mundo que tem um bicho de estimação sabe a importância de um veterinário – ou deveria saber. Se os pets ficam dodóis ou precisam tomar a vacina, lá vamos nós recorrer a esses profissionais. Por isso, não posso deixar de dar a eles parabéns pois neste sábado, 9 de setembro, comemoramos o Dia do Veterinário.

 

Eu que cuido sozinho de dois cachorros, a quem tenho muito carinho e considero membros da família, quando há algum sinal de que eles não vão bem, logo corro para uma clínica veterinária.

 

Um desses animais do qual cuido apresenta um problema crônico de vômitos, que se manifestam com certa frequência. Porém, as crises vinham ocorrendo mais do que o normal. Então, fui a um estabelecimento próximo, onde uma veterinária muito simpática, doutora Edleuza, nos recebeu. Com todo carinho, examinou o cão, fez exame de sangue, aplicou a medicação e sugeriu recomendações, como um remedinho de uso periódico. Pronto. Voltei para casa tranquilo.

 

Mas se engana quem acha que veterinários cuidam apenas dos nossos animais domésticos, como cães e gatos, que já é uma tarefa fundamental. Eles atuam na pecuária, na avicultura, no hipismo, no desenvolvimento de vacinas, na produção de rações equilibradas, na polícia e nas forças armadas, e em outros espaços. Fora tantas atividades relacionadas diretamente à saúde, ainda existem médicos veterinários à frente de instituições que recolhem animais de rua, tratam essas criaturinhas e organizam feiras de adoção para encontrar donos.

 

Gostar dos nossos pets não significa apenas lhes dar carinho, ração e água. Observar a saúde dos bichinhos torna-se essencial para garantir a eles uma existência mais longa e com maior qualidade de vida. Não basta ser papai e mamãe dessas coisinhas adoráveis, que tanto amor e carinho nos entregam incondicionalmente. Tem que levá-los periodicamente a quem melhor entende do seu bem-estar. Parabéns mais uma vez aos veterinários do mundo inteiro! E em nome dos meus cachorrinhos: “au, au, au, au, au, au”.

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Autor do blog www.tijoloblog.wordpress.com. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Charles Mingus descendo a ladeira do Pelô

Na próxima semana, o Conjunto Cultural da Caixa, em Brasília, recebe um evento que promete sacudir a galera: o Festival de Orquestras Populares. Serão três dias de shows com atrações locais e nacionais. Entre os mais conhecidos, Banda Mantiqueira, de São Paulo, e a Orkestra Rumpilezz, de Salvador.

Tão logo comece a venda dos ingressos, vou correr para garantir um lugar no dia da apresentação da Rumpilezz, na sexta-feira, 8 de setembro, porque sou fã desses caras desde a primeira vez que os vi, faz alguns anos, em um concerto de Ano Novo. Essa big band de sopros e percussão tem no comando o saxofonista e maestro Letieres Leite.

Músico e arranjador da banda da cantora Ivete Sangalo, musa do axé, em sua empreitada instrumental, Letieres criou uma sonoridade absolutamente original, fundindo harmonias refinadas e improvisos virtuosísticos do jazz com o suingue da percussão baiana. É o contrabaixista de jazz Charles Mingus descendo a ladeira do Pelô na batida do Olodum.

A Rumpilezz faz mais do que fundir gêneros musicais. Há toda uma espiritualidade e energia que parecem narrar histórias instrumentais ao público por meio do enorme naipe de metais e de sua sessão de tambores. Ao centro desse turbilhão rítmico, paira a figura do gigante percussionista Gabi Guedes. Sob as bênçãos dos orixás, esse mestre do batuque atua como força motriz da embarcação do comandante Letieres, responsável pelos intrincados arranjos.

Tive o privilégio de conhecer e conversar certa vez com Letieres Leite e com o mestre Gabi Guedes. Este encontro está registrado no meu Instagram. São figuras de simpatia e alto gabarito musical. Semana que vem, estarei lá, para vê-los mais uma vez ecoando notas ancestrais na trilha da modernidade. Até lá!

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Autor do blog www.tijoloblog.wordpress.com. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Festival valoriza riqueza gastronômica internacional

Recentemente, tive o privilégio de conversar com uma figura maravilhosa, absolutamente encantadora, chamada Maria Conceição Oliveira. Baiana radicada em São Paulo, ela atua como pesquisadora da culinária afro-brasileira e já participou de ações sociais importantes, como dar visibilidade a chefs imigrantes que fugiram para o Brasil em busca de uma vida melhor. Conceição participa da oitava edição do Slow Food - Festival Internacional de Cinema, Alimentação e Cultura Local, que acontece na cidade goiana de Pirenópolis, no Cine Pireneus, de 14 a 17 de setembro.

Conceição marca presença no grande evento cine-gastronômico na oficina Comida de Imigrantes e Refugiados, no dia 15 de setembro, às 10h, na cozinha do Curso de Gastronomia da Universidade Estadual de Goiás (UEG). O encontro ainda contará com a presença dos sírios Yasmin e Ammar Abou Nabout, da Síria, donos do restaurante Damascus, em Brasília, e da africana Fatou Aboua, da Costa do Marfim, residente na cidade de São Paulo.

Há algum tempo, Maria Conceição Oliveira participou em Sampa do projeto Comida de (I) migrante, no qual entrevistou refugiados de várias partes do mundo que vieram à metrópole para fugir de guerras, desastres naturais e instabilidades políticas. “Aprendi muito sobre a riqueza da culinária de diversos países, como a dos palestinos, que produzem uma comida que reflete a resistência deles”, conta a pesquisadora.

Herdeira de uma família de fortes laços com a gastronomia, Maria Conceição só se interessou pelo ramo aos 53 anos. Ela trabalhava na prefeitura de São Paulo recolhendo depoimentos de diversas categorias profissionais sobre seus estilos de trabalho e vida. Então, percebeu que não possuía um registro de receitas familiares. Entrevistou mãe, avó e outras pessoas, compilando um guia que permanece inédito. “Estou com a vida muito corrida, mas, quando tiver tempo, quero publicar”, informa.

Após esta atividade, Maria Conceição decidiu se aprofundar na área e fez um curso superior de Gastronomia. Agora cursa pós-graduação em Gestão e Produção de Alimentos. Define como meta dar ao patrimônio do paladar afro o merecido reconhecimento na cozinha nacional. Assim como em toda sociedade, Conceição vê racismo no setor gastronômico. “A comida virou questão elitista e não se enxerga a contribuição do negro”, lamenta.

Quem quiser conhecer Maria Conceição e aprender um pouco sobre nossa diversidade alimentar deve ir ao Slow Food. Parabéns às organizadoras, Gioconda Caputo e Carmem Moretzsohn, que tocam este festival há anos. Em 2017, conseguiram a façanha de realizá-lo sem patrocínio, apenas com uma vaquinha e alguns apoiadores. Que em 2018, o trabalho seja menos penoso.

Informações sobre o evento pelos telefones (61) 3443-8891 e (61) 3242-9805 ou pelos e-mails objetosim@gmail.com e slowfilmefestival@gmail.com.

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Autor do blog www.tijoloblog.wordpress.com. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Viva a Miss Brasil Negra

Nunca me liguei em Miss Brasil. Não é o tipo de programação que me desperte interesse. Porém, nesta edição de 2017, um acontecimento me chamou a atenção: a vencedora, a jovem Monalysa Alcântara, é piauiense, nordestina e negra. Significa uma grande vitória não apenas pessoal desta linda moça, mas de uma população que ainda enfrenta racismo, preconceito, intolerância e discriminação, apesar de uma riqueza cultural fantástica, que nos projeta internacionalmente na música, no cinema, nas artes plásticas, na dança, no artesanato, na literatura, na gastronomia, na moda e em tantas outras expressões.

   

Em mais de 60 anos do concurso de Miss Brasil, desde 1954, apenas três negras conseguiram chegar ao pódio. A primeira afro-brasileira a conquistar o prêmio foi Deise Nunes, em 1986. Passaram-se três décadas até que Raissa Santana quebrasse o jejum e novamente uma candidata com esse perfil vencesse. Pelo segundo ano consecutivo, a circunstância se repete com Monalysa Alcântara.

Em um concurso que se define como retrato da mulher nacional destoa o fato de o grupo que representa mais da metade dos brasileiros aparecer tão pouco representado. Ao longo de sua trajetória, o Miss Brasil aponta hegemonia de vitoriosas brancas e das regiões Sul e Sudeste.

Se em um país como os Estados Unidos ou mesmo na Europa os conflitos étnicos se revelam claramente, aqui o racismo persiste disfarçado sob o manto da falsa democracia racial. Quanto mais se esconde esse caráter, menos se pode combatê-lo.

Até nossos dias, o país não quitou a dívida com os afro-brasileiros que persiste desde a abolição da escravatura. Embora livre, o povo negro seguiu marginalizado e em condições sociais desfavoráveis que permanecem até a atualidade.

Segundo estudo de 2015 da Secretaria Nacional de Juventude, da Presidência da República, no Brasil, um jovem negro tem 2,5 vezes mais chances de morrer assassinado do que um branco da mesma faixa etária. De acordo com dados de 2016 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), também do governo federal, na cidade do Rio de Janeiro os homens negros têm 23,5% a mais de chances de perderem a vida assassinados do que os brancos. A violência evidencia as desigualdades.

Não para por aí. Temos injúria racial e racismo em campos de futebol, como no caso recente do torcedor do Botafogo que ofendeu familiares do jogador Vinícius Jr., do Flamengo, durante a semifinal da Copa do Brasil; as agressões verbais contra a jornalista Maria Júlia Coutinho, o cantor e compositor Seu Jorge e a atriz Taís Araújo via redes sociais; o episódio deplorável do médico que xingou a moça que trabalhava na bilheteria do Cinemark, no shopping Iguatemi, em uma região de classe alta de Brasília; os incêndios criminosos em terreiros de candomblé, demonstrando a intolerância religiosa contra as crenças de matriz afro; o bullying contra crianças e adolescentes negros nas escolas. A lista de incidentes é longa, fazendo vítimas entre os famosos e os anônimos, que nem sempre conseguem se defender.

Avançamos muito nos últimos anos em termos de legislação, como a tipificação do crime de racismo na Constituição de 1988 e a entrada em vigor do Estatuto da Igualdade Racial, em 2010, instrumentos importantes para se punirem os racistas. No entanto, bastante precisa melhorar para virarmos de vez a lamentável página do racismo de nosso cotidiano.

Enquanto isso, vibro com a vitória da modelo Monalysa Alcântara. A gente se seguia via Instagram e eu nem sabia que ela participava do Miss Brasil. Que venham muitas outras glórias em uma longa carreira para uma pessoa que, como ela mesma contou na cerimônia do prêmio, sofreu muito para chegar a este momento. Parabéns!

 

 

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Autor do blog www.tijoloblog.wordpress.com. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Debaixo dos cobogós dos seus cabelos

Moro num prédio em Brasília com quase 60 anos de construção. Esses edifícios, que datam da época da inauguração da capital do país, recebem o nome de JK, em uma referência a Juscelino Kubitschek, presidente que comandou a empreitada no Planalto Central.

 

Um dos atrativos deste e de outros tipos de edificações da cidade são os chamados cobogós. Você sabe o que é um cobogó? Trata-se de furos feitos nos tijolos ou no concreto que formam um conjunto de figuras geométricas como quadrados, retângulos e losangos nas paredes, visualizados tanto por quem está na rua quanto dentro do imóvel.

 

Inspirados em formas da arquitetura árabe, os cobogós surgiram no final dos anos 20, em Recife. Esta palavra curiosa vem da junção de iniciais dos sobrenomes de seus três criadores: o português Amadeu Oliveira Coimbra (Co), o alemão Ernst August Boeckmann (Bo) e o brasileiro Antônio de Góes (Go). Os três moravam na capital pernambucana quando idealizaram a inovadora figura.

 

A intenção ao se desenvolver o cogobó foi amenizar o calor provocado pelas altas temperaturas do Nordeste. Ao produzirem a solução, Coimbra, Boeckmann e Góes foram pioneiros na utilização de importantes elementos de sustentabilidade em prol do bem-estar e da economia energética, como o aproveitamento da ventilação e da iluminação naturais, modelo comum nos projetos arquitetônicos contemporâneos.

 

Ainda que tenham se espalhado pelo país, parece que em Brasília os cobogós se tornaram mais populares, se destacando tanto nos chamados blocos quanto nas casas como um dos símbolos charmosos da arquitetura modernista. Também viraram objetos decorativos em cozinhas americanas, peças artesanais, tapetes, móveis, louças e utensílios.

 

Temos cá, na capital, até uma loja com o nome de Mercado Cobogó, que transforma esta simbologia num empreendedorismo. Um dos prédios públicos que utilizou tal simetria – pernambucana na origem e brasiliense por adoção –   é a Biblioteca Nacional, localizada na Esplanada dos Ministérios. A exemplo dos demais edifícios, a presença dos cobogós na Biblioteca gera interessantes e sinuosos jogos de sombra. Pura arte.

Atendendo a uma sugestão do arquiteto que coordenou uma reforma em meu apartamento, há três anos, decidi derrubar a parede da sala que tapava os cobogós. Como resultado, ganhei uma bela obra de design em minha sala de estar, que ainda ampliou a circulação do vento e a luminosidade do ambiente.

 

O governo do Distrito Federal deveria promover uma campanha para valorizar os prédios com cobogós, patrimônio que equivale para uma cidade modernista como Brasília o mesmo que um casarão colonial para um município antigo. Por que não incentivar turistas a conhecerem essa maravilha? Frequentemente, vejo da janela de casa, pessoas, inclusive de outros países, fotografando esses quadradinhos.

 

A essa altura do campeonato, o leitor só deve estar se perguntando o que o texto que escrevi tem a ver com o título “Debaixo dos cobogós dos seus cabelos”? Nada. Já que pretendia falar dos cobogós, utilizei o trocadilho com a música de Roberto Carlos e Erasmo Carlos apenas para chamar sua atenção.

 

Kkkkkkkkkkk.

 

Até mais.

 

 

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Autor do blog www.tijoloblog.wordpress.com. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Se o leitor não vai ao livro, o livro vai ao leitor

Mantido pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Associação Brasileira de Livros Escolares (Abrelivros), o Instituto Pró-Livro encomendou em 2016 uma pesquisa ao Ibope que revelou dados preocupantes em relação à leitura no Brasil. O estudo apontou que 44% da população brasileira não leem nada e que 30% nunca compraram um livro.

 

 

Alguns fatos nos ajudam a compreender esses números. Primeiro: livro no Brasil é muito caro. Qualquer livrinho de bolso fica entre R$ 20 e R$ 30. Segundo: temos poucas bibliotecas públicas. São cerca de 7,5 mil, para uma população de aproximadamente 207,7 milhões de habitantes. Sabemos que nem todos os municípios do país dispõem de um espaço como esse.

 

 

Então, é mais do que louvável a iniciativa de gente e de instituições que criam alternativas para ampliar o acesso do nosso povo à leitura. Um desses ilustres batalhadores mora em Brasília e se chama Luiz Amorim. Com uma incrível trajetória de superação, Luiz aprendeu a ler aos 16 anos e depois passou a incentivar nos outros um hábito que transforma vidas.

 

 

Proprietário do açougue T-Bone, inicialmente, Amorim montou uma biblioteca em sua loja, onde clientes e quaisquer outros poderiam levar livros para casa emprestados. Em seguida, espalhou estantes pelas paradas de ônibus da capital do país, oferecendo de obras didáticas a clássicos da literatura, em um projeto chamado Livro na Parada. Você pode se informar sobre os diversos eventos culturais e artísticos do T-Bone no link http://www.t-bone.com.br/index.php/t-bone-cultural/.

 

 

 

Também moradores da capital do país, os servidores públicos Andrey do Amaral e Fernanda Carvalho desenvolvem um trabalho para fomentar o gosto por livros, principalmente em comunidades de menor renda. Levam debates, palestras, sessões de autógrafos e exibição de filmes a estudantes e demais moradores de regiões carentes de opções de lazer, na periferia do DF e na região do Entorno, na chamada Mostra de Literatura. Eu mesmo já tive oportunidade de ir com eles falar dos meus livros a alunos de Ensino Médio, na cidade de Águas Lindas, em Goiás, e na Cidade Estrutural.

 

 

No momento, o casal toca o projeto O Legado da Cidade e do Homem. “Este projeto incentiva muito a leitura. A gente utiliza como referência alguém que empreendeu do ponto de vista educacional e cultural em Brasília, apresenta um perfil desse cidadão a professores de Língua Portuguesa e a alunos da rede pública, principalmente. Depois, realizamos uma oficina de texto, para criar uma versão romanceada desse personagem e para estimular o hábito da leitura”, conta Andrey. Quem quiser entrar em contato com ele, favor mandar um e-mail para andreydoamaral@gmail.com.

 

A 1,2 mil quilômetros de Brasília, na cidade paranaense de Ponta Grossa, o professor Idomar Augusto Cerutti tem como meta “aproximar livros sem leitores de leitores sem livros” no Pegaí Leitura Grátis. A iniciativa não possui fins lucrativos e nem vínculos governamentais. Desde 2013, Idomar, que trabalha como professor, monta estantes em lugares públicos a partir de doações que recebe de escritores, empresas e de pessoas físicas. Os interessados podem pegar as obras e lê-las de acordo com sua disponibilidade de tempo. Somente no primeiro ano de atividade, o Pegaí Leitura Grátis disponibilizou cerca de 20 mil livros. O Pegaí Leitura Grátis recebe, em média, 1,6 mil livros doados mensalmente.  

 

 

Idomar revela que algumas editoras se tornaram suas parceiras, enriquecendo o acervo de sua campanha. “Algumas delas até já ‘adotaram’ estantes”, conta o coordenador, explicando que para fazer isso basta mantê-las sempre com livros.

 

 

Junto com Idomar nesta batalha há um grupo com mais de 90 voluntários. Para pegar um empréstimo não precisa de cadastro. Para devolver, há caixas de coletas. Os livros do Pegaí são separados e registrados pelos voluntários, que carimbam, colocam etiquetas e os classificam por faixa etária. O contato com Idomar Augusto Cerutti se dá por meio de sua assessora de imprensa, Luciane Rosas Rodrigues, pelo e-mail imprensa@pegai.info e pelo telefone (42) 9105-4605.

 

 

Depois de dar esses exemplos, só tenho a agradecer a essas figuras que lutam para democratizar a leitura em um país com tantas carências. Sabemos da importância de ler para a formação de indivíduos conscientes de sua realidade. Parabéns a todos!

 

 

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Ao som dos pastéis cantores

Há quase 20 anos, um amigo meu, Danilo Cecílio Salomão, conhecido nos meios acadêmicos e artísticos como Professor, participou da organização de uma festa junina na Escola de Música de Brasília (EMB), onde trabalha. O evento reunia vários quiosques temáticos, associando a culinária à música.

 

Nesse contexto, coube a Danilo Cecílio se responsabilizar pela Barraca dos Pastéis Cantores. Lembro, na época, dele comentando com os amigos sobre como bolaria um cartaz para a empreitada.

 

– Pessoal, como seriam os Pastéis Cantores? Será que eu poderia desenhar um pastel com um microfone? – perguntava.

 

Nem sei como a participação na festa junina se concretizou, porém esse episódio me veio à mente nos últimos dias. Trabalho em uma área famosa da capital do país que se chama Setor Comercial Sul. Apesar da importância histórica e de reunir várias lojas legais, a área anda bastante degradada, a exemplo dos centros das grandes cidades brasileiras. Sinalização de trânsito apagada, calçadas quebradas, cracolândia, iluminação precária, falta de policiamento, caos nos estacionamentos e no tráfego, lixo pelas ruas, a tomada desordenada do espaço por camelôs. Parece que o poder público há anos abandonou a região, para desespero dos empresários e dos consumidores.

 

Voltando aos pastéis, em meio a esse cenário, conforme falei, existem opções interessantes. Recentemente, descobri uma pastelaria chamada Fujiyama, tocada por dois empreendedores, Pedro e Zucco. Além de oferecer pastéis, biscoitos e pães de queijo saborosos, primam por tocar música de qualidade.

 

A primeira vez em que lá estive, saboreava um pastel de queijo, enquanto no som tocava Love Will Tear Us Apart, da banda inglesa Joy Division. Na sequência, rolaram The Smiths, The Cure, New Order e outros.

 

Numa segunda ida, o repertório já era heavy metal. Dessa vez, ouvi Ozzy Osbourne e mais alguns petardos metaleiros. Na terceira vez, na play list, stoner rock, fusão do metal com a psicodelia. Na última ocasião na pastelaria, comendo um biscoitão de queijo, vi que saíram do rock e foram para o jazz, colocando um disco do célebre trompetista Chet Baker.

 

Se empreendedores conseguem valorizar seu negócio com boa comida, ambiente legal e música interessante porque os órgãos de governo também não se mexem para revitalizar a infra-estrutura desses locais? Esse tipo de iniciativa melhoraria a economia local, atraindo consumidores que se afastaram, e até turistas, já que a região dispõe de uma rede hoteleira. Falta dinheiro? Certamente, afinal vivemos uma crise econômica aguda, porém, falta, principalmente, vontade. Mesmo com poucos recursos, com criatividade, inovação e parcerias com a iniciativa privada e a sociedade se consegue muito. No entanto, volto a dizer, uma ação vigorosa do estado passa longe dali.  

 

Foto: Divulgação.

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Ernane, toma logo essa abacatada que teu coleguinha já chegou com o Pelebol

foto: divulgação

Ernane era um garoto legal e um dos melhores jogadores de Pelebol. Só quem tem mais de 40 anos vai lembrar deste brinquedo que fez muito sucesso na década de 70. Inventado na Inglaterra no fim dos anos 40 e conhecido lá fora como Subbuteo, ganhou no Brasil um nome para homenagear nosso jogador mais ilustre, Pelé, o Rei do Futebol. Era um campo com bonequinhos representando os jogadores, duas traves e uma bola.

 

O menino Ernane só não era muito chegado em abacatada, lanche que sua mãe gostava de lhe empurrar todas as tardes, condição sine qua non para descer e brincar com os amigos na rua. Porém, o garoto congelava de desânimo em frente à iguaria esverdeada, relutando em degustá-la. Quando tocavam a campainha, sua mãe, por sinal um amor de pessoa, vinha abrir a porta e gritava da sala para a cozinha, para desespero do filho: “Ernane, toma logo essa abacatada que teu coleguinha já chegou com o Pelebol”.

 

Cenas como essa hoje são raras. A meninada não joga mais nem Pelebol, nem futebol de botão e não brinca de pique-pega e esconde-esconde, clássicos lúdicos infantis até o começo da década de 80. Depois, vieram os videogames e tudo mudou. Atualmente, mal começa a andar e a molecada já se diverte com tablets e smartphones.

 

Longe de mim fazer o papel de saudosista. Odeio nostalgias do tipo “na minha época tudo era mais legal”, “antes as crianças sabiam se divertir de verdade” ou sei lá mais o quê. Não existe isso de uma geração pior ou melhor do que a outra. Cada uma sabe viver e aproveitar o seu tempo.

 

Não se pode demonizar ou endeusar as tecnologias. Em termos práticos, elas têm muito o que oferecer à formação intelectual de crianças e adolescentes. Especialistas atribuem aos jogos virtuais pontos positivos como estimular o comportamento empreendedor por meio da tomada rápida de decisões ou a facilidade de se adaptar a novos ambientes, a exemplo do que ocorre nas mudanças de fases de um game.

 

No Brasil da atualidade, pais também não possuem a mesma tranquilidade do passado para deixar seus filhos soltos na rua. Antigamente, era comum na época de férias, a turma ficar embaixo do edifício até dez, onze horas da noite, na maior farra. No presente, mesmo de dia, o fantasma da violência ronda as portas de casas e escolas, com sequestros, assaltos e balas perdidas que não poupam a vida de ninguém, nem mesmo a dos pequeninos. Há que se aprender a conviver com tamanho absurdo enquanto não se encontra uma solução para nos tornarmos uma sociedade civilizada.

 

O que acho interessante, em meio a este mundo moderno, não é cortar os aplicativos e sim permiti-los de maneira racional. Por que não estimular nos miúdos o gosto por atividades esportivas ou mesmo brincadeiras em casa e nas escolas, que, certamente irão contribuir para diminuir índices de obesidade, diabetes e hipertensão?

 

Não devemos esquecer também do papel da educação artística para despertar desde cedo a sensibilidade e uma inteligência com capacidade de abstração. Curiosamente, vivemos uma conjuntura em que, na contramão da sensatez, autoridades, de forma absurda consideram as artes manifestações descartáveis e querem tirá-las das grades curriculares. Um atentado contra a razão!

 

E por onde anda o Ernane? Não sei. Há mais de três décadas que não o vejo. Fico pensando se aprendeu a gostar de abacatada ou ainda faz cara de nojo quando se depara com o copo verde à sua frente. Toma logo isso, menino.

 

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Black Sabbath ao Vivo no Terreiro de Pai Meneses

Essa noite, tive um sonho para lá de inusitado. Estava num show da banda de rock inglesa Black Sabbath. Até aí, nenhum acontecimento fora do normal, porém o incomum é que esta apresentação acontecia em um terreiro, com direito a encontros animados entre os artistas do heavy metal e adeptos das religiões afro-brasileiras.

 

O palco se situava em uma área com pouca luz, dentro de um terreiro, com a bateria ao centro, o baixo do lado esquerdo e a guitarra do direito. Para meu espanto, uma placa pendurada na parede indicava: Terreiro de Pai Meneses. Pensei: “O que o Black Sabbath veio fazer aqui?”. Na plateia, que lotava o ambiente, havia centenas de pessoas, que iam de metaleiros e roqueiros cabeludos, com suas roupas pretas, a pessoas trajando branco, cor usada nas cerimônias religiosas de matriz afro.

 

De repente, entra no palco um homem alto, negro, de cabelos alvos curtos e vestido de branco. Ele pegou o microfone e nos deu boa noite, com uma voz bem grave. Perguntei a um rapaz ao meu lado quem era, no que ele me respondeu que se tratava de Pai Meneses, o líder espiritual do lugar.

 

– Meus amigos, é com prazer que chamo ao palco o Black Sabbath – anunciou Pai Meneses, para delírio do público.

 

Os membros do Sabbath entraram com a aparência na casa dos 20 anos de idade, que tinham em 1970, quando lançaram o primeiro disco. Lá estavam o cantor Ozzy Osbourne, com uma bata psicodélica, o guitarrista Tony Iommi, o baixista Geezer Butler e o baterista Bill Ward. Tocaram Iron Man, um de seus grandes hits. Em seguida, teve The Wizard e Paranoid, que agitaram a audiência.

 

Foi quando Ozzy falou, em inglês, agradecendo a oportunidade de cantar mais uma vez no Brasil e agora em outro tipo de espaço, como o terreiro. Ele disse obrigado a Pai Meneses e chamou o babalorixá ao palco. Ozzy abraçou Meneses. Nisso, entrou um grupo de vários homens trazendo tambores.

 

– Vamos fazer uma jam bacana – anunciou Osbourne.

Com Pai Meneses nos vocais, levaram uma versão bem pesada de Cavaleiro de Aruanda, canção composta por Tony Osanah e gravada em 1972 por Ronnie Von. O povo foi ao delírio, com a bateria, baixo e guitarra pesados se fundindo aos vocais graves de Pai Meneses e ao balanço das percussões. Ozzy pulava como um garoto. O show conjunto prosseguiu, com improvisações e músicas do Sabbath ganhando um toque do candomblé.

 

– Obrigado. Nós amamos vocês, disse Ozzy, ao final, abraçando Pai Meneses, que esboçava um largo sorriso. Na plateia, metaleiros se confraternizavam com os membros do terreiro.

 

Então, acordei, maravilhado com aquele sonho. Se pudesse, se fosse rico, certamente patrocinaria uma vinda do Black Sabbath ao Brasil para tocarem juntos com povos dos terreiros.

 

Fusão do sincretismo afro-brasileiro com metal não é uma novidade. A banda carioca Gangrena Gasosa surgiu no começo dos anos 90 propondo tal estética e permanece na estrada até hoje.

 

Para mim a simbologia maior deste sonho ficou por conta do encontro de culturas tão diferentes, se irmanando. Na realidade, isso acontece o tempo inteiro mundo afora. Porém, vivemos um momento de grande intolerância e a religião não escapa desse clima. Terreiros incendiados, adeptos das religiões afro agredidos em verdadeiros episódios de barbárie. No exterior, temos os fanáticos do Estado Islâmico espalhando o terror, escravizando pessoas e forçando o êxodo de milhões, além dos assassinatos em atos terroristas. Quanta insanidade!

 

Cristãos, muçulmanos, ateus, judeus, adeptos do candomblé, europeus, brasileiros, brancos, negros, índios, ricos, pobres, ocidentais, orientais: não importa. Todos podemos viver em paz ou pelo menos sonhar com o dia em que nenhuma diferença de qualquer tipo importe o suficiente para impedir uma convivência civilizada, como naquela onírica jam entre o Black Sabbath e pai Meneses.

 

Foto: divulgação

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e Cultura. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Literatura nas páginas da web

Embora não seja teórico da comunicação, penso que um ponto fundamental na distinção entre os sites de relacionamento, modelo popularizado no Brasil em meados dos anos 2000 com o extinto Orkut, e as redes sociais diz respeito a como ferramentas tipo Instagram e Facebook podem funcionar com as mais diversas finalidades. Isso inclui objetivos profissionais, artísticos, políticos e sociais.

 

Como escritor, foi uma grata descoberta saber que poderia me valer desses instrumentos para ampliar a divulgação da minha carreira. Comecei a pesquisar e a entrar em contato com perfis literários destinados a falar de livros, alguns com dezenas de milhares de seguidores. De início, um aplicativo para possibilitar que pessoas comuns produzissem suas próprias fotografias automaticamente, o Instagram expandiu horizontes e se abriu às palavras.  

 

Ali, descobri o Universo dos Leitores (@universodosleitores), mantido pelas jovens mineiras Isabela Lapa e Kellen Pavão e com um número de seguidores que hoje beira 40 mil. Com comentários sobre filmes, quadrinhos, séries, cinema, música e cultura em geral, o Universo dos Leitores possui importante foco na literatura, publicando resenhas tanto sobre autores consagrados como de menos conhecidos. Isabela e Kellen mantêm o site homônimo (www.universodosleitores.com). 

 

Mas não me deparei apenas com páginas para divulgação das minhas obras. O Instagram me permitiu conhecer muita gente legal que está escrevendo, alguns com trabalhos publicados e outros que, por enquanto, usam os posts na rede para apresentar seus poemas e contos. Vejo muita atitude em toda essa turma, que batalha em diversos fronts para mostrar sua arte sem se intimidar com crise econômica ou falta de espaço na mídia tradicional. O que vale é a criatividade, tanto para escrever quanto para promover suas obras.

 

Entre esses artistas, me chama a atenção a carioca Ana Duarte, que publica textos sobre amor com extrema delicadeza sensorial, repletos de jogos de palavras e, eventualmente, com toques refinados de ironia e humor. Quem quiser conhecer seus versos pode acessar no Instagram o perfil @céu_azul_e_tempestade. Ana publicou poemas no terceiro volume da revista Bacanal, da editora Nautilus.

 

Em meio a tanta novidade, me impressiona a produção de uma nova autora paulistana chamada Cristiane Morphine Epiphany. Praticamente, toda semana, ela aparece em uma coletânea, em livros ou revistas, escrevendo de contos de suspense e terror a poesias e já ganhou alguns concursos de literatura. Com uma aura rock’n’roll, Morphine Epiphany assina escritos, conforme ela mesma define, “trevosos”. Também marcou presença na revista Bacanal. Mais sobre ela no perfil do Insta @morphine_epiphany.

 

Não poderia encerrar sem falar do grande escritor Andreas Noras, autor carioca radicado em Sampa. Sua arte parece um encontro entre Realismo, Naturalismo, punk rock e Charles Bukowski pelas ruas desse mundo doido. Andreas tem enorme sensibilidade para soar ora brutal, ora suave, indo das lágrimas ao sexo desenfreado. Lançou cinco livros, sendo Gabrielle o mais recente. Quem quiser saber mais sobre ele acesse o endereço http://andreasnora.blogspot.com.br/ ou o perfil @andreasnora_escritor, no Instagram. Não vai se arrepender.

 

Foto: divulgação

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e Cultura. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

No contrabaixo, Dunga. Quebra!

Se você perguntar nos meios musicais brasileiros quem é Marcelo Machado Vieira, talvez não obtenha resposta. Porém, se você falar de Dunga, todos saberão de quem se trata. Contrabaixista, produtor musical e empresário, integrou a banda de Lulu Santos de 1992 a 1998 e de 2006 a 2011. Seu baixo cheio de suingue faz parte da história da música brasileira a partir dos anos 90. Músico de estúdio e de shows, registrou cerca de 1,8 mil fonogramas, com artistas tão diferentes quanto Oswaldo Montenegro, Maria Bethânia, Adriana Calcanhoto, Gilberto Gil, Marina Lima, Marisa Monte, Zélia Duncan, Erasmo Carlos, Ana Carolina, Claudinho e Buchecha, Gian & Giovani, Gabriel O Pensador, Kid Abelha, Gal Costa, Paulinho Moska, Milton Nascimento e muita gente. Atualmente, faz parte da banda de Ney Matogrosso. Junto com o cantor e instrumentista Milton Guedes, é proprietário da produtora Quase9, que tem um estúdio na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, no qual se produzem peças publicitárias, jingles, trilhas sonoras e outros materiais. Dunga ainda assina a direção musical do programa Dancing Brasil, na TV Record, estrelado por Xuxa e cuja segunda temporada começa no dia 24 de julho. Nascido no Rio, em 1967, foi para Brasília com apenas dois anos, por conta da carreira militar do pai. Na capital do país, onde morou 20 anos, iniciou-se na música. No Planalto Central, montou o supergrupo Habeas Corpus, com o vocalista Pierre Aderne, o baterista Mac William, o guitarrista Mauricio Lavenere e o tecladista Fernando Venturini. Em 1987, o Habeas Corpus participou da coletânea Rock Brasília Explode Brasil, da WEA, com a faixa E o Tempo. Em 1989, voltou à Cidade Maravilhosa, onde permanece como um dos músicos mais requisitados do Brasil. Em meio a uma agenda lotada, gentilmente Dunga arrumou tempo para dar uma entrevista à coluna 7 Point, da Se7e Cultura. Na conversa, ele recorda os tempos em que viveu na capital do país, do que aprendeu com pessoas como Oswaldo Montenegro e Lulu Santos, da atividade de instrumentista e de produtor.

 

- Você é carioca, mas morou um tempo em Brasília. Como chegou à capital?

- Meu pai era militar. Em 1969, ele foi transferido para Brasília, para trabalhar na Presidência da República. Eu morava na 308 Sul. Meus pais ainda estão na capital e tenho um irmão advogado que vive na cidade.

- De que maneira teve início a sua carreira musical?

- Eu sou praticamente autodidata. Cheguei a estudar violino na Escola de Música de Brasília entre 1977 e 1979, mas parei ali. Comecei a tocar violão com 13 anos por causa dos Beatles. Sempre participava de umas rodinhas de violão com os amigos. Em 1982, quando estudava no Colégio Militar, comecei a pensar em formar uma banda com meu amigo Peu Nunes. Procuramos um baterista e encontramos o Mac William. Ele disse para a gente que tocava, só que era mentira. Marcamos um ensaio para duas semanas depois. Ele se enfurnou em uma igreja onde havia uma bateria e acabou aprendendo a tocar. Essa primeira banda tinha dois violões e a batera. Eu queria ser guitarrista, mas como era o mais novo da turma, me mandaram ser baixista e assim acabei adotando o instrumento.

- Quais eram suas influências nesta época?

- Escutava muito rock progressivo, como Yes e Rush. Tocava todas as linhas de baixo do Geddy Lee (baixista e vocalista do Rush). Também ouvia bastante Iron Maiden e Van Halen. Por outro lado, cresci curtindo música brasileira em casa. Minha mãe adorava duplas caipiras. Tocava no som do carro e aos domingos a gente assistia àquele programa do Rolando Boldrin, o Som Brasil, dedicado à música regional. Além disso, sempre nas férias eu viajava para a casa da minha avó, que morava em Padre Miguel, bairro do Rio. A casa dela ficava ao lado de um clube chamado Creib, onde rolavam bailes black. Eu passava dois meses ouvindo aquilo direto, cantores como Tim Maia, que eu nem sabia quem era. Esse contato representou uma influência muito forte em minha formação.

- Como seu pai, que era militar, encarou suas pretensões artísticas?

- Eu nunca tive problemas na escola, mesmo tocando em bandas. Porém, um dia, o Mac William estava lá em casa e fui levá-lo ao ponto de ônibus. Naquele momento, meu pai percebeu o quanto eu estava envolvido com a música e não gostou nada disso. Ele pegou todos os meus elepês e quebrou, curiosamente, deixando as capas intactas. Quando voltei e vi aquilo peguei as capas e colei todas na parede, dando uma resposta a ele. Foi uma fase barra pesada da minha vida. Quando cheguei ao final do Ensino Médio, fiquei em uma encruzilhada. Ou me dedicava à música ou iria para a carreira militar, conforme papai desejava. Falei para ele que não viraria militar e que seria músico. Meu pai aceitou o fato e nunca mais tocou no assunto. Deixou de ser um problema..

- Os anos 80 foram um período efervescente na música de Brasília, não?

- Sim. Eu me aproximei do Toninho Maya, que fazia jazz. Baixistas como Adriano Giffoni e Jorge Helder tinham saído da cidade para tocar no Rio com grandes artistas. Nessa cena, atuei com muita gente, como Renata Arruda, Rubi, Eduardo Rangel, o grupo Invoquei o Vocal e a Cássia Eller. Participei de um grupo com o Mac William e o guitarrista Maurício Lavenere de metal instrumental chamado Excalibur. Tempos depois, o cantor e compositor Pierre Aderne, que queria montar um grupo, chamou o Mac, que me levou junto. Teve até um concurso de bandas promovido pela gravadora WEA, que resultou na coletânea Rock Brasília Explode Brasil. Os caras queriam encontrar uma nova Legião Urbana, mas acabou que nenhuma daquelas bandas aconteceu.

- Quando decidiu ir para o Rio?

- Nesse período, também conheci o Tom Capone, guitarrista de um grupo chamado Peter Perfeito. Eu, ele e o Mac William acompanhávamos o Eduardo Rangel. Quando fomos tocar com o Edu no Rio, conhecemos o Milton Guedes, que já morava aqui e tocava com Oswaldo Montenegro. A partir dali, sempre que o Milton ia a Brasília o acompanhávamos em seus shows solo. O Milton falou para o Oswaldo sobre a gente. Numa tarde de sexta-feira, em 1989, estava em casa, em Brasília, quando o telefone tocou. Era o Oswaldo Montenegro. Disse que queria que eu tocasse com ele em um espetáculo que estava montando. Só que precisava que eu estivesse disponível, no Rio, já na segunda-feira de manhã.

- O que você fez?

- Em duas semanas, ia acontecer um festival chamado Flac e eu tinha que tocar com uns nove artistas. Precisei ligar para todo mundo dizendo que não poderia mais participar dos shows. Uns ficaram chateados, outros me deram a maior força. Uma destas pessoas foi a Cássia Eller, que disse que eu tinha que ir mesmo para o Rio tocar com o Oswaldo e que não deveria perder a oportunidade.

- E o começo no Rio?

- Fui morar no apartamento do Eduardo Rangel, onde também viviam o Milton Guedes e o Luiz Carlos Ramos (Dente). Ele era uma das pessoas com quem eu ia tocar no Flac. Não só liguei para o Edu para desmarcar como ainda pedi para ficar no seu apê. Ele foi muito generoso e me deixou morar lá por quase um ano. Devo muito a ele. Nisso, fiquei ensaiando seis meses com o Oswaldo, mas, na véspera da estreia, o espetáculo foi cancelado. A grana que eu tinha guardado havia acabado. Ou voltava para Brasília ou continuava. Decidi ficar. Depois, terminou rolando um projeto chamado Ponte Aérea, organizado pelo Eduardo Rangel com artistas brasilienses que viviam no Rio, em um bar no Leblon chamado Gig Salada. Tinha o Eduardo, Milton Guedes, Dentinho e eu fazia parte da banda de apoio, que acompanhava todos. Durante dois meses, tinha show de segunda a segunda. Quando terminou, em março de 1990, o Oswaldo me chamou para tocar na banda dele, já excursionando pelo país. Também gravei o disco da Cássia e fui ficando no Rio.  

- Você frequentemente fala que quando tocou com Oswaldo Montenegro teve de reaprender seu instrumento. Por quê?

- O primeiro ensaio com ele aconteceu no Teatro Casa Grande. Eu era novo e gostava de tocar muitas notas de um jeito virtuosístico. Ele, sabiamente, me falou: “Sei que você está com sede de mostrar o que sabe, mas é importante que toque de acordo com o que a canção precisa. Toque uma nota por compasso e depois você vai entender o que eu quero te passar”. Demorei a compreender, porém precisei começar a tocar de uma forma mais simples. Foi difícil e tive de me dedicar. Não podia perder a oportunidade da minha vida e devia tocar como o Oswaldo desejava. Ele abriu meu horizonte ao me fazer perceber que menos é mais. Falo isso para a garotada nas palestras que dou. Eles chegam arrasando no instrumento, exibindo técnica. É bom dispor dessas ferramentas, entretanto você tem que saber que dificilmente usará todo esse repertório técnico em uma música comercial. Não dá para sofrer por conta disso.

- E como o Lulu Santos entrou na sua vida?

- Conheci o Lulu tocando com Milton Guedes. Engraçado que enquanto o Oswaldo é bem direto o lulu fica meio que te sondando. Ele chegava para mim e falava que meu baixo soava muito agudo, com muitas notas, que eu precisava ouvir mais discos de música pop, que eu era garoto fascinado por rock progressivo e que tinha que ouvir Liminha (baixista dos Mutantes e produtor musical). Ele descascou tanto que pensei que nunca iria tocar com o Lulu. Então, comecei a pegar esses toques, dando uma filtrada, e resolvi aplicar no meu som. Dois meses depois, ele me viu em uma apresentação com o Milton e me convidou para tocar com ele. Havia um show agendado um mês depois, no Brazilian Day, em Nova York. O Lulu me levou na casa dele, me deu um baixolão (instrumento híbrido de baixo com violão) e me ensinou a tocar com palheta, algo que não fazia. Depois, me deu dez CDs dele e me mandou ouvir e tirar todas as músicas. Foi legal porque naquele momento eu ainda não estava preparado para tocar com ele. Antes de mim, o posto de baixista foi ocupado por caras como Arthur Maia. Mesmo assim, ele viu algo em mim e investiu no meu trabalho. E aprendi muito com o Lulu de música, não apenas como tocar, mas sobre como se comportar no palco, como coreografar um show, a ter atitude. Ele me deu liberdade de criar. Embora o nome fosse Lulu Santos, éramos uma banda e não atuávamos como meros acompanhantes. O Lulu sabe tudo de palco, em detalhes como a iluminação e tudo mais. Ele é um artista completo. Depois, gravamos o disco Assim Caminha a Humanidade, lançado em 1994. Deu tudo certo e esse trabalho virou uma vitrine para mim. Passei a ser chamado para gravar e tocar com muitos artistas. Os produtores me queriam com eles.

- Em que contribui para o desenvolvimento de um artista tocar com tanta gente diferente como você faz, de Claudinho e Buchecha a Ney Matogrosso?

- Sempre fez parte da minha formação ouvir de tudo um pouco. Me ajudou a não ter preconceito em relação a estilos, o que me ajuda bastante. Fazer um disco com a Roberta Miranda soa natural, pois é como se estivesse me envolvendo com aquele repertório regional de que a minha mãe gosta. Gravar com o Netinho, um cara do axé music, significou um achado e abriu portas para depois tocar com a Banda Eva e a Banda Cheiro de Amor. Cada trabalho gera outras perspectivas. Legal que acabo imprimindo minha marca na música dessas pessoas. Muita gente pegou minha sonoridade e os meus fraseados como influência.

- Quando iniciou a atividade de produtor?

- Minha primeira grande produção foram cinco faixas no disco da Ana Carolina de 2001. Durante cinco anos, produzi os discos dela e cuidei da direção artística dos seus shows. De vez em quando, tem uns intervalos, mas volta e meia nos reunimos. Hoje estou muito focado na minha produtora, a Quase9, criada em 2013. Tocar baixo é fundamental e nunca vou parar, só que quero seguir outros caminhos desafiadores.

­- O que está achando da experiência de trabalhar com a Xuxa no programa Dancing Brasil como diretor musical?

- Esse convite veio por intermédio do Daniel Figueiredo, produtor musical da TV Record, encarregado das trilhas sonoras das novelas bíblicas. Deu muito certo a experiência. A Xuxa é gente finíssima. Um dia desses, veio gravar aqui no estúdio e rolou um clima superbacana. Ela é uma pessoa extremamente generosa, talentosa e com muito tempo de estrada. Finalizamos a primeira temporada do programa e já vai começar outra. Estou completamente empolgado com o trabalho na televisão, que para mim é uma grande novidade e um enorme desafio. 

Foto: Divulgação

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Arte ao pé da letra

A vida do escritor e músico paulista James Misse foi transformada pela arte quando ainda era garoto. Do ano 2000 para cá, ele é quem tem mudado a existência de milhares de crianças Brasil afora. Autor de 24 livros dedicados ao público infantil, James encanta a molecada contando histórias, cantando e tocando.

 

O autor lembra que a grande transformação veio um dia quando seu pai chegou à casa com um violão. O menino ficou fascinado com o instrumento e acabou aprendendo a tocá-lo. Ao longo de sua carreira, a música dividiria o espaço com a literatura.

 

Antes, porém, de se dedicar totalmente à cultura, Misse trabalhou como corretor na bolsa de valores, tempos dos quais não parece guardar saudades. “Era muito tenso. Inclusive, tinha um cara que chegava e soprava a fumaça do charuto na minha cara e eu não podia falar nada”, conta.

 

Em certo momento, James decidiu deixar as cotações de lado e se dedicar mesmo a abrir sorrisos nos rostos da meninada. Fundou a editora Pé da Letra, pela qual publica suas obras, sempre em parceria com ilustradores, como Leandro Malavazzi, Marcelo Garcia e Cláudia Kfouri.

 

Entre os títulos lançados, estão O Pai Perdido de Amor, Mamãe, O Menino que Devorava Livros, A Música dos Bichos e Coisas pra Fazer Antes de Crescer. Cada um desses ganhou tiragens com milhares de exemplares. Além de produzir belas narrativas de fantasia, os trabalhos de Misse primam pelo conteúdo educativo, levando aos pequeninos questões como trabalho infantil, importância do hábito da leitura, o papel do ensino das artes e o respeito ao meio ambiente.

 

Nas apresentações em locais como escolas e hospitais, James faz seus personagens saírem do papel, em performances com narrativas, teatralizações e muita música, que alegram a gurizada. “Uma vez fui fazer uma apresentação na zona rural de Atibaia, no interior de São Paulo. Foi emocionante. Algumas crianças não tinham nem chinelo no pé, mas estavam ali, empolgadas, curtindo adoidado”, lembra o artista.

 

Nesses encontros, o escritor também apresenta uma criação sua bem interessante, o Passaporte da Leitura. Ao invés de carimbar as viagens ao exterior, como no documento emitido pela Polícia Federal, os leitores mirins anotam os livros que já leram e vão formando uma biblioteca na memória.

 

Casado, pai de três filhos, com uma rotina para lá de atribulada, James Misse participa de feiras literárias por todo o país e fora do Brasil, montando o estande da Pé da Letra. Não apenas crianças são seus fãs. Incluam também os pais nesse grupo, como se percebe nas inúmeras selfies postadas nas redes sociais.

 

Eu, que não sou criança e nem tenho filhos, fico muito feliz de conhecer James e seu trabalho, não só pela qualidade como pela extrema gentileza desse cara. Escrevi apenas um livro infantil, chamado A Testinha de Gabá, que fala sobre bullying nas escolas. Quem me incentivou enormemente a criar uma obra com tal perfil após três de terror foi justamente James Misse. Adoro o gênero infantil, no entanto não achava que poderia desenvolver algo nessa linha até que ele me estimulou a pensar no assunto e a pôr em prática. Artistas bacanas como James Misse são assim: mexem com as crianças e com os adultos. E viva a leitura!

Foto: Divulgação

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

E tome zine, zine, zine, zine, zine em papel xerox

Os fanzines ou simplesmente zines têm suas origens nos meios literários americanos, no século XIX, nas chamadas Amateur Press Associations (Associações de Imprensa Amadora), que publicavam contos, poesias, críticas e outros textos de autores que não eram profissionais. O célebre escritor de contos de horror H. P. Lovecraft foi um dos que tiveram passagem por esse circuito. Ao longo de sua história, os fanzines se popularizaram como veículos que primaram por democratizar a arte e a informação, desconcentrando-as um pouco das grandes mídias e do mercado editorial tradicional.

 

No Brasil, o modelo ganhou fôlego nas décadas de 70 e 80. No período, nasceram inúmeros fanzines dedicados à literatura, às artes plásticas e à música, produzidos das mais variadas formas, divulgados nas portas de shows, de museus, de bibliotecas, nas universidades ou no agito da noite, nos bares. Textos ora escritos à mão, ora datilografados, fotos escuras, manchas no papel, desenhos, cópias em equipamentos como máquinas de xerox ou mimeógrafos. É uma linguagem totalmente conectada à filosofia punk do “do it yourself” (faça você mesmo).

 

Em 1988, a banda Hanoi Hanoi, do cantor e baixista Arnaldo Brandão, gravou a música Fanzine, que ilustrava bem o fenômeno. A letra trazia no refrão: “E tome zine, zine, zine, zine, zine em papel xerox. O futuro é preto e branco, e todo branco e preto pode ter. E tome zine, zine, zine, zine, zine em papel xerox. Vem do fanzine novo papo, nova onda, novo ABC”.

 

Nos dias atuais, os fanzines continuam a todo vapor, em P&B ou coloridos. No último fim de semana, rolou em Brasília, no centro comercial Conic, um mega evento de zines, a Feira Dente, que reuniu artistas da capital federal e de outros cantos do país. Quadrinhos eróticos, poesia, terror, política e várias tendências culturais estavam representados ali.

 

Entre os participantes, o professor, artista plástico e poeta Luiz Reis, que junto com o publicitário e também artista plástico Fábio Lucas comanda a editora Náutilus. Este selo tem investido na produção independente. Na ocasião, lançaram a quarta edição do zine Lobotomia, do qual tenho a honra de participar com um conto inédito chamado O Menino que Maltratava Bichos.

 

Esta é minha quarta colaboração com a Náutilus, após o livro Casa dos Sons e contos na revista Bacanal vol. 2 e no primeiro Lobotomia. Ao avaliar o evento, Luiz Reis comentou: “É, cara, foi bem legal. A gente teve um bom retorno. Vendemos bastante. E tem outras pessoas criativas aqui, como a Morgana, que faz uns desenhos alucinantes. Éeeee!”.  

 

Também estava presente Daniel Cariello, jornalista e escritor brasiliense radicado no Rio de Janeiro, que dirige o selo Longe. Cariello apresentou mais uma vez seus livros, que mostram experiências de gente do DF vivendo fora da terra natal, como seu Chéri à Paris, sobre cinco anos passados na capital francesa. Empreendedor cultural, Daniel tem um grito de guerra que retrata a força da juventude. Ergue os braços para o alto e fala: “O jovem brasileiro! O jovem brasileiro! O jovem brasileiro”.

 

É isso aí. Viva a energia jovem dos zines, que em tempos de crise econômica braba e de momentos sombrios na política, rendem arte com muito talento e atitude.

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Algodão doce pra vocês

Qual não foi minha surpresa ao ver no Facebook que o artista e educador Daniel Azulay completou no dia 30 de maio 70 anos. Desenhista, compositor e escritor, esse carioca influenciou várias gerações com uma obra que já na década de 70 levava às crianças conceitos como o da sustentabilidade.

Felizmente, fui um desses miúdos que mantiveram contato com o trabalho de Daniel. Tinha dez anos e toda noite, lá por volta das seis, ligava na TV Educativa para assistir ao seu programa, que abria com uma inesquecível canção que dizia “Olá, amiguinhos, alô, alô, turma de casa”. De óculos e com uma gravata borboleta, o apresentador ficou famoso pelo bordão “Algodão doce pra vocês”, que falava ao se despedir, emendando com um assobio e uma puxadinha na orelha.

Eu que desde criança gostei de escrever e desenhar prestava atenção porque Azulay ensinava a pôr no papel seus personagens da Turma do Lambe-Lambe, como Pita, Piparote e Xicória. Outro mérito seu era ensinar a construção de brinquedos a partir de sucatas, como caixas de fósforo e caixas de ovos, sendo um pioneiro na educação para reciclagem. Seus programas vinham recheados de desenhos, músicas e mensagens para a molecada sobre saúde, cultura e tantos temas.

Depois, Daniel Azulay foi para a TV Bandeirantes e ainda trabalhou ao longo da carreira em veículos como UOL, Canal Futura e TV Rá-Tim-Bum. Vale destacar que seu trabalho alcançou reconhecimento internacional, rodando o mundo em exposições.

Acho que um cara como Azulay fez a diferença para milhares de pessoas que prestigiaram – e ainda prestigiam – sua obra. Trata-se de um modelo de educador por meio da arte que deveria inspirar políticas públicas nesse país em que educação e cultura não recebem o merecido reconhecimento. Eu mesmo, se sou escritor e arrisco de vez em quando uns rabiscos devo muito a Daniel por ter me estimulado a imaginação.

Infelizmente, a partir de meados da década de 80, produções como o maravilhoso Sítio do Pica-Pau Amarelo, A Turma do Tio Maneco, Bicho de Goiaba, Bambalalão e o de Azulay deram lugar na preferência da garotada a shows de qualidade duvidosa de apresentadoras patricinhas e sem conteúdo, mais preocupadas com merchandising de laticínios e com suas canções banais do que com a educação do público. Porém, a maioria dessas mocinhas caiu no esquecimento, enquanto Daniel Azulay está firme e forte aos 70. Parabéns, mestre!

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Herói do rock’n’roll

Nesta coluna, queria falar de algo alegre, já que na semana passada o tema foi a morte do ex-vocalista do Soundgarden, Chris Cornell, mas não poderia deixar de prestar homenagem ao grande Kid Vinil, morto na última sexta-feira (19 de maio), aos 62 anos. Cantor, compositor, jornalista, radialista, DJ, VJ, produtor e executivo do mercado fonográfico, Vinil se destacou como uma personalidade marcante na cena musical brasileira.

Nascido Antônio Carlos Senefonte, ganhou o apelido de Kid Vinil em 1979, quando apresentou um programa sobre punk e new wave na rádio Excelsior, em São Paulo. O pseudônimo derivava de Kosmo Vinyl, manager do Clash, e de Kid Jensen, locutor da BBC, de Londres.

Nessa época, já era vocalista do conjunto punk Verminose. No começo dos anos 80, o grupo passou a se chamar Magazine, adotando o nome de uma banda britânica de new wave e post-punk que havia encerrado as atividades.

Com o estouro do rock nacional, o Magazine emplacou alguns hits nas paradas, como Eu Sou Boy, Tic Tic Nervoso e a versão de A Gata Comeu, de Caetano Veloso, que virou tema de uma novela global. Com um estilo bem-humorado, o quarteto paulistano se destacou por um som leve e dançante, com letras abordando o cotidiano urbano. 

Em 86, Kid deixou o grupo e gravou um LP com a banda Heróis do Brasil. Em 89, lançou um álbum solo. Ao longo dos anos, Kid e o Magazine voltariam a se reunir e a gravar.

Considero até mais forte o trabalho de Kid Vinil como um educador do rock’n’roll. Li um texto de alguém comentando que naqueles tempos, no final dos anos 70, quando ainda não tínhamos a rede mundial de computadores, “Kid era a internet”.

Uma enciclopédia musical, em toda a sua carreira, atuou como divulgador das novidades que rolavam lá fora e aqui no Brasil. Muita gente conheceu novos artistas e bandas graças a ele. Em uma entrevista no ano passado, em sua casa, ao programa Vídeo Show, da TV Globo, Kid disse que sua coleção de discos reunia em torno de 10 mil CDs e outros 10 mil vinis.

Na TV Cultura, apresentou o programa Boca Livre, que abria espaço para o rock nacional, principalmente o independente, e o Som Pop, no qual apresentava clips. Um dos melhores momentos do Som Pop ocorreu no começo dos anos 90, quando Vinil produziu uma série sobre a história do rock, com direito a teatralizações divertidíssimas em que se vestia a caráter como punk, metaleiro, gótico e outros tipos.

Essa série do Som Pop tornou-se uma febre para mim. Gravei e revi infinitas vezes, a ponto de decorar e imitar frases ditas por Kid no programa, para alegria ou irritação dos meus amigos. “Pois é. Essas novas bandas que vieram a partir dos anos 80 trazem de volta as velhas guitar bands, a psicodelia e o rock de garagem dos anos 60. Tudo isso misturado com energia punk e, é claro, a usina sonora do heavy metal”, discursou ele no episódio dedicado a grupos barulhentos dos anos 80 e começo dos 90.

Tive o prazer de conhecer Kid Vinil e de entrevistá-lo para o Jornal de Brasília no começo da década de 2000, quando veio à capital para participar do festival Porão do Rock. Foi uma longa conversa na extinta Academia de Tênis, onde se hospedou. Na ocasião, falou do Magazine, de influências e do trabalho que começava a desenvolver como gerente da área internacional da recém-criada gravadora Trama.

Após a entrevista, contei-lhe que era fanático pelo Som Pop e que ficava imitando suas performances. Então, fiz a imitação para ele, que riu muito. Meses depois, durante visita à gravadora Trama, em São Paulo, o cantor me viu e veio me cumprimentar. O cara era extremamente simpático e atencioso.

Kid Vinil deixa saudades, por seu imenso carisma e pelas quatro décadas de amor à música, responsável pela formação de muitas cabeças roqueiras. Valeu demais!

Foto: Divulgação

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Um talento que nos deixa cedo

Não bastasse a turbulência política que o país enfrenta, nessa quinta-feira (18 de maio), acordei com a notícia de que o americano Chris Cornell, vocalista das bandas Soundgarden, Temple of the Dog e Audioslave, havia morrido. Chris estava com 52 anos. 

 

Como o cantor tinha se apresentado na noite de quarta em Detroit com o Soundgarden, imaginei que a causa poderia ter sido um problema cardíaco ou algo similar. Depois, soube que, na verdade, ele se suicidou, se enforcando no banheiro do quarto de hotel onde se hospedara. Celebridades deixaram mensagens de solidariedade nas redes sociais. Brad Pitt, Val Kilmer, Elijah Wood, Elton John, Jimmy Page e Billy Idol foram alguns dos que lamentaram a perda. 

 

Criado em 1984, o Soundgarden foi uma das bandas mais representativas do grunge de Seattle, ao lado do Nirvana, Pearl Jam, Mudhoney e Alice in Chain. O movimento estourou mundialmente no começo dos anos 90. Com cavanhaques, cabelos compridos e camisas de flanela, essa turma primava pela energia, embora cada um apresentasse características musicais distintas. Em geral, punk, heavy metal, rock de garagem e psicodelia constituíam os ingredientes básicos dessa receita sonora. 

 

Alternando momentos de suavidade e fúria, a voz de Cornell puxava a música densa do quarteto de Seattle, que também contou em sua formação clássica com o guitarrista Kim Thayil, com o baixista Ben Shepherd e o baterista Matt Cameron. 

 

Chris Cornell veio três vezes ao Brasil, duas em carreira solo, em 2007 e 2013, e outra com o Soundgarden, em 2014, no festival Lollapalooza. Infelizmente, não o vi ao vivo. Foi a única das célebres instituições do grunge que perdi, já que consegui assistir a shows do Nirvana, Mudhoney, Alice in Chains e Pearl Jam. Lamento. É triste que um talento ainda jovem e que poderia nos oferecer tanto tenha partido, ainda mais nessa circunstância.

Foto: Divulgação

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Com vocês, o professor de cinema

Nesta coluna, quero me dedicar a um daqueles personagens interessantes dos quais prometi falar e sobre os quais escrevia anos atrás nos tempos da edição impressa da revista Sete. O nome dele é Sérgio Moriconi, professor de cinema, cineasta, escritor e pesquisador, figura importante nos meios educacionais e culturais brasilienses por desenvolver um trabalho de divulgação da Sétima Arte, principalmente para os jovens.

Sérgio, já há algum tempo, é o responsável pela programação de filmes do Cine Brasília, o cinema público da capital do país. Com enorme conhecimento da história, dos diretores e das tendências cinematográficas, ele nos privilegia no Cine Brasília com produções nacionais e internacionais que não encontram espaço no circuito comercial.

Comecei a manter contato mais próximo com Serginho em 1995, quando fiz um curso com ele no Espaço Cultural da 508 Sul, que, no momento, se encontra em obras de revitalização. Sérgio oferecia regularmente cursos de cinema com várias temáticas, como criação de roteiro, direção de documentário e filmes de animação. 

Destaco que os meses em que ia à tarde para o Espaço Cultural da 508 assistir a essas aulas foram mágicos. Digo isso não só pelos conhecimentos transmitidos, mas pelos filmes fantásticos que tive oportunidade de assistir, como os clássicos franceses Zero de Conduta, de Jean Vigo, A Nós a Liberdade e Paris que Dorme, de René Clair, e Boudou Salvo das Águas, de Jean Renoir. No mesmo curso, houve uma mostra de Federico Fellini, que entre os títulos trouxe La Dolce Vita.

Chamava-me a atenção neste curso o fato de a maior parte dos alunos serem jovens entre 15 e 20 anos. Estavam ali encantados com o que viam e alguns deles, tenho certeza, foram trabalhar com cinema devido a esse belo incentivo.

Mesmo não tendo feito mais cursos com Moriconi, ao longo dos anos prestigiei outras mostras organizadas por ele, como uma dedicada à Escola de Cinema de Lodz, da Polônia, no Museu da República, em dezembro de 2008. Ali, novamente, vimos pérolas, como Faca na Água, de Roman Polanski, e Inocentes Charmosos, de Andrzej Wajda, duas películas embaladas pelo jazz sofisticado do pianista Krzysztof Komeda.

Sérgio Moriconi também dirigiu o filme Athos, em 1998, dedicado ao artista plástico Athos Bulcão. É ainda autor do livro Cinema – Apontamentos para uma História, sobre o cinema no Distrito Federal. Também escreve sobre música e cultura em geral em veículos da imprensa.

Se um dia esbarrar com Serginho pode puxar assunto porque a conversa rende. Trata-se de uma figura de extrema simpatia. Por que resolvi falar dele? De certa forma, para lembrar do papel dos professores e de todas as pessoas que trabalham com a educação por meio da arte, com experiências que certamente merecem ser replicadas por todos os cantos. Um país como o Brasil deveria valorizar mais esses profissionais pois, com a paixão pelo trabalho e seus conhecimentos, ajudam a transformar a realidade.

Foto: Sérgio Moriconi por Luana Lleras

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Em defesa dos animais

Recentemente, causou escândalo nas redes sociais o caso de um universitário de Cuiabá que, sem qualquer pudor, postou em um de seus perfis na web uma foto sua abusando sexualmente de uma cadela de rua. Talvez esse rapaz não contasse com isso, porém o fato lamentável alcançou enorme repercussão.

Graças a uma campanha movida por organizações não governamentais (ONGs) de proteção de bichos, como a PamPet, a prisão do marginal foi decretada e o criminoso acabou se entregando à polícia. Esperamos que receba punição exemplar pelo ato doentio.

O que mais espanta é que em seu perfil no Instagram, este jovem colocava fotos de animais domésticos que tinha, com mensagens em que dizia defendê-los. Felizmente, os cães que estavam com ele foram resgatados e, inclusive, a cadelinha de rua violentada foi encontrada. Casos de maus tratos, abusos e abandonos de animais ainda são muito comuns. Violência contra pets, como cães e gatos constituem uma das facetas dessa calamidade, mas não para por aí.

Causa profunda indignação como cavalos, burros e jumentos, usados para transporte de carga, sofrem agressões com chicotes dos condutores das carroças e têm de suportar quantidade de peso que acaba lhes causando danos ortopédicos irreversíveis. Quando não conseguem mais exercer a dura função que lhes é atribuída, são abandonados, para serem atropelados e causarem acidentes nas pistas ou morrerem agonizando ao relento.

Essa vergonha acontece na cara do Detran, da Polícia Militar e dos órgãos ambientais do Governo do Distrito Federal sem que se tome providência proteger as vítimas. Quem sabe uma campanha educativa junto aos carroceiros ajudaria, porém, preocupação com animais e meio ambiente não parece ser preocupação das autoridades, nem de Brasília e nem de nenhum outro lugar do Brasil.

Crueldade

As maldades contra esses seres indefesos são incontáveis. Pessoas que adotam cães e gatos e, depois, principalmente quando os bichinhos envelhecem, os abandonam; gente que prende passarinhos e outros animais silvestres em gaiolas como se fossem brinquedos para seu lazer; a criação brutal de espécies para o abate submetidas a tortura, confinamento e ingestão de produtos químicos para que produzam carne rapidamente; a utilização de galos em rinhas; a caça apenas pelo prazer de matar ou ameaçando espécies em extinção; a boçalidade conhecida como Vaquejada, em que os bois são torturados em uma arena para “diversão” do público; as touradas; e a própria devastação do meio ambiente, de rios, mares, terras e ares, que consomem a natureza. Tudo isso tem um preço que já estamos pagando, com a deterioração dos ecossistemas. Ao fazermos mal ao planeta e às outras criaturas, também apertamos o botão da nossa gradual destruição.

Felizmente, existem entidades como a PamPet, que resgatam animais das ruas e vítimas de maus tratos, realizando campanhas de adoção. É muito comum em grandes cidades pet shops organizarem feirinhas em que se pode levar para casa um amigão como um gato ou cachorro, pagando-se apenas uma taxa pela vacinação. Enquanto houver gente desenvolvendo esse tipo de trabalho, há esperança.

Vi certa vez uma frase que dizia que se alguém tem um cachorro não pode falar que não possui um amigo. Além de ter dois cães em casa, percebo isso de forma tocante ao ver moradores de rua, outras vítimas do descaso da nossa sociedade, que nada têm, mas adotam um cão como companheiro.

Vamos tratar os animais com o respeito que eles merecem. Ainda mais porque eles não podem se defender. Salve a bicharada!

Foto: Divulgação

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Sobre homens e árvores

Aqui em Brasília, perto da área comercial da quadra 207 sul, há meia dúzia de belas árvores. Não entendo de botânica para dizer quais as espécies dessas plantas, porém são frondosas, belas e proporcionam sombra, tão importante na época de seca e calor que se aproxima no Planalto Central.

Qual não foi o choque que tive ao passar por lá e ver que as árvores foram cercadas. O motivo: uma construtora vai derrubá-las para erguer um prédio comercial. Saem raízes, folhas, flores, frutos, ninhos de pássaros e entra em cena o concreto.

Felizmente, o fato gerou indignação da comunidade, que respondeu com uma manifestação no último sábado (22/04). A população não aceita a derrubada das árvores e promete se mobilizar para impedir essa barbárie. Há uma década, tentaram fazer o mesmo na quadra ao lado, na 208 sul. Chegaram a cercar as árvores para arrancá-las, porém a empreitada não seguiu adiante por conta justamente da mobilização da comunidade.

Temos visto nos últimos anos as riquezas naturais da região Centro-Oeste serem dizimadas pelos interesses de grandes grupos econômicos, como produtores de soja, pecuaristas e especulação imobiliária. Esta ganha destaque no Distrito Federal, onde o crescimento urbano desordenado, com a complacência de governos e políticos, contribui para a devastação do Cerrado.

Com toda essa ganância empresarial, nos últimos anos pouco se poupou, como o Parque Olhos D’Água, na Asa Norte. Não fosse a união dos moradores da região, os grupos imobiliários teriam passado o trator por cima das nascentes, dos bichos e das plantas dos Olhos D’Água, o que aliás fizeram por todo o DF, com o interesse privado prevalecendo sobre o social.

Nosso precioso bioma está ameaçado, justamente em uma época em que se fala tanto de sustentabilidade no mundo dos negócios. Reflexos da irresponsabilidade e descaso dos governos do Distrito Federal por décadas com a natureza aí estão: escassez de água, períodos de estiagem cada vez mais prolongados, aumento da temperatura, poluição das águas e dos ares, destruição da fauna e flora. O que mais podemos esperar? Talvez salvar estas árvores que querem derrubar na 207 sul seja um bom começo.  

Foto: Marcelo Araújo

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Estamos de volta!

Fiquei contente quando soube que minha amiga Michelle Maia estava recriando no formato digital a revista Se7e. Foi uma publicação editada na primeira metade dos anos 2000 que destacava a programação cultural em Brasília. Tive o privilégio de por uns dois anos escrever na Se7e uma coluna quinzenal chamada 360º, na qual destacava não só fatos culturais como crônicas sobre personagens brasilienses.

 

Minha felicidade não poderia ser maior ao receber, 13 anos depois após o fim da edição impressa, convite para voltar a escrever para a Se7e, agora nas ondas da web.

 

Decidida a colaboração, o primeiro passo foi definir o nome da coluna. Achei que um novo título seria mais interessante do que reviver um antigo. Daí, surgiu 7 Point, em uma referência aparentemente esportiva, mas que tem mais a intenção de promover um divertido jogo com as palavras.

 

Espero, nos próximos tempos, usar este espaço para falar de fatos interessantes da vida cultural e, também, para contar histórias de figuras que por algum motivo têm algo interessante a se destacar, com uma boa pitada de humor.

 

Vivemos tempos difíceis, em um clima pesado, tanto no Brasil quanto no mundo. Nessas horas, cultura e humor certamente nos ajudam nas nem sempre tão tranquilas travessias do dia a dia.

Grande abraço!

 

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

Ernane, toma logo essa abacatada que teu coleguinha já chegou com o Pelebol

Foto: divulgação

Ernane era um garoto legal e um dos melhores jogadores de Pelebol. Só quem tem mais de 40 anos vai lembrar deste brinquedo que fez muito sucesso na década de 70. Inventado na Inglaterra no fim dos anos 40 e conhecido lá fora como Subbuteo, ganhou no Brasil um nome para homenagear nosso jogador mais ilustre, Pelé, o Rei do Futebol. Era um campo com bonequinhos representando os jogadores, duas traves e uma bola.

 

O menino Ernane só não era muito chegado em abacatada, lanche que sua mãe gostava de lhe empurrar todas as tardes, condição sine qua non para descer e brincar com os amigos na rua. Porém, o garoto congelava de desânimo em frente à iguaria esverdeada, relutando em degustá-la. Quando tocavam a campainha, sua mãe, por sinal um amor de pessoa, vinha abrir a porta e gritava da sala para a cozinha, para desespero do filho: “Ernane, toma logo essa abacatada que teu coleguinha já chegou com o Pelebol”.

 

Cenas como essa hoje são raras. A meninada não joga mais nem Pelebol, nem futebol de botão e não brinca de pique-pega e esconde-esconde, clássicos lúdicos infantis até o começo da década de 80. Depois, vieram os videogames e tudo mudou. Atualmente, mal começa a andar e a molecada já se diverte com tablets e smartphones.

 

Longe de mim fazer o papel de saudosista. Odeio nostalgias do tipo “na minha época tudo era mais legal”, “antes as crianças sabiam se divertir de verdade” ou sei lá mais o quê. Não existe isso de uma geração pior ou melhor do que a outra. Cada uma sabe viver e aproveitar o seu tempo.

 

Não se pode demonizar ou endeusar as tecnologias. Em termos práticos, elas têm muito o que oferecer à formação intelectual de crianças e adolescentes. Especialistas atribuem aos jogos virtuais pontos positivos como estimular o comportamento empreendedor por meio da tomada rápida de decisões ou a facilidade de se adaptar a novos ambientes, a exemplo do que ocorre nas mudanças de fases de um game.

 

No Brasil da atualidade, pais também não possuem a mesma tranquilidade do passado para deixar seus filhos soltos na rua. Antigamente, era comum na época de férias, a turma ficar embaixo do edifício até dez, onze horas da noite, na maior farra. No presente, mesmo de dia, o fantasma da violência ronda as portas de casas e escolas, com sequestros, assaltos e balas perdidas que não poupam a vida de ninguém, nem mesmo a dos pequeninos. Há que se aprender a conviver com tamanho absurdo enquanto não se encontra uma solução para nos tornarmos uma sociedade civilizada.

 

O que acho interessante, em meio a este mundo moderno, não é cortar os aplicativos e sim permiti-los de maneira racional. Por que não estimular nos miúdos o gosto por atividades esportivas ou mesmo brincadeiras em casa e nas escolas, que, certamente irão contribuir para diminuir índices de obesidade, diabetes e hipertensão?

 

Não devemos esquecer também do papel da educação artística para despertar desde cedo a sensibilidade e uma inteligência com capacidade de abstração. Curiosamente, vivemos uma conjuntura em que, na contramão da sensatez, autoridades, de forma absurda consideram as artes manifestações descartáveis e querem tirá-las das grades curriculares. Um atentado contra a razão!

 

E por onde anda o Ernane? Não sei. Há mais de três décadas que não o vejo. Fico pensando se aprendeu a gostar de abacatada ou ainda faz cara de nojo quando se depara com o copo verde à sua frente. Toma logo isso, menino.

 

Marcelo Araújo é jornalista, escritor e colaborador da Se7e. Publicou os livros Não Abra – Contos de Terror, Pedaço Malpassado, A Maldição de Fio Vilela, A Testinha de Gabá e Casa dos Sons.

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