Última semana para acompanhar o Festival Internacional de Cinema & Transcendência

Até o dia 27 de novembro acontece o 7º FESTIVAL INTERNACIONAL CINEMA & TRANSCENDÊNCIA, no site do festival - www.festivalcinemaetranscendencia.com –, totalmente gratuito! Os títulos deverão ser vistos nos horários fixados na grade de programação – fora isso, não estarão disponíveis para visualização.

 

“Autoconhecimento é libertação”. Em tempos de pandemia, que obriga a um intenso e íntimo contato (nem sempre prazeroso) consigo mesmo, as palavras da Monja Cohen soam como bálsamo. Com o isolamento social, homens e mulheres têm visto de perto suas próprias fragilidades, vulnerabilidades, incertezas. Mas também toda a riqueza do ser interior que cada um abriga. É neste contexto que o FESTIVAL INTERNACIONAL CINEMA & TRANSCENDÊNCIA chega à sétima edição, renovado e em sintonia com a complexa realidade contemporânea. Único no Brasil a investigar a subjetividade dos caminhos do autodesenvolvimento através da arte cinematográfica, o Festival acontece totalmente online, em plataforma própria, que abrigará não só as exibições, como também um show de abertura, lives, debates, presença de realizadores e aulas. A idealização e curadoria são do músico e cineasta André Luiz Oliveira, com cocuradoria da produtora e diretora Carina Bini. O projeto é patrocinado pelo Banco do Brasil, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

 

Durante a última semana do festival serão exibidos quatro filmes que valem a pena assistir. São eles:

 

*24/11 - TERÇA*

21h – What about me? – Com apresentação do diretor – 91’ - Livre

 

*25/11 - QUARTA*

21h – Quem se importa – Com apresentação da diretora – 98’ - Livre

 

*26/11 - QUINTA*

21h – O Navio de Teseu – Com apresentação do diretor – 144’ - Livre

 

*27/11 - SEXTA*

21h – O Outro Lado da Memória – Com apresentação do diretor – 115’ – 10 anos

Sobre pessoas interessantes, mas não importantes (ou vice-versa)

É difícil determinar o que faz uma pessoa ser interessante, aquela que esconde e ao mesmo tempo deixa à mostra algum aspecto que nos cativa, mas que não conseguimos explicar exatamente o que é.

Ser cátedra, ter pós-doutorado na França, ser executivo de multinacional, líder reconhecido no mercado ou político influente faz o sujeito importante, mas não necessariamente interessante.

Também não é passaporte para ser interessante saber dos últimos lançamentos da Apple, da Samsung ou ter sido um dos primeiros a ir ao restaurante da moda, que forma dois quilômetros de fila na porta.

A bem da verdade é mais provável que pessoas assim despertem sonolência em vez de interesse.

Dessa forma, eliminando esses tipos, você se surpreende verificando que com quem gostaria de conversar por mais de 15 minutos é o uruguaio que veio para o Brasil cursar a escola de circo. Ele joga malabares no sinal em que você para todos os dias, e hoje a apresentação dele estava tão boa, mas tão boa, que você, batendo palmas dentro do carro, se desculpou sinceramente por não ter nenhum trocado, ao que ele, em bom portunhol, respondeu “não tem problema, seu aplauso foi meu melhor cachê do dia”.

Há também a balconista da farmácia, que certamente foi trabalhar enlatada num ônibus, mas que vende um antigripal com atenção e sorriso largo, e de quebra deseja de coração que você fique bem, que amanhã acorde melhor. E no dia seguinte, quando você passa, ela coincidentemente está na porta da loja e pergunta: O senhor se sente melhor?

Sem falar na loura tingida da casa lotérica, aquela em que você entrou aproveitando que não havia fila, para jogar, sem qualquer esperança, na mega sena. Ela apanha a nota que você pegou na carteira e diz que com o troco dá pra jogar na quina que corre à noite e, quem sabe, ganhar um milhão. “Aí, o senhor volta aqui e me dá um presente”, e pisca o olho, divertida, misturando malícia e pureza. E ela faz isso de um jeito tão alegre que você promete a você mesmo que se ficar milionário vai comprar um mimo pra ela.

E pra balconista.

E dar um belo cachê pro uruguaio.

Porque cada um, a seu modo, fez ao menos cinco minutos da sua vida serem um pouco melhores e mais divertidos.

André Giusti – do livro As Estranhas Réguas do Tempo (Editora Multifoco, Rio, 2014)

Violência contra mulher será discutida nas escolas públicas do DF

A violência contra as mulheres, um assunto de grande importância, será tema de discussão nas escolas carentes do DF assim que as aulas presenciais estiverem de volta. O projeto Flores em Cena tem o objetivo de contribuir efetivamente para a transformação cultural, na medida que leva a informação e busca a sensibilização de jovens, prioritariamente das camadas mais vulneráveis da sociedade, envolvendo-os no próprio processo da construção e da formação de multiplicadores.

 

Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que sete em cada dez mulheres no mundo já foram ou serão violentadas em algum momento da vida. Segundo o Ministério da Saúde, a cada quatro minutos uma mulher é violentada por um homem no país. Somente em 2018, 145 mil casos de violência contra a mulher foram registrados. No Distrito Federal (DF) essa realidade é especialmente cruel. Levantamento do G1 mostra que em 2019, 60 mulheres foram assassinadas no DF. Do total, 33 foram casos de feminicídio e outros 27 foram classificados como homicídio doloso.

 

 

A informação, segundo especialistas, é um dos principais pilares para mudar essa realidade. Sendo o acesso a ela, um dos direitos básicos de toda e qualquer democracia. A informação tem poder de mudar paradigmas.

 

O projeto visa desenvolver uma peça teatral protagonizada por um elenco formado por 10 mulheres, jovens estudantes do ensino médio e acontece em parceria com o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, com apoio da Secretaria de Educação e das Administrações Regionais de São Sebastião e Planaltina do DF. As apresentações acontecerão em escolas públicas do Distrito Federal, nas regiões administrativas de Planaltina e São Sebastião.

 

O texto foi criado especialmente para o projeto. No enredo, será abordada a violência contra a mulher como uma questão global e prioritária, que requer esforços que vão muito além das Leis hoje existentes, mas fundamentalmente de intervenções cirúrgicas no seio da sociedade, para fazer drenar o veneno herdado de uma cultura medieval machista, em que ao homem era permitido, por exemplo, castigar fisicamente suas mulheres, crianças e escravos. Permitia também matar a mulher adúltera e, não muito distante dos tempos modernos, dava às mulheres o status de “incapazes”, valendo lembrar que, no Brasil, a mulher só conquistou o direito ao voto em 1932.

 

O projeto está sendo idealizado pelo Instituto Lumiart e conta com apoio de recursos do Governo Federal.

 

As informações são da assessoria de imprensa do projeto.

As filhas moravam com ele

Quando abriu a porta e acendeu a luz, o apartamento de apenas 30 metros quadrados lhe pareceu maior do que uma mansão de vinte quartos sem mobília e sem gente morando.

Naquela noite, foi dormir cedo, muito mais por solidão do que por cansaço.

Até hoje não sabe se sonhou ou se tudo não passou de imaginação disfarçada de sonho naquele limiar do sono, quando já estamos quase dormindo, mas ainda restam algumas tomadas plugadas ao mundo concreto do dia que termina.

O que sabe é que estava em uma casa bem maior que seu apartamento, uma casa térrea, que chamava a atenção pela simplicidade e pelo acabamento desleixado.

O piso era de cimento queimado e lembra-se de que duas ou três paredes estavam ainda no reboco. Não sendo antiga, também não era recém-construída. Percebia-se que estar pronta sendo inacabada era traço característico incorporado pelo tempo e por iniciativas proteladas, daquelas “tem que fazer, mas esse mês, não dá, deixa para o próximo”. Era bem clara também, de uma claridade que permeava a sala espaçosa, os três grandes quartos e a cozinha, onde cabia mesa de seis lugares, feita de madeira rústica.

Em seu dorme não dorme, sonha não sonha, não tinha certeza se a luz do dia era a da manhã ou a da tarde. Era luz, e isso era o mais importante. Ali, pelo jeito, ele pensou quase dormindo (ou sonhando?) que o luar também deveria fazer visitas e se hospedar feito primo que vem sempre.

Já o vento, este mais que se hospedava. O vento morava. Aproveitava as grandes janelas sempre abertas, sem grades e cortinas, e circulava pelo ambiente de poucos móveis e imensos clarões entre mesa e sofá, camas e guarda-roupas. O vento entrava e saía, esperava alguns instantes, voltava. O vento parecia um cachorro de casa: do quintal para dentro, de dentro para o quintal, até que alguém o notasse e fizesse festa pela sua presença.

Quando naquele túnel irreal ainda percorria os cômodos e vislumbrava do janelão da cozinha uma varanda imensa, coberta por telhas e sem laje, ouviu vozes de meninas, meninas entre a infância e a pré-adolescência.

- Pai! ‘Cê tá em casa, pai? – Era a voz da filha mais velha, entrando esbaforida, jogando a mochila no primeiro espaço vazio.

- Pai! Tirei nove em matemática! – Avisou a do meio, vindo junto à primeira.

- Pai, cadê o Dique? – E logo surgiu a caçula, passando por ele e voltando instantes depois, seguida pelo cachorro labrador imenso e carinhoso. Ele sorriu no sonho, ou no que quer que fosse aquilo que embalava seu adormecer: havia também um cachorro, para também entrar e sair quando quisesse.

Eram suas filhas, e moravam com ele no sonho, no limiar do sono ou na imaginação meio acordada, outra metade adormecida. Não precisava pegá-las de quinze em quinze dias, pois era ele quem cuidava delas todos os dias, do que haveria para almoço e para a janta, era ele quem recolhia suas presilhas de cabelos, suas fitinhas e laços esquecidos pelos cômodos. Era ele quem as ouvia contar histórias do recreio na escola e entregarem, cada uma, segredos inocentes das irmãs sobre namoradinhos.

Depois que almoçavam, nas tardes de sábado, iam para a varanda terminar de rir das tolas piadas que contaram à mesa. Lá pelo meio das três horas, esticado em uma encorpada cadeira também de madeira rústica, ele perdia os olhos em um horizonte baixo que havia para ser medido do alto da colina onde ficava a casa. A paisagem sumia num cochilo bom e profundo, mas reaparecia quando ele acordava com o vento mais forte derrubando mangas no fundo do quintal e anunciando chuva grossa no fim da tarde.

Espreguiçava-se em paz, com a certeza do cheiro da terra e grama molhadas. Era a mesma certeza de que mais tarde, quando já fosse noite, as nuvens descarregadas do temporal dariam lugar no céu às estrelas, e que ainda mais tarde uma lua amarela, pela metade, subiria o muro do mesmo horizonte baixo.

Terminando de esticar os braços e dar os últimos bocejos, levantava-se e ia inspecionar os quartos, onde as encontrava enfiadas nos livros, nas mensagens dos celulares e quase sempre no apronto sem fim dos cabelos.

Do corredor, perguntava alto:

- Quem vai querer pizza de noite?

- Eu!

- Eu!

- Eu!

E as vozes felizes tomavam a casa, carregadas pela expectativa do sabor.

Eram suas filhas, moravam com ele, e ele, quando chegava em casa, não encontrava solidão. Ouvia no sonho, ou no galope da imaginação, a chuva chegando, sentia o cheiro da terra molhada invadindo a sala. As janelas batendo com o vento e a copa da mangueira sacudida lá fora avisavam que ele era feliz e que aquela era uma casa simples e em paz.

Um dia, o curso normal da vida levaria as três, uma a uma, mas logo logo o recompensaria com netos e netas, e a casa, sempre inacabada, estaria cada vez mais firme em sua simplicidade e em sua paz.

As filhas moravam com ele.

E se realmente sonhara, fora o sonho mais lindo que tivera em toda a sua vida.

 

Foto: Arquivo pessoal do autor.

André Giusti é jornalista e escritor.

Brasília de grilos e vagalumes

Uma lembrança forte que tenho da infância bem remota são os grilos cantando na varanda da casa de uma de minhas tias, no bairro da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro.

Concentrava meus ouvidos naquele cri-cri-cri incansável e em poucos minutos ele já pairava acima da conversa chata dos adultos. Mais meia hora que se passava, e a cantoria repetida embalava meu sono no início da madrugada.

E como a opção fosse pelas luzes apagadas para que o luar desse conta da varanda escura, vagalumes cortavam as sombras da noite, completando meu divertimento e desaparecendo quando o peso do cansaço cerrava meus olhos.

Permeando o cantar dos grilos e o luzir mágico dos vagalumes, a brisa entregava o cheiro da maresia que vinha de uma Baía de Guanabara ainda não poluída (ou pelo menos não tanto).

Eu cresci, o Rio de Janeiro ainda mais do que já era na minha infância. Por lá, provavelmente não haja mais sinfonia de grilos nem piscar de vagalumes.

Aos 30 anos, viajei 1.200 quilômetros para mudar completamente minha vida e minha história, e no primeiro dia morando numa antiga quadra da Asa Norte, o que ouço ganhando o silêncio de fim de noite? Sim, minha infância viajando na distância da geografia e do tempo para me visitar. Meu Deus! Em Brasília se ouvem grilos! Sorri consternado, e logo pensei nos vagalumes, sem imaginar a surpresa que um apagão na cidade me reservaria cerca de uma semana depois: duas ou três luzinhas esverdeadas acendendo e apagando junto ao tronco da sibipiruna próxima à minha janela.

E como o cheiro da maresia não chega até aqui, me viro como posso com esse perfume agreste do cerrado e suas flores exóticas, suas belas árvores tortas.   

 

Foto: Divulgação.

André Giusti é jornalista e escritor.

A Grande Mentira (The Good Liar – 2019)

Não é preciso muito para convencer um fã de cinema a assistir este A Grande Mentira. Basta olhar os nomes da duas grandes estrelas do elenco para se decidir. Há vários motivos para gostar de uma produção. Pode ser boa história, bons diálogos, bom jogo de câmeras, belas fotografias, e, como é o caso aqui, interpretações magnéticas.

Nem é preciso dizer que é um deleite ver Ian McKellen interpretar Roy Courtnay, um golpista idoso que busca uma última grande trapaça antes de se aposentar. A experiência é ainda mais forte com a futura vítima dele, Betty, que é interpretada por Helen Mirren. Os dois se conhecem em um aplicativo de relacionamentos para pessoas mais velhas e criam afinidade. Mas ela não parece consciente que o interesse dele é voltado exclusivamente para a pequena fortuna guardada em alguma conta.

É um típico filme de suspense de golpe, sem muita novidade. Mas o subgênero não busca muito mais que diversão com reviravoltas e cenas tensas. E é isso que o diretor Bill Condon e o roteirista Jeffrey Hatcher querem entregar nesta adaptação do livro homônimo de Nicholas Searle. Há uma trama leve e rápida que acompanha esses personagens até o fim. Algo na linha que fazia com que Alfred Hitchcock tivesse muito sucesso.

Condon dirige quase com tom intimista, com planos próximos e muitas sombras. Isso realça a sensação de suspense e de que os personagens escondem algo entre si. Além disso, o diretor de fotografia Tobias A. Schliessler dá dicas de pequenas surpresas da trama com uma lente com foco levemente profundo. Todo enquadramento tem apenas um objeto, personagem ou cenário focado. O resto fica com um borrado fraco.

A técnica serve a dois propósitos. Primeiro, orienta a visão do espectador, que procura inconscientemente o que estiver focado. Mas mais importante, reflete a trama, em que pequenos segredos e mentiras estão escondidos por toda parte. E Condon tem confiança no texto de Hatcher, porque permite que pequenas dicas apareçam por toda parte em cortes secos durante momentos de interpretações dos atores, ou até por colocar olhares que dizem muito.

Isso porque o texto é realmente bem escrito. Os diálogos parecem naturais, em grande parte devido aos excelentes atores, mas também escondem nas entrelinhas. Sejam motivos para ele não querer uma viagem que ela quer muito fazer, até a forma como alguns golpes apresentados no filmes revelam como a grande surpresa pode ocorrer.

No entanto, Hatcher e Condon não conseguem esconder o grande defeito da trama original do livro. A maior parte das reviravoltas são impossíveis de serem previstas, por mais que existam pistas pelo filme. É muito fácil surpreender o espectador quando não tem nada que indique o que é a verdade completa da produção.

Ainda assim, a combinação de suspense e texto divertidos garantem a condução do filme. E a reflexão final sobre culpa e punição também enriquece muito as discussões após a sessão. Mas o melhor de tudo é notar as nuances das interpretações dos dois protagonistas. McKellen expira vitalidade nos olhares que avaliam tudo de Roy, enquanto Mirren esconde muito de quem é Betty em rápidas mudanças de posições de câmera e em cortes de cenas. São dois veteranos talentosos que reforçam o trabalho um do outro.

O resultado é exatamente o que se propõe, um suspense divertido, rápido, vigoroso e com alguma reflexão. Mesmo que a reflexão não seja duradoura e as não reviravoltas deixem a desejar, é difícil sair do cinema após A Grande Mentira sem uma sensação positiva.

Foto: Divulgação.

Vinícius Brandão produz o site Aquela Velha Onda, parceiro da Se7e Cultura. Confira aqui a programação dos cinemas. 

Doutor Sono (Doctor Sleep - 2019)

"Me diz quem vai dirigir essa merda", foi a reação do diretor de cinema Pedro Buson quando soube que O Iluminado teria continuação. Mesmo depois de saber que seria um diretor conceituado como o Mike Flanagan, ele ficou irritado: "Mas não é o Stanley Kubrick!". Ele tem motivo para a preocupação. Qualquer pessoa que resolva estudar cinema descobrirá rapidamente que o realizador lendário é um dos mais importantes da história.

 

E retomar a história de Danny Torrance (Ewan McGregor) 40 anos depois do clássico é perigosíssimo. Agora adulto, ele usa os poderes de clarividência e de mediunidade para auxiliar pessoas moribundas em um hospital em que trabalha no turno da noite. Até encontrar Abra (Kyliegh Curran), uma garota mais poderosa do que tudo que ele já conheceu. Agora ele precisa protegê-la de um grupo de semi-vampiros liderados por Rose a Cartola (Rebecca Ferguson) que querem absorver a essência dela.

 

Este Doutor Sono tem um risco duplo para Flanagan. Além de fuçar com um clássico de um dos grandes mestres da arte, ainda é continuação de um filme que ficou infame pelo ódio do autor do livro que serviu de inspiração, Stephen King. O que deixou para Flanagan três opções complexas: fazer uma continuação que se desconecta do livro; uma adaptação do livro que se desconecta do filme anterior; ou fazer algo que seja tanto continuação e adaptação fiel. E o diretor, roteirista e editor escolheu justamente a terceira, a mais difícil.

 

Felizmente, Flanagan é apaixonado pelos dois. Conheceu o filme de Kubrick antes de conhecer King como autor, mas eventualmente passou a admirar a obra do escritor. Por isso, consegue equilibrar os dois objetivos na maior parte do filme. Assim como no livro Doutor Sono, faz com que a história seja uma jornada de redenção para os Torrance. Ao mesmo tempo, é uma homenagem à tudo o que faz do filme clássico algo tão influente no cinema.

 

Desde o começo, ele demonstra como os eventos no hotel Overlook traumatizaram Danny quando garoto. Perseguido pelos espíritos do lugar e com a lembrança do pai violento e alcoólatra, ele segue o caminho compreensível, de excessos. É um tema recorrente em filmes do diretor, e ele apresenta bem o que é a luta de Danny para largar o vício em bebida e para encontrar equilíbrio e estabilidade. Tudo, é claro, remete ao passado sombrio dos Torrance.

 

Ainda assim, o primeiro enquadramento e o estilo musical do filme original dão o tom de que se trata de algo no mesmo universo de O Iluminado. Flanagan faz questão de repetir enquadramentos de Kubrick e de usar planos simétricos. Até que Danny se reforma e toda a linguagem do filme passa a ser dele. É sutil, mas ele assume a produção como dele sem deixar de reconhecer o que veio antes.

 

Há uma predominância da cor verde, que Flanagan gosta de usar para representar protagonistas femininas nos filmes dele. Da mesma forma que Doutor Sono é, predominantemente, um suspense de gato e rato. Não há monstros ou fantasmas atrás de ninguém. É apenas Danny e Abra com os poderes paranormais contra um grupo de "pessoas" com outros poderes paranormais.

 

E, nesse sentido, Flanagan deixa produções de super-heróis exuberantes como Doutor Estranho no chinelo. Há uma cena em que Rose e Abra têm uma disputa por controle de mentes que brinca muito bem com as formas como humanos acumulam memórias e têm representações mentais de si. É divertido ver esses confrontos, mesmo que eles não sejam grandes cenas de ação e perseguição.

 

Outra coisa que garante a diversão é o domínio do ritmo. Flanagan conduz as cenas por meio de uma linha de raciocínio que permite ao espectador prever os perigos que se aproximam, mas não o que acontecerá. Então, quando se vê Rose ter uma experiência extracorpórea através dos Estados Unidos, já é possível prever que ela vai procurar Abra. É algo que Hitchcock fazia muito bem: com que o espectador soubesse do risco, mas não o que acontecerá quando ele alcançar um dos personagens.

 

Isso já cria identificação com os protagonistas, porque todo mundo entende o que é temer pela segurança. Outra coisa que serve bem a esse propósito é a representação do grupo de vilões. Eles são/foram humanos, mas predam crianças por fome. E Flanagan faz questão de mostrar uma morte lenta e dolorosa de um menino, para dar a entender o que pode acontecer com Abra e Danny. Também ajuda muito ter uma atriz fenomenal como Ferguson como antagonista.

 

Ela faz com que Rose se expresse por movimentos mínimos. Quando descobre uma brincadeira de um parceiro, dá um leve meio sorriso. Quando caça Abra, levanta levemente os braços para indicar que a personagem sente os inimigos com os poderes dela. Ferguson é tão boa que ofusca um elenco extraordinário. Além de McGregor, apaga gente como Bruce Greenwood, Cliff Curtis e Jacob Tremblay.

 

Com tanta personalidade e rumo próprio, o filme derrapa justamente no clímax, quando precisa fechar as pontas de Danny com o passado dele. Há até uma fala de Rose que nos lembra que o personagem nunca chegou a encontrar os perigos do filme até o fim. De repente, o filme volta a repetir enquadramentos e trilhas de O Iluminado, perde o ritmo e coloca algumas soluções aceleradas que nunca parecem se encaixar no que foi mostrado até então. É mais um clímax anticlimático.

 

No entanto, um final apagado não compromete o que foram duas ótimas horas que prendem e fazem o espectador torcer pelos personagens e vibrar de tensão com os vilões. Doutor Sono não é apenas um trabalho arriscado de Flanagan, mas também o primeiro filme de grande orçamento voltado para grandes audiências. E, mais uma vez, o artista passou pelo teste como realizador.

 

P.S.: Como há referências em peso ao filme de 1980, é recomendado reassisti-lo antes da sessão.

Foto: Divulgação.

Vinícius Brandão produz o site Aquela Velha Onda, parceiro da Se7e Cultura. Confira aqui a programação dos cinemas. 

A Família Addams (The Addams Family - 2019)

Há algo de charmoso e atemporal na Família Addams. Pai, mãe, filho, filha, avó, tio, mordomo e mãozinha formam um grupo que existe há décadas no imaginário popular. Em tom gótico e cadavérico, eles gostam de sentir dor, aplicar dor, criaturas macabras, brincar com facas, espadas, explosivos e objetos de tortura. É quase como uma equipe de monstros, mas também um reflexo das relações dentro de uma das primeiras instituições às quais a maioria das pessoas são expostas: a unidade familiar.

É por isso que, quando o pântano ao redor da mansão Addams é drenado, a neblina dispersa e eles descobrem que vivem no meio de uma área residencial típica dos sonhos americanos, com jardins floridos e paredes coloridas. O que desperta a atenção da adolescente Vandinha (Chloe Moretz na dublagem estadunidense), que está entediada com os perigos “seguros” da casa em que vive. Ao mesmo tempo, uma reunião Addams ocorrerá para celebrar a Mazurca, ritual de passagem para Feioso (Finn Wolfhard).

Apesar de todas as esquisitices, o filme faz questão de ressaltar justamente o que faz dos personagens tão interessantes: o fato de que eles são apenas uma família. Eles jogam facas uns nos outros, brincam de tortura e ferimento, mas todos se divertem juntos. Na verdade, quando têm problemas, eles surgem de conflitos comuns entre parentes.

Assim, os roteiristas Matt Lieberman e Pamela Pettler fazem questão de criar contrastes entre as relações entre os Addams e a relação entre os vizinhos “normais”. Os cidadãos que vivem ao redor da mansão se escondem em redes sociais e celulares, gostam de fofocar e vigiar uns aos outros e escondem coisas rotineiras que poderiam causar vergonha se mal vistas. Enquanto os protagonistas dedicam atenção quase total ao bom convívio entre eles.

O choque é ainda maior com a proprietária dos lotes, Margaux Needler (Allison Janney), que vigia todos os lotes com câmeras escondidas, controla as notícias falsas nas redes sociais e tenta manipular a comunidade para que todos se adequem aos padrões que ela estabeleceu. É quase óbvio, mas sustenta o que faz dos Addams interessantes, a reflexão social sobre as expectativas da vida em família.

O filme também ganha muito com o trabalho de design da equipe de animação, que enche o filme com detalhes mórbidos que garantem um atrativo para que as crianças encontrem coisas novas a cada vez que assistirem de novo. Desde as tranças com forma de forca nos cabelos de Vandinha, até o cuidado com formas nos cômodos da casa, que se assemelham a caixões. Isso sem falar nas formas dos personagens, que seguem os traços originais de Charles Addams, criador dos quadrinhos.

O mesmo primor técnico, porém, não está na condução da animação. Se os diretores Craig Tiernan e Conrad Vernon demonstram carinho pelo material original, também não têm domínio sobre ritmo de cena. Como animações podem ter movimentos inumanos e permitem cenas de ação e de comédia aceleradíssimas, eles muitas vezes perdem o tempo correto para entregar piadas com frequência. Ao mesmo tempo, momentos de perigo parecem artificiais e falsos por conta de como tudo está além da realidade de como pessoas se movem.

Além disso, o recurso torna comum que o espectador se perca entre cenas. É um defeito que ocorre com frequência em estúdios de animação iniciantes, e é o que acontece aqui com um estúdio pequeno comprado pela MGM de última hora para a produção do longa. Muito disso é realçado com a dublagem brasileira. Como sempre, o trabalho dos dubladores é primoroso, mas a mixagem parece abafar sons e ruídos em situações estranhas. Um exemplo é quando a vilã usa um megafone e o som do aparelho fica mais baixo que o da voz normal da atriz.

Mesmo com defeitos tão comuns, o charme da Família Addams e o carinho dos realizadores se destaca. Não tem a qualidade técnica para ser chamado de um grande filme, ou uma grande conquista da arte, mas é suficiente para animar a criançada. E ainda tem a vantagem de reavivar personagens tão singulares e interessantes na lembrança das pessoas.

Foto: Divulgação.

Vinícius Brandão produz o site Aquela Velha Onda, parceiro da Se7e Cultura. Confira aqui a programação dos cinemas. 

O Pintassilgo (The Goldfinch – 2019)

Prêmios podem significar muita ou pouca coisa. Os críticos de cinema vão concordar, por exemplo, que o Oscar é supervalorizado. Da mesma forma que um Nobel é dado apenas para as grandes mentes que geraram mudanças significativas para o mundo. Para a literatura, o Pulitzer é algo a ser levado à sério.

Com isso, a adaptação do vencedor de 2014 que conta a história de Theo (Ansel Elgort/Oakes Fegley), chega cheia de expectativa. Ele sobrevive a um atentado terrorista no museu Metropolitan que mata a mãe. Nos escombros, resgata e leva consigo o quadro O Pintassilgo. A passagem dos anos o transforma e também a relação com a obra de arte roubada.

Ao mesmo tempo em que o Pulitzer funciona inicialmente como ferramenta de divulgação do filme, também carrega consigo a maldição da expectativa. Além dos realizadores John Crowley na direção, Peter Straughan no roteiro e Roger Deakins na fotografia com atores como Nicole Kidman, Sarah Paulson e Jeffrey Wright no elenco. É bem claro que o filme é uma aposta para a temporada de premiações.

Tanta pompa indica também uma armadilha comum nesse período do ano para alguns filmes: a presunção. A trama de superação de traumas pessoais passa por anos da vida de Theo e, em tamanha jornada, por vários episódios que não necessariamente se conectam. Mas cada um tenta levantar um debate diferente.

Então há o momento de luto e revolta com uma família parecida com a mãe, o retorno ao convívio com o pai alcoólatra, a comédia adolescente, o drama do artista que pecou contra a arte e, enfim, um misto de espionagem internacional com trama policial. Não à toa, quando o filme acabou, foi preciso de um momento de reflexão para relembrar de várias partes dos 149 minutos de projeção.

Tudo filmado lentamente, com a perfeição técnica de Deakins, mas uma falta de expressividade narrativa. É impressionante como os movimentos de câmera encontram os atores em planos bonitos sem que nada esteja milimetricamente fora de foco. Ao mesmo tempo em que é impressionante como a maioria desses mesmos enquadramentos parecem vazios de significado.

Crowley não é amador e consegue até construir rimas narrativas com a noção de mergulho e volta à superfície. Mais de uma vez, o rosto de Theo desce nas cenas para voltar a subir em outro momento da história. Mas nada disso faz com que pequenas cenas que parecem filmadas de qualquer canto do cenário deixem de incomodar.

E o diretor também sabe tirar o que precisa de seus atores. Que a Nicole Kidman é uma atriz excepcional, ninguém tem dúvida. O que chama a atenção aqui é Elgort. Sempre carismático e enérgico (vale lembrar que ele era bailarino), o ator interpreta aqui por meio da postura. São as poses de Theo que indicam os sentimentos que ele escondem por trás de um comportamento exemplar.

Certamente, O Pintassilgo não é um filme desprovido de qualidades. As boas interpretações somadas à excelência técnica ainda são um desbunde. O que incomoda, no entanto, são as escolhas de diretor e roteirista de fazer com que a história seja inchada em tempo, em tramas paralelas, e em mensagens.

Foto: Divulgação.

Vinícius Brandão produz o site Aquela Velha Onda, parceiro da Se7e Cultura. Confira aqui a programação dos cinemas. 

Projeto que inspira: cinema e inclusão social

No Centro do Rio de Janeiro, a Biblioteca Parque disponibiliza sessões de cinema diariamente para o público de forma geral. O mais interessante desse projeto é que ele atraiu pessoas em situação de rua para desfrutar dessas sessões diárias.

A biblioteca possui um acervo de mais de dois mil títulos doados por moradores da cidade e dá duas opções de títulos por dia. Em cada uma das 10 cabines cabem duas pessoas. Os frequentadores são cadastrados e recebem até uma carteirinha.

 

O Rio de Janeiro possui mais de 15 mil moradores em situação de rua e a iniciativa da Biblioteca Parque é louvável no sentido de dar perspectiva e inclusão social à essas pessoas tão marginalizadas.

 

A sétima arte possibilita que essas pessoas voltem a sonhar, estimula a criatividade e amplia os horizontes. O projeto da Biblioteca Parque do Rio de Janeiro poderia inspirar a Secretaria de Cultura do Distrito Federal. A Biblioteca Nacional de Brasília poderia ser o start desse programa que depois poderia ser implementado nas outras 25 bibliotecas públicas do DF, afinal sonho não tem limites.  

 

Parabéns aos idealizadores desse projeto que é exemplo de cidadania, inspirador e emocionante. Que mais iniciativas como essa surjam a cada dia.  

 

Michelle Maia é jornalista e editora da Se7e Cultura  

Atentado ao Hotel Taj Mahal (Hotel Mumbai - 2018)

Há algo assustador na vida real. Algo que mexe com os nervos da população e faz com que milhares, talvez milhões, corram para TVs, jornais e internet para acompanhar notícias sobre assassinatos em massa e tragédias em lugares remotos. As pessoas se reúnem e mandam energias positivas de diversas formas para sobreviventes e vítimas.

 

Na mesma pegada, filmes como este Atentado ao Hotel Taj Mahal busca elucidar momentos cruciais de tais situações, e ainda levar o espectador para dentro dos eventos. Aqui, em específico, o público é levado ao hotel na Índia no dia em que vários locais de Mumbai foram atacados por terroristas.

 

Assim como a vida real, o objetivo do diretor Anthony Maras, junto com o co-roteirista John Collee, é fazer com que o horror tome conta dos cinemas. Não para acusar os terroristas, mas para mostrar todos os lados daquele dia, enquanto os funcionários do hotel tentavam salvar a vida dos hóspedes nas longas horas em que os extremistas rondavam os corredores do prédio.

 

Então a narrativa se divide em três núcleos principais: o garçom Arjun (Dev Patel), o casal mais rico Zahra (Nazanin Boniadi) e David (Armie Hammer), e os três terroristas. A escolha é fundamental para dar voz para todos os lados da história. Os algozes, apesar de assassinos e violentos, são vítimas de um sistema de lavagem cerebral. O funcionário serve de rosto para o bom serviço do hotel, cujos trabalhadores se colocavam na linha de frente para salvar os clientes.

 

Mas o mais interessante fica com o casal, formado por um americano casado e uma muçulmana rica. O que gera momentos que comentam sobre os preconceitos relacionados a esses atentados. Por ser dos Estados Unidos, ele vira um alvo fácil, enquanto ela é dada como terrorista por outros hóspedes apenas por causa da religião. Ao mesmo tempo, é o que permite, pela primeira vez, que os extremistas percebam que aqueles que matam também são humanos.

 

Nesse jogo esperto de diálogos e contextos para levantar essas questões, Maras e Collee, tratam toda a situação como um suspense bem orquestrado. É possível acompanhar, durante toda a projeção, onde estão todos os personagens, e os perigos em cada pedaço do caminho. Isso porque todas as partes do hotel são bem detalhadas.

 

Um grupo está preso no último andar, outro no restaurante abaixo, no meio do caminho há escadas principais e de emergência, além do saguão principal. Para complementar, Maras filma tudo com um estilo documental de câmera no ombro. As imagens tremem e sempre estão na altura dos personagens, o que faz com que o espectador se sinta no ambiente.

 

Assim, o momento em que o filme apresenta um massacre no lobby quando David tenta chegar ao quarto onde o filho bebê dorme, se torne ainda mais perturbador. O local, redondo, esconde alguns espaços atrás do balcão. Os que se encolhem lá para escapar se encolhem e tremem ao ouvir tiros próximo quando alguém mais morreu. E o público está lá, junto deles.

 

Outra característica técnica do filme que merece destaque é a direção de arte. Toda a ambientação da Índia é feita com esmero, mas além disso, os equipamentos usados pelos terroristas são cheios de detalhes técnicos que enriquecem os planos deles, mesmo que eles nunca precisem dizer nada.

 

Por fim, talvez o filme peque apenas por se afastar de comentários políticos sobre o evento. Mesmo que acerte por dar voz aos terroristas e não tratar eles como um mal absoluto, fica a impressão superficial de que os valores ocidentais são superiores e devem se destacar sobre os outros.

 

Mesmo que não fosse inspirado em fatos reais, já seria uma excelente sessão para quem busca apenas um suspense que segure a tensão do começo ao fim. Ganha ainda mais pontos por não seguir a cartilha fácil de bem e mal.

Há algo assustador na vida real. Algo que mexe com os nervos da população e faz com que milhares, talvez milhões, corram para TVs, jornais e internet para acompanhar notícias sobre assassinatos em massa e tragédias em lugares remotos. As pessoas se reúnem e mandam energias positivas de diversas formas para sobreviventes e vítimas.

 

Na mesma pegada, filmes como este Atentado ao Hotel Taj Mahal busca elucidar momentos cruciais de tais situações, e ainda levar o espectador para dentro dos eventos. Aqui, em específico, o público é levado ao hotel na Índia no dia em que vários locais de Mumbai foram atacados por terroristas.

 

Assim como a vida real, o objetivo do diretor Anthony Maras, junto com o co-roteirista John Collee, é fazer com que o horror tome conta dos cinemas. Não para acusar os terroristas, mas para mostrar todos os lados daquele dia, enquanto os funcionários do hotel tentavam salvar a vida dos hóspedes nas longas horas em que os extremistas rondavam os corredores do prédio.

 

Então a narrativa se divide em três núcleos principais: o garçom Arjun (Dev Patel), o casal mais rico Zahra (Nazanin Boniadi) e David (Armie Hammer), e os três terroristas. A escolha é fundamental para dar voz para todos os lados da história. Os algozes, apesar de assassinos e violentos, são vítimas de um sistema de lavagem cerebral. O funcionário serve de rosto para o bom serviço do hotel, cujos trabalhadores se colocavam na linha de frente para salvar os clientes.

 

Mas o mais interessante fica com o casal, formado por um americano casado e uma muçulmana rica. O que gera momentos que comentam sobre os preconceitos relacionados a esses atentados. Por ser dos Estados Unidos, ele vira um alvo fácil, enquanto ela é dada como terrorista por outros hóspedes apenas por causa da religião. Ao mesmo tempo, é o que permite, pela primeira vez, que os extremistas percebam que aqueles que matam também são humanos.

 

Nesse jogo esperto de diálogos e contextos para levantar essas questões, Maras e Collee, tratam toda a situação como um suspense bem orquestrado. É possível acompanhar, durante toda a projeção, onde estão todos os personagens, e os perigos em cada pedaço do caminho. Isso porque todas as partes do hotel são bem detalhadas.

 

Um grupo está preso no último andar, outro no restaurante abaixo, no meio do caminho há escadas principais e de emergência, além do saguão principal. Para complementar, Maras filma tudo com um estilo documental de câmera no ombro. As imagens tremem e sempre estão na altura dos personagens, o que faz com que o espectador se sinta no ambiente.

 

Assim, o momento em que o filme apresenta um massacre no lobby quando David tenta chegar ao quarto onde o filho bebê dorme, se torne ainda mais perturbador. O local, redondo, esconde alguns espaços atrás do balcão. Os que se encolhem lá para escapar se encolhem e tremem ao ouvir tiros próximo quando alguém mais morreu. E o público está lá, junto deles.

 

Outra característica técnica do filme que merece destaque é a direção de arte. Toda a ambientação da Índia é feita com esmero, mas além disso, os equipamentos usados pelos terroristas são cheios de detalhes técnicos que enriquecem os planos deles, mesmo que eles nunca precisem dizer nada.

 

Por fim, talvez o filme peque apenas por se afastar de comentários políticos sobre o evento. Mesmo que acerte por dar voz aos terroristas e não tratar eles como um mal absoluto, fica a impressão superficial de que os valores ocidentais são superiores e devem se destacar sobre os outros.

 

Mesmo que não fosse inspirado em fatos reais, já seria uma excelente sessão para quem busca apenas um suspense que segure a tensão do começo ao fim. Ganha ainda mais pontos por não seguir a cartilha fácil de bem e mal.

Foto: Divulgação.

Vinícius Brandão produz o site Aquela Velha Onda, parceiro da Se7e Cultura. Confira aqui a programação dos cinemas. 

Casal Improvável (Long Shot - 2019)

O gênero das comédias românticas sofreu muito. Depois que uma fórmula especial criou as namoradinhas da América, a mistura de estilos aos poucos perdeu o nicho com o encarecimento da arte e ingressos vendidos em maior número para produções de grande orçamento, ou mais “conceituais”. É uma pena, porque em boas mãos, é possível fazer um romance engraçado e que não sirva única e exclusivamente para ser um amontoado de sentimentalismo.

Em mais uma tentativa de revigorar o sub-gênero, Casal Improvável mostra o romance entre Charlotte Field (Charlize Theron), uma secretária de estado americana que pretende iniciar uma campanha eleitoral para se tornar a primeira presidente mulher dos Estados Unidos, e o redator de discursos dela, Fred Flarsky (Seth Rogen). Numa turnê em busca de um acordo internacional, os dois passam a trabalhar juntos e, apesar dos estilos opostos, se apaixonam.

Na verdade, a premissa em si não é inovadora. Homem desleixado e inseguro se envolve com mulher poderosa e que se encaixa em todos os padrões normativos de beleza. A diferença é como os realizadores abordam esse contexto. Não é sobre uma garota apaixonada que aprende o valor de um cara de bom coração. Ambos, tanto Flarsky quanto Charlotte têm qualidades e defeitos, e a “diferença de beleza” não é um problema para nenhum deles. O problema é a situação política e de trabalho dos dois.

De fato, o filme nem sequer questiona que uma mulher admirada pela beleza e pelo talento como a Charlize Theron poderia se interessar por alguém fora de forma, com roupas, barba e cabelo desgrenhados e famoso pelo humor voltado para drogas como o Seth Rogen. Apenas aceita a verdade de que é natural que as pessoas sintam atração por qualquer tipo de corpo e de personalidade.

O grande conflito que pode separá-los durante a história é justamente essa expectativa. Por ser uma mulher política, Charlotte precisa passar certas imagens pessoais para conseguir espaço para se expressar. Precisa ter o cabelo sempre impecável, com roupas elegantes, boa forma, discurso calmo, mas confiante. De qualquer outra forma, ela será encaixada em perspectivas machistas de que mulheres são loucas, frias, feias, descuidadas, ou qualquer outra coisa que não importam em homens.

Inclusive, espera-se dela um envolvimento romântico com um tipo galã, que certamente não corresponde a Flarsky. No entanto, ele compreende o lado humano dela aparte da imagem que ela é forçada a mostrar, e permite que ela se desligue da tensão constante do cargo. Mas ela também acrescente algo a ele, ao mostrar como o redator também tem preconceitos ao ser intolerante com tudo que ele considera incorreto.

E como tanto Rogen quanto Theron são excelentes atores, além de serem ótimos improvisadores, é fácil torcer pelo romance. Especialmente quando este é apresentado de maneira tão madura por duas pessoas que claramente apreciam um ao outro e crescem juntos. Aqui e ali, porém, o filme erra em algumas representações, como o concorrente bonitão do coração de Charlotte, que passa do galante e interessante para um bobalhão convenientemente para que ele saia de cena.

O diretor Jonathan Levine acerta a mão entre o equilíbrio da comédia, que nasce de sátiras políticas e do contraste entre os dois protagonistas, e a seriedade da relação entre eles. Usa aquela típica fotografia do gênero que busca embelezar e romantizar os momentos. Mas sabe dar espaço para os protagonistas passarem de uma discussão sobre moral na neve quando Flarsky se excede e joga um computador na neve, para admirarem juntos a aurora boreal.

O balanço também funciona pela união dos roteiristas Dan Sterling, com histórico de comédias pastelões, e Liz Hannah, de filmes com tons mais políticos. Assim, acertam nos dois aspectos que esta produção requer. É fácil de rir e de torcer pelo casal, e sem ser removido pelas besteiras que romances normalmente erram em colocar nas tramas.

Foto: Divulgação.

Vinícius Brandão produz o site Aquela Velha Onda, parceiro da Se7e Cultura. Confira aqui a programação dos cinemas. 

MIB: Homens de Preto - Internacional (Men in Black: International - 2019)

A franquia Homens de Preto é guardada com muito carinho para fãs em todo o mundo. Normalmente atrelada aos atores Tommy Lee Jones e Will Smith, estrelas dos originais, é possível pensar em como diversificar a história com um mundo inteiro de agentes de alfândega interplanetários. Assim, a ideia é dar nova cara ao partir para a filial de Londres da MIB para aumentar a vida da marca nos cinemas.

É assim que a agente novata M (Tessa Thompson) estrela a nova aventura enquanto aprende os trâmites dos Homens de Preto na primeira missão. A novaiorquina é mandada para a Inglaterra e, ambiciosa, encontra uma maneira de se juntar ao herói local, H (Chris Hemsworth) em um caso diplomático. Mas um assassinato misterioso os coloca atrás de um grupo alienígena que pretende dominar o universo.

A missão deste filme é simples, fazer uma comédia de ação com elementos de ficção-científica para divertir e renovar a série milionária. É preciso mudar os atores principais, a cidade da história, mas sem perder a narrativa divertida que deu o tom da franquia e encantou pessoas e ainda garante certo charme depois de tantos anos.

Assim, caiu nas mãos de F. Gary Gray, um eficiente diretor de ação, reinventar os Homens de Preto. E ele entrega o que faz de melhor. Cenas de ação e caos bem resolvidas e dirigidas. Uma perseguição com uma moto alienígena em Marraquexe se destaca pela qualidade técnica. Os efeitos especiais são impecáveis, mas Gray faz questão de fazer com que a câmera se movimente nos closes dos atores, o que aumenta a impressão de que eles estão realmente lá, e não em uma grua em algum estúdio. Recurso de câmera simples e eficiente.

Em termos técnicos, o filme não deixa a desejar. Mas falta personalidade. Se tem algo que funcionou muito bem nos originais, é a capacidade do diretor Barry Sonnenfeld de construir uma mistura entre o bizarro de alienígenas com um charme da uma universalidade de sentimentos e dores entre todas as espécies intergaláticas. Gray não parece preocupado em trabalhar nada do tipo, apenas em reconstituir ao máximo o estilo do antecessor para manter o padrão da série.

Assim, aqui e ali usa de lentes de ângulos grandes para distorcer imagens abertas, especialmente com coisas que se movimentam do cenário para o primeiro plano. Da mesma forma, na direção de arte não tem algo próprio. Todas as armas, figurinos, cenários e até maquiagens dos alienígenas parecem quase ser uma homenagem aos filmes anteriores.

Em acréscimo a isso, a dupla de roteiristas Matt Holloway e Art Marcum criam uma trama de espionagem preguiçosa, cujas reviravoltas podem ser vistas muito antes de ocorrerem. A grande reviravolta pode ser percebida assim que os personagens relacionados entram em cena. Com uma história insossa, sobra para os atores segurarem a diversão das cenas.

Mas Thompson e Hemsworth sequer parecem levar o roteiro a sério. Ele, solto para improvisar e fazer piada em cena, parece estar brincando o tempo inteiro. Ela, por outro lado, tenta entregar uma atuação convincente. O problema de M é o roteiro que a trata como uma garota empolgada e com medo em um momento, para trocar a personalidade dela quando ela precisa se enturmar com H, por exemplo, para que os dois se tornem uma dupla.

Tudo isso somado, faz com que as cenas de ação não tenham peso, uma vez que a história não parece apresentar perigos de verdade e os personagens não criam empatia. Não dá para sentir medo por eles, assim como o filme se desenrola morosamente para o fim, em que todos os conflitos pessoais deles não são resolvidos ou aprofundados. Não se fala sobre os motivos para H ter mudado de personalidade, como todos os amigos dele repetem sem parar, nem sobre aprendizados ou questões de distanciamento de Molly. Eles apenas resolvem o problema galático e o filme acaba.

Infelizmente, Homens de Preto merece uma abordagem mais charmosa para o universo multicolorido e fantástico em que os personagens transitam. A nova abordagem nem parece interessada em fazer algo do tipo. Muito pelo contrário, Thompson e Hemsworth parecem fãs do primeiro filme que usam cosplay para fazer uma bela homenagem, mas vazia.

Foto: Divulgação.

Vinícius Brandão produz o site Aquela Velha Onda, parceiro da Se7e Cultura. Confira aqui a programação dos cinemas. 

X-Men: Fênix Negra (Dark Phoenix - 2019)

A franquia X-Men é uma das que mais divide os fãs de quadrinhos, de filmes, de super-heróis e da mistura de todas essas coisas. Desde o início, com o filme original de 2000, o público ou ama, ou odeia os filmes do grupo de mutantes. A Fox, também, foi uma das poucas produtoras a fazer séries internas e relacionadas com os personagens fora da Marvel como estúdio. E agora que ela é da Disney, este filme engavetado desde o ano passado, quando foi concluído, chega para dar adeus, ou reforçar esta versão.

 

Populares entre os humanos devido aos eventos do filme anterior, os X-Men respondem ao chamado do presidente dos Estados Unidos para salvar um grupo de astronautas da NASA em uma missão que dá errado. Durante, uma entidade cósmica assume o corpo de Jean (Sophie Turner), que redescobre traumas do passado e perde o controle. Agora o grupo se divide, enquanto a humanidade entra em pânico mais uma vez.

 

A saga da Fênix Negra nos quadrinhos é uma das mais adoradas pelos fãs dos heróis, e já ganhou uma versão (um filme horrível) para os cinemas na trilogia original dos X-Men. Depois da revisão temporal com os novos atores, o mesmo roteirista daquele filme, Simon Kinberg, volta para tentar organizar a bagunça. A intenção é dar um rumo adequado para a franquia nos cinemas depois do afastamento de Bryan Singer.

 

Porém, não é preciso olhar longe para a carreira de Kinberg para notar que ele não é um roteirista de mãos cheias. E isso se reflete no que este Fênix Negra tem de pior, a trama e os desenvolvimentos dela. Se por um lado ele sabe o que os conflitos de Jean e dos amigos dela tem de mais interessante – os traumas de uma garota com distúrbio de personalidade e as culpas que os conhecidos dão ou não a ela -, por outro, o realizador parece não saber algumas coisas básicas de narrativas.

 

Vide a ótima abertura deste filme, em que filma com eficiência o acidente de trânsito que matou os pais de Jean. É possível entender os medos e anseios da menina, e assim, simpatizar por ela quando adulta. Logo em seguida, ele apresenta a cena descrita na sinopse em que os X-Men vão para o espaço. A premissa é tão absurda que até os filmes do Deadpool, que fazem parte da franquia, parecem obras de ficção científica de apuro extremo.

 

É nesses limites em que Kinberg tramita. Entre excelentes momentos como os questionamentos morais de Hank McCoy/Fera (Nicholas Hoult) sobre vingar ou ajudar, ele coloca uma cena que não condiz com o resto do filme, como a trama paralela de alienígenas. Eles não são coerentes nem com eles mesmos durante a história. Em certo ponto, eles têm um tipo de poder. No próximo, têm outros.

 

Por isso, assistir o filme é uma experiência tão estranha. Em um momento, o que ocorre na tela pode indicar um fim ótimo. No outro, tudo desaba em defeitos inquestionáveis. E o pior é que Kinberg parece ser um excelente diretor. Ele escolhe uma abordagem visual diferente de tudo o que a franquia viu até aqui, com câmeras próximas e enquadramentos que fazem parecer que o espectador está no meio das cenas.

 

Mesmo assim, ele sabe usar a montagem para que a ação não fique confusa. Toda cena de Fênix Negra é compreensível, mesmo com câmera tremida. Combinado com os efeitos especiais e algumas imagens belíssimas compostas pelo diretor de fotografia Mauro Fiore, o resultado é um apuro técnico impressionante. Fiore garante que os rostos em close não apenas exprimam as emoções dos personagens, como contem as histórias deles nas cenas.

 

Além disso, os efeitos especiais nunca foram tão verossímeis. Aliados com o tom mais íntimo das filmagens, a ação parece mais bruta e violenta. E também aumenta os riscos de cada momento. Com isso, Fênix Negra se torna o filme dos X-Men com algumas das melhores cenas de ação entre as 12 produções lançadas até o momento.

 

Por outro lado, a direção de arte abraça totalmente a falta de coerência do diretor. Para dar o tom de ave de rapina para Jean, ele escolhe que ela esteja sempre de sobretudo. Mesmo quando as peças não fazem sentido. Coloca os vilões alienígenas sempre elegantes e com roupas de gala, como uma composição etérea que passa a sensação de falsidade. Outras coisas esquisitas aparecem nos objetos em cena, como um x que brilha com LED nas costas da cadeira de Charles Xavier (James McAvoy). Uma aberração quando se considera que a história do filme se passa em 1992.

 

Mesmo que os atores tentem entregar o melhor trabalho possível ao roteiro bipolar, as incoerências fazem com que o clímax pareça a abrupto. De repente, os conflitos entre eles, que eram tão interessantes, são deixados de lado a favor de uma trama paralela boba e que não convence desde o começo.

 

Quando termina, Fênix Negra deixa uma sensação mista. Por um lado, não entedia e até carrega até o fim com uma cadência boa entre boas cenas. Por outro, é impossível não se incomodar com as baboseiras que Kinberg coloca no meio da trama. Já foi revelado que a produção do filme foi um pesadelo, com problemas nas filmagens, entre os atores, e até com a mudança de estúdios. Mas é difícil dizer o quanto isso influenciou nos inúmeros problemas de um filme que parece ter uma estrutura e uma ideia boa por baixo de incoerências demais.

Foto: Divulgação.

Vinícius Brandão produz o site Aquela Velha Onda, parceiro da Se7e Cultura. Confira aqui a programação dos cinemas. 

Na sombra do colosso (Godzilla II: Rei dos Monstros – 2019)

Quando se fala em filmes de monstros gigantes, a grande referência que vem à mente é Godzilla. Criado em 1954, com o filme que leva o nome dele, o personagem é um dos maiores ícones da cinematografia japonesa e carrega consigo uma tradição do tipo que raramente recebe o devido respeito em países ocidentais. Até o lançamento de outro filme intitulado Godzilla em 2014.

 

Depois da destruição do Havaí, de Las Vegas e de São Francisco no filme anterior, a humanidade busca compreender as criaturas gigantes (agora chamadas de titãs), onde elas estão, como podem ser mortas, e quantas são. À frente disso tudo, está a empresa Monarch, que os investiga desde a década de 1970, e um grupo de ecoterroristas, que acreditam que os titãs são o meio natural da Terra de se curar dos humanos.

 

Assim, fica nas mãos de Michael Dougherty, diretor e roteirista da vez, de dar continuidade à história e ao estilo iniciado em 2014. Ou seja, ele tem que fazer um filme que retrate o Godzilla como uma relação da humanidade com o planeta, na tendência que o monstrengo sempre seguiu nos filmes japoneses, e ainda ser um grande espetáculo de ação e efeitos especiais.

 

O que faz a escolha do realizador compreensível. Além de um eficiente diretor de horror e ficção-científica (são de Dougherty os filmes Contos do Dia das Bruxas e Krampus: O Terror do Natal), ele sabe trabalhar com grandes produções (roteirizou filmes de super-heróis como X-men 2), e ainda é um grande fã das versões japonesas do Godzilla.

 

Por isso, ele traz para acompanhar o lagartão, os três monstros mais populares da franquia: Rodan, Ghidorah e Mothra. Além de colocar o compositor Bear McCreary para adaptar os temas clássicos do Godzilla e da Mothra para versões orquestradas que seguem o estilo épico da produção. É um festival de serviços voltados aos fãs do material original, até as fadas da ilha Infant são referenciadas no filme.

 

Ao mesmo tempo, Dougherty tem noção de que o universo dos estúdios Toho envolvem um diálogo difícil com o público americano, o que rende inúmeras piadas através do filme sobre as características mais "bizarras". Num dos melhores momentos, um personagem zomba do formato de Rodan ao compará-lo com um personagem da Vila Sésamo.

 

Na estrutura de roteiro, a narrativa segue muito do padrão do filme de 2014, com o foco no grupo de humanos que seguem as criaturas e tentam ajudá-las ou combatê-las. Os cientistas e militares da Monarch, liderados pelo casal Mark (Kyle Chandler) e Emma Russell (Vera Farmiga) e pelo doutor Serizawa (Ken Watanabe) se desesperam e buscam salvar o mundo, enquanto explicam por meio dos diálogos o que acontece em tela para o público.

 

Algumas exposições soam repetitivas e desnecessárias. Especialmente quando alguém comenta algo que os titãs acabaram de fazer em cena. Em certo ponto do clímax, um dos monstros ataca outro com brutalidade, e um personagem faz piada dizendo que ele foi sobrecarregado. O humor das falas quase nunca faz rir e descaracteriza cientistas que deveriam levar as coisas mais a sério.

 

A pior parte fica quase sempre por parte do personagem Mark. Por ser o protagonista humano do filme, sempre percebe as coisas antes dos outros e parece mais inteligente e eficaz até que os militares. É uma daquelas tentativas de fazer uma pessoa parecer mais sagaz ao fazer com que todo mundo ao redor ser mais lento (o que é absurdo em um contextos de cientistas).

 

Na filmagem, Dougherty também segue parte da estética do filme anterior. Com foco nos humanos na ação, as imagens dos monstros gigantes são feitas de planos na altura das pessoas em cena. À medida em que as sequências abrem mãos dos personagens menores para seguir as lutas dos titãs, a câmera abre e fica em níveis mais altos, para assumir os pontos de vista dos bichões. Desse estilo, se destacam dois planos longos em que personagens humanos correm no meio das brigas dos monstros a câmera os segue enquanto os cenários digitais se destroem ao redor.

 

Para a iluminação, o diretor aproveita a bioluminescência dos gigantes para criar padrões de cores que ditam quem são os heróis e os vilões. Quando algo está errado, ou há intenções de destruição, tons quentes como o vermelho e o laranja ditam as cenas. Para os monstros do bem, em especial Godzilla e Mothra, as cores azuis tomam a tela.

 

É um espetáculo para agradar os fãs originais e apresentar as criaturas para novas audiências. Há beleza de sobra nos enquadramentos, nos designs, e até nas batalhas de larga escala. No entanto, é possível que Godzilla e o estilo japonês do monstro seja mais lento para públicos ocidentais. Especialmente porque Dougherty aproveita a produção para discutir a relação entre humanos e o planeta.

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Shazam! (2019)

Billy Batson (Asher Angel) é um órfão de 14 anos que vive à procura insaciável de sua mãe biológica. As atitudes do personagem ao longo da vida sempre foram egoístas e interessadas apenas na missão que ele mesmo se impôs.

 

Fugir das famílias que sempre o tentaram adotar virou hobbie, por acreditar que sua mãe também estaria do outro lado à procura dele depois de, acidentalmente, tê-lo perdido num parque de diversões quando mais novo.

 

Sem se encaixar definitivamente no perfil que um mago misterioso (Djimon Hounsou) buscava para ganhar os poderes mágicos, Billy se torna o escolhido e encarna o herói Shazam (Zachary Levi) todas as vezes que grita seu nome.

 

O universo cinematográfico da DC Comics já foi muito conhecido por ter um tom mais sombrio nos enredos comparado à Marvel Comics. Entretanto, desde o filme da Liga da Justiça, vemos uma mistura maior entre o sombrio e o cômico, e até de maneiras sutis e mais bem encaixadas do que a concorrente.

 

Tal feito retorna em Shazam! O longa consegue ter uma trama mais séria, mesmo nas entrelinhas, do que na expectativa do escritor desta crítica! (baseado no que vimos nos trailers). Tudo aqui se trata da descoberta da responsabilidade existente em relação a um “dom” cedido ao protagonista.

 

O modo imprudente e cômico presente na maneira de encarar a nova realidade de Billy somado ao constante peso na consciência que ele carrega ao fazer um ato passível de julgamento, enriquece demais os momentos vividos na pele de Shazam. Seja quando o personagem não vai a um encontro marcado com seu amigo, sem ter obrigação nenhuma de ir, mas que ajudaria o colega. Como quando, antes de se tornar o herói, se arrepende quase instantaneamente de não retribuir o carinho da nova irmã.

 

Tudo é construído de maneira a crer que, mesmo que Billy não fosse a pessoa mais indicada para aquela jornada, de fato, ele carrega consigo a sinceridade. O que é colocado no filme como, talvez, a maior dádiva que um ser humano pode ter. Evidenciado na cena que o mago passa os poderes ao garoto.

Mas claro, nem tudo parece ter sido tão bem calculado. A DC tem nas mãos a possibilidade de ver onde a Marvel mais cometeu seus erros e mudar. Parece não ser de interesse do estúdio. A explicação dada do porquê a “representação de vilão” pode ser tão preocupante para o mundo é patética. Sem peso.

 

É algo tão superficial que se contado em uma crítica não será spoiler. No passado, quando o “vilão” foi solto ou surgiu, trouxe muitas desgraças a terra. Então você quer me dizer que o nazismo, talvez, um dos maiores maus que já estiveram presentes no planeta se deu por conta daquele vilão apresentado?

 

E, mesmo que a resposta seja sim, os seres humanos conhecem muito bem o vilão do filme. Pode acreditar no que digo aqui. Não me parece que ele esteja muito aprisionado como mostrado.

 

A motivação para existir um Shazam é colocada em segundo plano. Traz consigo uma história de origem de herói péssima, mas uma história de descoberta e transformação de um ser humano bem legal de se assistir. Por conta das grandes metáforas expostas com o mundo real e banal, como por mostrar a maneira mais provável que uma pessoa com falhas reagiria ao receber uma grande responsabilidade que mais parece uma diversão.

 

Em relação ao elenco, pode-se gerar uma certa estranheza ao vermos o herói, versão adulta de Billy, nas primeiras vezes. Mas, entende-se rapidamente que se trata quase que um corpo de adulto e uma mente de um adolescente. Elemento que justifica muito do humor empregado em algumas situações.

 

Shazam! Não traz inovações na história. Acerta na transformação de nosso protagonista e comete o erro, que já é corriqueiro demais de origem superficial do herói. Muito provavelmente porque o estúdio pensa em abordar isso em outros filmes de todo o universo. Até como forma de união narrativa.

 

Todavia, precisamos de um resgate a um pensamento, perdido ao longo do tempo, de construir uma trama mais independente de universo. Embora sabemos que exista um universo por trás. Os X-mens dos anos 2000 e os filmes do Homem-aranha de Sam Raimi faziam isso muito bem.

 

E, mesmo assim, existiam ganchos em elementos presentes na jornada do herói, vilão ou algum personagem específico para futuras continuações.

Foto: Divulgação.

João Victor Bachilli escreve para o site Aquela Velha Onda, parceiro da Se7e Cultura. Confira aqui a programação dos cinemas. 

Duas Rainhas (Mary Queen of Scots – 2018)

Com a cerimônia do Oscar, acaba a temporada de premiações. E junto com ela, chegam os filmes que foram esnobados nas categorias, mas que claramente foram feitos para concorrer, como este Duas Rainhas. Certamente, não se trata da primeira leitura cinematográfica sobre a rainha escocesa, Maria Stuart (Saoirse Ronan, uma atriz que nunca decepciona), que conseguiu sobreviver à coroa britânica num jogo de poder que durou décadas. Talvez seja a primeira comandada por uma mulher.

A diretora Josie Rourke, junto com o roteirista Beau Willimon, busca a história da rainha desde o momento em que ela voltou da França com 18 anos depois de um casamento arranjado feito para que o irmão pudesse governar, até o exílio forçado na Inglaterra após vários golpes de estado para destituí-la.

Em meio a inúmeras reviravoltas políticas, os realizadores demonstram interesse, em particular, na relação dela com a rainha inglesa Isabel I (Margot Robbie, surpreende com tamanha austeridade e vulnerabilidade). A escolha é fundamental porque as duas, devido às posições políticas, seriam inimigas, mas são forçadas a criar uma espécie de sororidade diante do contexto patriarcal virulento em que ambas vivem.

Essa talvez seja a parte mais interessante do texto adaptado de livro do autor John Guy. Cada personagem com algum nível de poder no filme tem um interesse pessoal, o que faz com que apenas as duas sejam as mulheres que façam parte das tramas palacianas. Isso porque apenas rainhas teriam poder sobre homens. E mesmo assim, observadas avidamente pelos que as cercam.

Assim, cada fala ou decisão dos personagens envolve algum tipo de tramoia para conseguir algum objetivo secundário. Às vezes, por meio de casamentos, por gravidez planejada, pela abertura a diálogos com representantes de religiões e, no caso das duas, por sentimentalismo.

É onde entra a parte que talvez seja a mais incômoda do filme. Tanto Maria, quanto Isabel I, vivem pelas regras da sociedade machista em que nasceram, e por isso parece haver uma representação de que apenas elas têm sentimentos. Enquanto os homens ao redor são brutamontes que não se apaixonam ou sentem algo. Com exceção dos dois homossexuais que aparecem no enredo.

As duas personagens escolhem métodos diferentes para lidar com a política ao redor. Maria se permite ser “feminina”, o que o roteiro parece querer usar como paralelo com o fato de que ela podia engravidar, enquanto a outra era infértil. Por isso, Isabel I escolhe ser como um homem. Fria, distante e sempre escondida por uma máscara de maquiagem. O que conduz para os finais das duas.

Para isso, Rourke usa toda a técnica para contrastar o mundo de ambas. Isabel I vive em uma Inglaterra fria e dentro de muros, distante das cores da natureza, sempre com roupas e adornos que parecem esconder a pessoa. Enquanto Maria é rodeada por cores quentes na luz, e com maior saturação nos vestidos. Ela também é vista constantemente em situações mais banais e descontraídas, com as amas e amigas.

Em uma cena em particular, quando Maria tem o primeiro filho, os enquadramentos espelham os tecidos sujos de sangue nas pernas dela, enquanto Isabel I tem apenas costuras elaboradas de vermelho. Um reflexo de que ela inveja as capacidades naturais da colega e parente.

Duas Rainhas é um filme curiosamente feminista, de escrita ferina, em que cada diálogo esconde dualidades complexas. Por isso mesmo, é divertido ver os jogos políticos e a sagacidade dos personagens. Infelizmente, se alonga demais próximo do terceiro ato, e perde a oportunidade de construir antagonistas mais interessantes para as duas mulheres fortes que lideram a produção.

Foto: Divulgação.

 

Vinícius Brandão é autor do site Aquela Velha Onda e parceiro da Se7e Cultura. Confira aqui a programação dos cinemas. 

Capitã Marvel (Captain Marvel - 2019)

Em certo ponto de Capitã Marvel, a nova heroína da empresa que carrega o mesmo título que ela alça voo e é observada por uma menina inspirada pela força e poder daquela mulher. Sim, esse é mais um filme de super-herói que demonstra representatividade. Mas ele não é panfletário, como a maioria tentaria ser.

Não é preciso fazer muito esforço para fazer com que a história da guerreira da espécie alienígena Kree chamada Vers (Brie Larson) se encaixe como representativa. Ela é apenas a segunda mulher protagonista de um filme de super-heróis desde o início desse universo da Marvel em 2008 (o outro é da concorrente Warner/DC). E os realizadores, cientes disso, fazem a história ser sobre isso, sem ser evocativa demais.

Porque Vers, aos poucos, descobre ser Carol Danvers, piloto de caças da força aérea americana que foi levada ao espaço sideral para ser treinada como Kree. Como não tem lembrança disso, não sabe o que é a personalidade própria. Ela é a humana que não lembra ser, ou a guerreira interplanetária?

É um clichê antigo, mas aqui serve a essa dualidade. Ela é super pelo lado extraterreno, mas tem resiliência incomum por ser humana. Mais do que isso, até. Por ser uma mulher em uma sociedade machista. Mas a produção não precisa explicar nada disso. É óbvio.

Então, quando ela aparece como parceira e amiga de Maria Rambeau (Lashana Lynch), é possível ver pelos diálogos trocas divertidas de uma amizade antiga. Além disso, pequenos apoios de uma para a outra quando o mundo parece conspirar contra elas. Muita coisa é dita com pouco. Justamente por isso, o discurso não atrapalha o ritmo e a mensagem principal. Na verdade, engrandece a ambos.

Outra coisa que realça isso é a escolha de Brie Larson para viver Danvers. A atriz, que começou a carreira com papeis mais debochados (vide a excelente participação em Scott Pilgrim contra o Mundo), consegue transitar da comédia obrigatória da Marvel para a grandiosidade de uma personagem que precisa se impor contra as adversidades e se erguer heroína.

O humor, mais uma vez, tem foco nas situações estranhas que surgem do lado fantástico da história, como quase todas as trocas sobre o gato Goose ser ou não um monstro alienígena, ou uma série de piadas sobre um cientista que não pensou em certas coordenadas espaciais.

A Marvel também se garante no espetáculo. Os efeitos entram em cena para fazer com que o uso de poderes sirva para o visual. O que funciona especialmente com a Capitã Marvel, cujas habilidades envolvem rajadas de brilho e de energia. Um dos destaques inquestionáveis é o rejuvenescimento de atores em diversos filmes do estúdio. Aqui é a vez de Samuel L. Jackson como um jovem Nick Fury.

Assim, se apresenta um roteiro que usa da estrutura para contar a história da personagem, criar características de empoderamento feminino sem que isso roube a trama principal, e que ainda é divertido por meio de comédia, de ação e de efeitos visuais. O que prende o espectador do começo ao fim.

Incomoda apenas a necessidade constante do roteiro de criar reviravoltas em sequência durante a trama principal. Ocorrem, pelo menos, umas três mudanças de índole de personagens. O que é confuso e rapidamente faz com que o espectador até deixe de se importar com aqueles em que deveria depositar as preocupações. Mas nem isso ofusca a boa qualidade geral da produção.

Foto: Divulgação.

 

Vinícius Brandão é autor do site Aquela Velha Onda e novo parceiro da Se7e Cultura. Confira aqui a programação dos cinemas. 

Chefs criam menus exclusivos para festival gastronômico

Experimentar o que há de melhor nos restaurantes mais badalados de Brasília a preços que cabem no seu bolso é uma ideia possível e uma oportunidade imperdível. Até o dia 3 de março, Santé 13, Taypá, Nikkei, Villa Tevere, Authoral e outros seis ótimos restaurantes participam do Festival Boa Mesa (confira a relação completa em @festivalboamesabrasilia).

Eu fui conferir o delicioso menu preparado pelo Villa Tevere para o festival e posso dizer que foi um enorme prazer. Como entrada do Menu JK, um salteado de vieras e linguiça de pernil com melado e purê de batata doce. Como prato principal, um risoto negro de filé de camarão, alho porró e lagostins fritos e para completar o menu uma sobremesa de creme de Amarula com laranjas confitadas de comer rezando.

Cada restaurante participante criou menus com entrada, prato principal e sobremesa com nomes que fazem alusão à cidade. O contemporâneo Santé 13, por exemplo, estará com dois menus durante o festival, o Tesourinha R$ 69,00 e o Catedral R$ 92, sempre no horário do almoço. O premiado Taypá apostou no menu JK de R$ 115. Já o Nikkei entrou com o Menu Catedral (R$ 92,00) no almoço e jantar. 

 

O festival é uma ótima dica para quem valoriza os prazeres da boa mesa e tem curiosidade de experimentar pratos criados por chefs renomados da cidade.

Michelle Maia é jornalista e editora da Se7e Cultura

O Peso do Passado (Destroyer – 2018)

Na correria das premiações de começo de ano, alguns filmes ficam de escanteio nas categorias principais, mas chamam a atenção em coisas específicas. É o caso deste O Peso do Passado, que rendeu muitos elogios e apostas para a interpretação da Nicole Kidman. Mas, é só um filme de personagem?

A protagonista, Erin (Kidman), é uma policial alcoólatra e decadente que recebe uma mensagem de Silas, um inimigo pessoal do passado. A partir disso, ela parte em busca do criminoso sem ligar para regras ou para a possibilidade de ser presa. Ao mesmo tempo, relembra aos poucos de quando se infiltrou na gangue do bandido 16 anos antes com Chris (Sebastian Stan), um agente do FBI.

As duas tramas paralelas conduzem, sempre sob a perspectiva da detetive, até as grandes revelações finais. O que faz com que o filme se encaixa claramente no gênero policial, mas o todo fala sobre a personagem, na verdade. É um estudo sobre as motivações e as ações dela nas duas condições da vida.

E é onde a diretora Karyn Kusama acerta inicialmente ao colocar Kidman como Erin. A personagem é um reboco de gente destruída pelo tempo e por si mesma. Ela manca em todas as cenas e parece estar entre duas realidades: a dos momentos que vive, e da embriaguez. E a atriz se despe de qualquer vaidade para demonstrar isso.

Em certa cena, ela deixa claro que não se importa com as consequências de matar alguém porque não faz diferença se vai sobreviver ou não. E é possível ver esse desprezo pessoal no olhar e no comportamento cuidadosamente planejado pela atriz. O que é reforçado pela extraordinária maquiagem, que a faz parecer muito mais velha em uma trama do que na outra.

Kusama também acerta ao usar a montagem e os estilos de filmagem para simular a passagem de tempo como a perspectiva de alguém embriagado. A diretora faz com que cenas comecem com a tela tomada pela cor da pele de Kidman para depois revelar que a cena é subjetiva e mostra o despertar dela depois de desmaiar no carro.

Essa sensação de lerdeza e de crueza permeia a obra e condiz com o que Kusama e os roteiristas Phil Hay e Matt Manfredi querem passar por meio da história. Uma jornada dentro do mundo podre e doentio de Erin depois de ter cruzado caminhos com o doentio e deturpado Silas (Toby Kebbell). Como isso a destruiu, e ela destruiu tudo o que conhecia a partir disso. Ninguém é bom ou mau, apenas pessoas que querem se cuidar e atingir seus objetivos pessoais.

Trata-se de um filme sujo, pesado, violento. Mas isso é importante, pois a vida de Erin e o mergulho que ela faz dentro de si, do passado, e dos erros, é tão feio quanto. Daquelas produções que deixam os espectadores com sensações ruins ao sair do cinema, mas pelos motivos certos.


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Vinícius Brandão é autor do site Aquela Velha Onda e novo parceiro da Se7e Cultura. Confira aqui a programação dos cinemas. 

Como Treinar o Seu Dragão 3 (How to Train Your Dragon: The Hidden World – 2019)

Quando a franquia Como Treinar o Seu Dragão teve início em 2010, tomou o mundo de surpresa como todas as características do filme são encantadoras. Desde as relações entre todos os personagens, passando pelos próprios, e chegando até a mensagem de quebra de padrões e estereótipos. Não à toa, este terceiro e último filme chega cheio de expectativas.

Um ano após Soluço (voz de Jay Baruchel) e Banguela se tornarem os líderes de Berk e dos dragões respectivamente, eles descobrem que uniões de vikings nas proximidades continuam a caça pelos animais para formar um exército.

O melhor caçador deles, Grimmel (voz de F. Murray Abraham) quer caçar o último fúria da noite e inicia os ataques à aldeia pacífica. Isso tudo enquanto o dragão descobre uma fêmea por quem se apaixona, e o humano precisa lidar com a superlotação dos bichos na vila.

Como se trata do terceiro capítulo de uma trilogia planejada para terminar neste filme, Como Treinar o Seu Dragão mantém todas as características técnicas e temáticas que tornaram os dois anteriores tão apaixonantes.

O diretor e roteirista Dean DeBlois retorna para fechar a história com a mesma estrutura narrativa. Berk e a vida da dupla de protagonista é apresentada, assim como o conflito principal. Um mistério é revelado aos poucos até que as coisas chegam ao pior momento, quando Soluço é apoiado pelas figuras femininas na vida dele para encontrar as possíveis soluções.

Chega a ser previsível por ser a terceira vez que a fórmula se repete, mas o que DuBlois faz com a soma dos três filmes e com o protocolo é impressionante. Ele usa a estrutura para fechar um ciclo completo sobre guerra, paz, liderança, união, masculinidade tóxica, humanidade e muitos outros conceitos fortes.

Apesar de terem histórias fechadas em si, os três filmes são uma história conjunta sobre paz. O primeiro é sobre a quebra de estruturas sociais para alcançá-la, o segundo, sobre situações em que ela é impossível, e este, sobre os sacrifícios necessários para a mesma. É algo muito parecido com o que outra trilogia da Dreamworks Animations fez antes, Kung-Fu Panda.

DeBlois também mantém a inventividade de continuar a aumentar o universo dos dragões com ainda mais características envolventes a serem descobertas sobre os bichos fantásticos. Desde os comportamentos até as origens. O que é reforçado pelo extraordinário da equipe de design de artes de sete pessoas.

O universo é belo pelos detalhes que contam a história. Desde as escamas de dragão usadas pelos residentes de Berk para fazer as armaduras, até as diferentes espécies dos répteis, que variam e misturam diferentes tipos de animais reais. Aqui é mostrada uma nova que tem características de escorpiões.

Essa riqueza de visuais, capturada pelo chefe de layouts Gil Zimmerman e com assessoria do diretor de fotografia Roger Deakins resulta em enquadramentos de grande beleza que contam a história ao mesmo tempo. A iluminação joga sombras para indicar as vontades e os segredos dos personagens em cena. Um dos destaques é o primeiro encontro de Soluço com o vilão no filme, tomado por um cenário em chamas que esconde ou revela os rostos deles quando é necessário.

Sem contar, é claro, com a qualidade técnica do estúdio de animação. Certa panorâmica sobre uma catarata parece realmente uma imagem filmada de helicóptero sobre uma queda d’água. Os líquidos, tecidos, peles e escamas parecem de verdade, e não um monte de zeros e uns.

O compositor John Powell também retorna para dar continuidade aos temas da série que se tornaram tão popular desde o primeiro filme. A melodia de escala épica criada por Powell mantém o tom carinhoso e grandioso dos anteriores.

Ao término da sessão, será fácil ouvir fungadas na sala de cinema. Fazer chorar por si só não é sinal de qualidade para um filme, mas o como e o por quê do choro. E Como Treinar o Seu Dragão 3 traz mais do que fez com que os anteriores funcionassem tão bem, uma história carregada de carinho e qualidade. O choro é quase tanto pelo fim da série, quanto pelo que ocorre neste final.


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A Esposa (The Wife – 2018)

Após ser chamada de Jean, Joan Castleman (Glenn Close) apenas rebate: “Não se preocupe. Não tem importância.” A resposta dada em prontidão reflete toda a vida da protagonista no casamento com Joe (Jonathan Pryce). Elegante, educada, quase uma secretária do marido, e apagada. Não é apenas uma esposa troféu, mas retrato do que uma sociedade voltada para o patriarcado faz com as mulheres.

Ele foi chamado para receber o prêmio Nobel de literatura na Suécia. Na viagem, são acompanhados pelo filho David (Max Irons) e seguidos pelo autor de biografias Nathaniel Bone (Christian Slater). O grupo e a situação levantarão os fantasmas das vidas passadas dos Castleman.

Logo no início, há um incômodo crescente na relação apresentada pelo diretor Björn Runge quando o casal recebe a notícia da nomeação. A vida dos dois é mostrada com naturalidade, como pessoas normais, mas é possível ver nas reações dela a todas as animosidades dele uma tristeza contida.

Em todas as cenas, o diretor e a roteirista Jane Anderson criam momentos em que Joan precisa esconder uma angústia por ser apenas a esposa de um grande romancista, o que pode ser bastante repetitivo. Quando o foco não é essa construção, é o desvendar do passado dos dois. Cinquenta anos antes, Joan era uma ambiciosa aluna de Joe.

Passado e futuro são mostrados em paralelo até chegar ao final do filme, quando as duas linhas narrativas revelam parte do que os realizadores querem refletir. Joan suporta vários abusos por parte de Joe através da vida, mas ela também compreende as dores e motivações dele. E o ama acima de tudo isso.

A condução é quase teatral, uma vez que a história se desenrola por meio dos diálogos dos personagens em ambientes fechados. E Runge faz com que câmeras estáticas reforcem a sensação. No entanto, é na direção de arte e em pequenas alegorias que ele usa a linguagem cinematográfica para contar a história.

Os cenários e figurinos são tomados das cores vermelhas e azuis, com uso do vermelho quando as relações entre as pessoas são de aproximação. O azul toma o ambiente quando há distanciamento. Em ocasiões, as tonalidades dividem os enquadramentos e separam os personagens na tela.

A melhor alegoria do filme se encontra com um poema recitado por Joe inúmeras vezes no decorrer da história. Ele narra a tristeza e o valor da vida com a noção da queda da neve. O fenômeno natural, no fim do filme, será um reflexo da vida dele com Joan.

Close e Pryce protagonizam diálogos inteligentes em cena. Nas trocas, eles se amam e têm problemas ao mesmo tempo, como em todos os relacionamentos reais. Ela, no entanto, rouba todas as cenas em que aparece por esconder o desconforto constante da personagem com rápidas torcidas nos lábios e leves giros de cabeça. É possível ver o cérebro da personagem por trás de cada fala, e é mérito da atriz.

 

Um conto sagaz e atual sobre relacionamentos, sobre como o machismo poda mulheres na sociedade, e sobre uma personagem poderosa, mas forçada a esconder tanta força por trás de um papel social.


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Assunto de Família (Manbiki Kazoku – 2018)

Assunto de Família chega aos cinemas repleto de expectativas, com o prêmio da Palma de Ouro do festival de Cannes de 2018 e a indicação de filme estrangeiro para o Oscar. Além de ser o novo longa do diretor veterano Kore-Eda Hirokazu, que gosta de retratar
problemas das diferenças sociais através de relações familiares.

Aqui, ele acompanha um grupo de indigentes que divide um lote em Tóquio. Um dia, encontram Juri (Miyu Sasaki), uma menina com fome em uma varanda de uma casa, e a levam para o local em que vivem. Quando a levam de volta para os pais, descobrem que
eles a detestam, batem nela e brigam constantemente entre si. Então decidem ficar com ela.

O ato é discutido rapidamente entre o casal principal, Osamu (Lily Franky) e Nobuyo (Ando Sakura). Eles acreditam que não se trata de um sequestro por não terem pedido resgate. Essa ignorância por trás do crime revela as inúmeras irregularidades escondidas por aquelas pessoas naquela casa.

As crianças não vão para a escola e nem recebem qualquer tipo de educação formal. A renda é dividida entre roubos ensinados por Osamu para os menores, por uma pensão da idosa proprietária do lote, por um emprego que explora o corpo da neta dela, e por
pequenas chantagens aqui e ali.

No entanto, a educação emocional é de primeira qualidade. A “família” ensina à menina que amor é demonstrado por carinho, e não por castigos físicos. Ela chegou a sofrer queimaduras por parte dos pais verdadeiros.

É nesse contraste entre as relações humanas calorosas e próximas com as expectativas sociais de status e cuidados que o filme analisa os diferentes tipos de responsabilidades de cidadãos e quais são as mais punidas. E é onde o estilo de Hirokazu mais se adequa à narrativa.

Ele é um diretor que segue uma noção de naturalidade máxima nos filmes, com luzes que buscam verossimilhança e câmeras estáticas em cantos dos cenários. É como se o espectador espionasse os momentos íntimos dessas pessoas. No roteiro, Horikazu faz
com que as interações deles sejam de pessoas que se conhecem bem o suficiente para se provocarem quando falam a sério entre si. Tudo com carinho.

Um dos melhores momentos é quando Osamu e Nobuyo ficam sozinhos em casa e aproveitam o tempo para fazer sexo. Nus, discutem a possibilidade de uma segunda transa enquanto brincam com a noção de ele a ter feito gozar ou não. O que só funciona
graças ao despreendimento dos atores, que brincam entre si como se fossem conhecidos antigos.

Aos mesmo tempo, eles revelam as necessidades de carinho de cada personagem. O que leva a uma cena belíssima em que a neta busca intimidade com um dos clientes que a visitam com frequência porque não tem contato com ninguém em casa.

Em especial, as crianças revelam bem este equilíbrio. Mais uma demonstração do trabalho de direção de atores de Horikazu, que sempre arranca boas interpretações de menores em seus filmes.

Trata-se de um belo e delicado filme, que mostra pequenos desequilíbrios familiares com naturalidade. O que os torna mais potentes quando colocados em choque. No entanto, o diretor faz com que a duração da produção se alongue mais do que o necessário, o que causa algum cansaço. Nada que comprometa a qualidade.

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Lembranças de Waterworld (Máquinas Mortais – 2018)

Dizem as más línguas que o George Lucas zombou da adaptação de O Senhor dos Anéis do Peter Jackson ao dizer que apenas a empresa de efeitos especiais Industrial, Lights & Magic, dele, seria capaz de fazer os filmes. Jackson ficou em silêncio e respondeu apenas com os sucessos da trilogia nos anos seguintes. Por alguma ironia, hoje ele está em uma situação muito semelhante à de Lucas.

É a sensação com o lançamento deste Máquinas Mortais, em que cidades e prédios se locomovem com rodas enormes pelo mundo devastado após uma guerra apocalíptica. O que restou de Londres aborda pequenas construções para aderir cidadãos e recursos. Nessas condições, uma desconhecida mascarada chamada Hester Shaw (Hera Hilmar) tenta matar Thaddeus Valentine (Hugo Weaving), um dos líderes londrinos.

Quando ela é impedida pelo londrino bem intencionado Tom Natsworthy (Robert Sheehan), os dois são expulsos da cidade e precisam dar um jeito de voltar e atrapalhar a construção de algum tipo de invenção de Valentine. A sinopse é muito mais complexa do que a estrutura da produção, que não pretende ser mais que uma fantasia de aventura cheia de efeitos especiais e ação espetaculosa.

Chega a ser surpreendente o quanto a estrutura deste filme é redonda e fechada em si, quando se leva em consideração que é uma adaptação de uma franquia de livros com várias sequências. Todas as histórias de todos os personagens, assim como os conflitos e problemas são fechados antes do fim da projeção.

Por outro lado, o trio de roteiristas Fran Walsh, Philippa Boyens e Peter Jackson é também parte do que mais remove o espectador do filme no decorrer dele. Apesar de construírem enredos e narrativas fechadas para cada personagem, eles fazem com que os contextos do universo em que a história acontece seja cheio de buracos.

Logo no começo, dois personagens discutem uma guerra entre as cidades móveis e uma nação que decidiu se manter estável. Em certo ponto, alguém comenta: “Eu sou contra pessoas que impedem o progresso.” Mas não é explicado em nenhum momento do filme porque fazer com que as cidades se movimentem é útil.

Na verdade, é contraprodutivo. Por não estarem paradas em um lugar, elas não têm produção própria de matéria-prima, o que as força a predar outros edifícios e comércios. Essa mesma incoerência eventualmente se encontra na trama principal do filme, como a motivação de Valentine. Quando chega ao clímax, é possível ver todos os defeitos no plano grandioso dele.

Mas nada disso importa, porque o diretor de primeira viagem Christian Rivers não quer necessariamente fazer um filme sem falhas, mas duas horas que passam rápido e divertem. É onde o melhor dos efeitos especiais dos estúdios Weta entra em cena. A grandiosidade de uma metrópole em movimento é traduzida para a tela com verossimilhança. O que, por si só, é um espetáculo.

Para isso, ele mistura estéticas steampunk com art deco. Com isso cria uma noção de invenções futuristas com base em tecnologias ultrapassadas. Assim, os cenários ficam repletos de detalhes curiosos e interessantes sobre aquele mundo, ao mesmo tempo em que possuem uma beleza típica do início do século XX.

Para engrandecer ainda mais os cenários, Rivers usa lentes abertas, que chegam a distorcer os ambientes para pegar a maior parte deles. O que funciona, mas não é suficiente para contar a história. Ele concentra mais em closes nos atores para deixar que as interpretações deles façam com que a narrativa se desenvolva.

Mas como ele não tem muita experiência com a parte de pós-produção, parece que ele esquece de filmar imagens de ambientação. Não é incomum os personagens reagirem a uma explosão e o corte mostrar uma construção que desaba. Assim, parece que algo foi perdido na montagem.

Pelo menos os atores sustentam os dramas. E como os roteiristas se deram ao trabalho de dar até aos coadjuvantes conflitos interessantes, os intérpretes têm a oportunidade de prender a atenção. Pelo menos os melhores deles, como Weaving, capaz de engrandecer e de dar humanidade até ao vilão mais estereotipado, como Valentine.

Tanto que os veteranos do elenco engolem os protagonistas desconhecidos. São todos jovens e belos, mas inexpressivos. E não ajuda o fato de que eles são os que têm menos personalidade e conflitos interessantes. A heroína, Hester, é forte e decidida até ficar confusa e se colocar constantemente em perigo para que alguém a salve.

O que salva aqui é o objetivo principal: espetáculo. Máquinas Mortais é cheio de detalhes sobre um mundo interessante e rico em contextos que despertam curiosidade. Mas não consegue deixar de ser um fábula sem originalidade e coerência. E efeitos especiais já não impressionam como antigamente. Ainda é uma sessão divertida de ação e visuais bonitos.

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Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: IntotheSpiderverse – 2018)

Quando o Stan Lee morreu, muitos exaltaram os heróis que ele criou. O mais famoso deles provavelmente é o Homem-Aranha. O que pouco se falou, porém, é a razão para o sucesso desses personagens. O que faz com que o cabeça de teia seja um dos mais populares da cultura popular? E é exatamente ao fazer a pergunta que esta animação acerta.

Desta vez, quem a história acompanha não é Peter Parker (voz de Chris Pine), mas o adolescente Miles Morales (voz de Shameik Moore). Ele foi picado por uma aranha e adquire os mesmo poderes do Homem-Aranha. Sem saber o que fazer, recebe ajuda de Peter B. Parker (voz de Jake Johnson) e de Gwen Stacy (voz de HaileeSteinfeld), homens-aranhas levados até lá de outras dimensões.

É uma confusão porque pega justamente um dos ciclos de histórias mais estranhos do herói nos quadrinhos, o tal aranhaverso. Poderia dar muito errado com vários protagonistas e tramas sobre múltiplas dimensões, mas o foco aqui é Morales e a jornada dele para entender o que significa ser Homem-Aranha.

Cada um deles tem sua história pessoal trágica, Peter B. Parker envelheceu e perdeu as pessoas que mais ama. Gwen perdeu o melhor amigo. Outras três versões populares dos quadrinhos aparecem, mas servem mais como alívio cômico que como personagens com conflitos. Mesmo assim, as histórias desse sexteto aracnídeo são apenas um fundo para a de Morales.

Tantos personagens geram alguma confusão e fazem com que o roteiro seja difícil de acompanhar. Especialmente quando se leva em consideração o fato de que é um filme de super-heróis em animação, o que deve levar muitas crianças para o cinema. Não será surpreendente se os menores acharem a trama complicada.

Homem-Aranha é mais que uma pessoa que anda pelas paredes e solta teia pelos pulsos, é a motivação para um indivíduo colocar a vida em risco. É o que faz com que o título seja tão grande e popular. E é o que os roteirista Phil Lord e Rodney Rothman entendem muito bem. Morales não é um Homem-Aranha, mas sabe que tem a responsabilidade de assumir o título.

O protagonista, inclusive, dita a estética do filme. Morales é um garoto negro de Nova Iorque. Então o filme imprime as cores e estilos urbanos não apenas na cidade, mas nos cortes e nos efeitos. Com a liberdade dada pela animação tridimensional, o trio de diretores Bob Persichetti, Peter Ramsey e o próprio Rothman coloca balões, onomatopeias e textos na tela para passar a linguagem dos quadrinhos.

Porém, eles criaram uma nova tecnologia para reforçar o visual. Quanto mais desfocados, mais os objetos têm deformidade de cores como em gibis com problemas de impressão. As variações nas tonalidades incluem pontos, como nas histórias em quadrinhos. Além disso, a quantidade de quadros por segundo contam com pequenas quebras que dão a noção de passagem dos quadrados da nona arte.

No meio dessas quebras e dos títulos, os diretores incluem detalhes de pichações e grafite, para dar o tom de Morales à história. Além disso, a trilha sonora orquestrada composta por Daniel Pemberton mistura toques eletrônicos e hip-hop.

O resultado alcança o ápice no momento em que Miles aprende o que deve ser capaz de fazer. Instrumentos de sopro dão o ar heróico, as batidas eletrônicas ditam ritmo acelerado de ação, e a canção What’sUpDanger, do rapper Black Caviar, aumenta a sensação de triunfo. É um dos melhores momentos musicais e cinematográficos do cinema de super-heróis.

Para todos os fãs do cabeça de teia, adaptar o aranhaverso para os cinemas era uma péssima ideia, mas o que foi realizado acerta justamente no que a maioria dos filmes do herói erram. O que faz com que o título Homem-Aranha seja tão adorado e enaltecido está em cada segundo da jornada de Morales.

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Vinícius Brandão é autor do site Aquela Velha Onda e novo parceiro da Se7e Cultura. Confira aqui a programação dos cinemas. 

Não é incomum que pessoas argumentem a favor de um filme ao dizer que a produção os fez chorar. No entanto, fazer alguém chorar é fácil, basta apontar algo que mexa com certas emoções e remoer isso. Pode ser um cachorro moribundo, uma criança com câncer ou qualquer coisa do tipo. A diferença está em como se explora o melodrama. E Gus Van Sant dá uma aula disso neste A Pé Ele Não Vai Longe.

Seria fácil seguir o caminho do melodrama com a história real de John Callahan (Joaquin Phoenix), um alcoolista que sofre um acidente de carro e se torna paralítico. Agora, sem o movimento do peitoral para baixo e com dificuldade de usar as mãos, ele percebe que precisa largar o vício em bebida e participa de um grupo apadrinhado por Donny (Jonah Hill) enquanto explora o potencial de artista como cartunista.


E Van Sant acompanha essa jornada pessoal através dos famosos 12 passos dos alcoólatras anônimos. Para quem não sabe, é uma lista com 12 coisas que o viciado deve fazer no processo para viver sem a droga. A diferença é que o diretor escolhe apenas seguir as situações sem reforçar o drama com músicas tocantes e closes em
rostos sofridos.

Além disso, o título já deixa claro como é a perspectiva de Callahan em relação à própria condição. Trata-se de uma piada em uma das tirinhas dele, na qual um grupo de policiais caça um cadeirante e encontra apenas a cadeira. O xerife diz o nome do filme. É quase cruel, mas também é um jeito de se permitir rir do que não se tem controle.


E assim, entre humor negro e muito sofrimento, Callahan aprende a ser positivo em relação à própria vida. Não é preciso explicar isso detalhadamente. Sant escreve uma cena em que o protagonista percebe que a vida, mesmo preso na cadeira, é melhor que a de uma pessoa sem deficiências, mas ainda presa aos vícios. Nada de grandes epifanias com músicas emocionantes. É apenas natural.

Para isso, o diretor e roteirista (com base em livro de Callahan) faz as cenas como se fossem filmadas por um documentarista da época em que o personagem passou pelos 12 passos. Assim, as imagens têm um forte granulado na fotografia e a câmera é tremida. 
Como se o cinegrafista tentasse acompanhar quais as coisas importantes a serem filmadas no momento em que elas ocorrem.


Nesse sentido, Van Sant direciona os atores para interpretações naturalistas. Mesmo em grandes brigas ou quando se perdem nas próprias tragédias, eles são capazes de rir de si mesmos. Como todo mundo é capaz na vida real. Daí entra o ótimo trabalho de Phoenix, que muda os trejeitos de bêbado para sóbrio e de pessoa sem deficiência para uma com. Isso sem deixar de fazer com que o personagem seja o mesmo em todas as situações.

Hill está em uma fase ótima. Como comediante, ele serve bem à perspectiva de Donny de brincar com a situação em que vive, mas sem perder a tristeza do personagem por trás do riso. Outro destaque é uma ponta do Jack Black como outro alcoólatra que sobrevive ao mesmo acidente de Callahan. Ele sabe fazer as extravagâncias de um bêbado que quer farrear, e a tristeza do dia seguinte, quando está sóbrio.

Se tem um problema no filme, é a montagem, que transita entre situações extremamente diferentes e deixam o espectador confuso. Callahan, em uma cena, discursa para uma plateia sobre as superações da vida que conduziu, para na próxima estar no ápice do alcoolismo. Chega a demorar para entender, em todos os momentos da primeira metade do filme, se ele está sóbrio ou bêbado.

Como história, a de Callahan não é comum, mas existe em um mundo ordinário. E Van Sant sabe que é assim que deve contá-la. As conquistas e superações são extraordinárias, mas existem apenas ali dentro da casca normal do personagem e não ressoam com a mesma grandeza para outras pessoas. E isso torna tudo ainda mais impressionante e significativo.

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Bumblebee é um marco na franquia Transformers. É o primeiro live- action que é dirigido por outra pessoa além de Michael Bay, assim como é a estreia de um spin-off para a marca, e a única que muda de tempo ao se afastar da atualidade. O que já indica algo que até o estúdio já percebeu, a série entrou em desgaste. A dúvida é se essa continuação, prequência, reboot, ou o que você quiser chamar é bem sucedida.

Durante a guerra civil no planeta cybertron, os rebeldes autobots perdem uma última batalha e fogem para procurar um novo lar, enquanto são perseguidos pelos opressores decepticons. O soldado Bumblebee (dublado por Dylan O’Brien) é destacado para iniciar uma base na Terra na década de 1980, mas perde a voz e a memória na chegada. Desesperado, ele assume a forma de um fusca e para nas mãos da adolescente Charlie (Hailee Steinfeld).

Um monte de déjà-vu ocorre ao espectador que acompanhou a série nos cinemas. A trama é basicamente a mesma do primeiro filme, com a diferença de que o robô vai para uma garota, ao invés de um garoto. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento de uma amizade com um ser diferente que transforma a vida de um menor de idade traz inúmeros filmes à mente (sendo E.T., dirigido pelo produtor executivo deste, Steven Spielberg, o grande pioneiro do tipo de narrativa).

Clichês, por si só, não são negativos. O problema é a repetição, mas quando um diretor ou um roteirista acerta, o clichê revela porque virou um estereótipo. Neste caso, a graça é ver como Charlie aprende a lidar com o luto da morte do pai e seguir adiante devido ao convívio com o carismático robô alienígena.

É onde o novo diretor Travis Knight (cuja experiência anterior está inteiramente em animações de stop-motion) revela o valor de sair da estética de Michael Bay. Apesar de contar a mesma história do primeiro filme, não há ângulos constrangedores em corpos de adolescentes, nem imagens de pores de sol impossíveis ou incoerentes, nem humor gratuito em cima de estereótipos racistas.

Muito pelo contrário, Knight aproveita do melhor que a computação gráfica pode pagar para criar planos inventivos nos quais a câmera transita atrás de Charlie nas cenas enquanto Bumblebee muda de forma. Então o fusca vira um robô enquanto as engrenagens dele giram ao redor da tela.

Assim, ele cria dinamismo nas cenas sem precisar abusar de imagens grandiosas desnecessárias. Também abre mão da verossimilhança na animação para que Bumblebee consiga se transformar muito mais rápido que nos filmes anteriores e que nem sempre seja possível acompanhar onde cada peça vai entre as duas formas. Isso serve para piadas relacionados às tentativas de Charlie em esconder e proteger o amigo, e ainda aumenta a sensação de fantasia da aventura.

No entanto, Knight não abandona completamente a noção de mundo construída por Bay. O mundo ainda é tomada por cores quentes durante o dia, com céus claros e pessoas com roupas curtas para curtir o verão. De noite, holofotes dialogam com a grandiosidade dos robôs e da ação. É um filme Transformers, e é um filme de autoria do diretor ao mesmo tempo.

Onde Knight tem problemas, infelizmente, é na cenas de ação. Com os ângulos inventivos, ele normalmente torna difícil entender as lutas dos robôs além dos montes de engrenagens que mexem de lá para cá. E o roteiro de Christina Hodson tem muitas qualidades relacionadas aos personagens e as jornadas de cada um, mas esquece de dar personalidade para Bumblebee e é mais longo do que deveria ser.

Esse interesse nas pessoas ganha muito com um elenco afinado. Steinfeld já se provou inúmeras vezes como uma grande atriz e consegue conversar com o companheiro digital em cena com uma naturalidade impressionante. O mesmo pode ser dito de Jorge Lendeborg Jr., intérprete do amigo e possível interesse romântico de Charlie, Memo.

Ele ainda tem a vantagem de ter desprendimento para ser um alívio cômico que faz rir da falta de jeito ao tentar, em quase todo enquadramento, se aproximar de Charlie fisicamente sem deixá-la desconfortável. E John Cena faz bem o que tem feito com a carreira de ator recente, ao tentar dar honestidade para cada cena em que atua. Infelizmente, é o ator com maior dificuldade na hora de interagir com os fundos verdes.

Bumblebee conseguiu o que nenhum filme de Transformes alcançou até o momento, aquela sensação gostosa de uma aventura divertida e oitentista. Para satisfazer os fãs de Spielberg, do Brad Bird, do George Lucas, do Robert Zemeckis e vários outros que acertaram a mão no estilo.

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Vinícius Brandão é autor do site Aquela Velha Onda e novo parceiro da Se7e Cultura. Confira aqui a programação dos cinemas. 

A primeira reação ao ver o nome da Keira Knightley em mais um filme de época foi questionar se era mais uma produção em que ela assume uma heroína romântica ou trágica, como nas três parcerias com o diretor Joe Wright. Mas a expectativa se prova falsa rapidamente. Não apenas porque o comando fica por conta do inglês Wash Westmoreland, mas pelo que este Colette realmente é.


Principalmente porque a mulher real que dá nome ao filme, Sidonie Gabrielle-Collete (Knightley), protagoniza uma história curiosíssima sobre o papel das mulheres na sociedade. No primeiro casamento, com o escritor Willy (Dominic West), ela descobriu com as desculpas dele para infidelidade a liberdade para ser o que quisesse, mesmo que tivesse que enfrentar os valores sociais da Inglaterra na transição dos séculos IXX a XX.

Nas mãos de realizadores mais fracos, Colette seria um drama de tribunal ou uma análise sobre o processo criativo da escritora, mas o que importa para os roteiristas Richard Glatzer, Rebecca Linkiewicz e o próprio Westmoreland é a transformação.

Colette começou como uma garota vitoriana que apenas queria casar e ser dona de casa e, com o passar dos anos, se tornou um ícone feminista, uma das escritoras mais importantes da França, e alguém disposta a romper com o esperado. O fato de que os primeiros livros dela foram publicados pelo marido em segredo para vender mais como ele diz, é fundamental, mas não é a força motriz da trama.

Assim, Willy se torna um personagem importantíssimo. Representante da alta classe, ele não consegue não trair a esposa. Quando ela descobre e questiona, ele não promete que não vai dormir com outras mulheres, mas que não vai mentir sobre isso. Ela então, segue o caminho lógico de que pode dormir com outras pessoas.


O argumento dele é que os homens têm, por natureza, a necessidade de fazer sexo com várias mulheres. Com as falácias que um espectador atual facilmente percebe, ela cresce, ao invés de se deixar reprimir. Nesse caminho, o roteiro constrói as situações aos poucos, até que a Colette na tela não é mais a mesma que o espectador conheceu no começo. E acompanhar isso é extraordinário.

Ainda mais com a dupla de atores principais. Knightley sempre foi eficiente, mas aqui ela revela uma faceta diferente. Menos introvertida e mais confrontadora, mesmo que ainda não se destaque. Principalmente ao lado de West, que aproveita a falta de bom senso de Willy para pular, gritar e brincar com estereótipos de homens vulneráveis à própria insegurança.

Westmoreland dirige com eficiência e sutileza. Quando Willy compra uma casa para Colette, o diretor os coloca em espaços separados do enquadramento, como se ela fugisse dele. No entanto, o ator se movimenta pelo cenário e sempre a alcança. Como um reflexo de que ela sabe que deve se afastar, mas ainda se sente apegada ao marido.

Outros detalhes nos figurinos também chamam a atenção. Como o uso constante de preto por Willy e de cores claras por Colette. No entanto, quanto mais ela se envolve nos esquemas e trejeitos dele, mais detalhes escuros ela ganha. Quanto mais ela se afasta, mais limpos ficam os tecidos.


O resultado é um excelente filme questionador. E que choca quando se percebe que os erros sociais apontados continuam atuais. Nada melhor que a história para ensinar, certo? Ainda mais com uma obra divertida e que não segue pelos mesmos caminhos de sempre. Infelizmente, poderia abordar melhor a persona de Willy, mesmo que isso seja compensado pela interpretação de West.
 

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Texto de Renaro Cardozo


Começarei este texto de uma forma diferente. Antes de entrar nos comentários sobre o filme Aquaman, explicarei minha incredulidade com os longas da Warner Bros./DC Films. Desde que foi criado o Universo Estendido DC (DC Extended Universe no original), as produções dividem opiniões, alguns amam, outros detestam. Eu estou no segundo grupo.

Em 2013, fui cheio de expectativas assistir ao Homem de Aço, o primeiro filme desse universo compartilhado nos cinemas. Entendo que eles queriam fugir da chamada fórmula Marvel (estilo padrão das histórias contadas pelo estúdio da rival nos quadrinhos, Marvel Comics, dona da franquia dos Vingadores, entre outras), mas erraram a mão. Enquanto a Casa das Ideias, apelido da concorrente, produzia películas coloridas com uma mão pesada no humor, a DC quis apostar em quadros escuros e praticamente eliminar a comédia do seu mundo.

O problema é que esse recurso narrativo não funciona com a maioria dos personagens da DC adaptada para a telona. Mas não dá para creditar meu desgosto ao assistir a esses longas apenas a isso. Os roteiros também foram bem fracos. Não que os filmes da Marvel tenham grandes histórias, mas a dosagem certa principalmente de ação e humor, e elencos bem carismáticos fizeram e fazem toda a diferença.

Porém, algumas mudanças no comando da DC Films a partir de 2016 fizeram o estúdio rever essa decisão. Em Mulher-
Maravilha (2017), os espectadores receberam um filme mais colorido e engraçado em comparação aos anteriores do universo compartilhado.

Por que dei todas essas explicações? Para deixar claro quando digo que Aquaman é um acerto da DC Films. Mas não vá ao cinema esperando um Logan (2017) nem mesmo um Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016). Vá ao cinema esperando um longa divertido como os da rival, que utilizam bem a fórmula Marvel.

Na história, passada após os eventos de Liga da Justiça (2017), temos Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa), sendo chamado para assumir o trono de Atlântida. Filho da rainha Atlanna (Nicole Kidman) com um homem da superfície, Arthur é a única chance de 
evitar uma guerra entre humanos e os reinos subaquáticos. Para ajudá-lo na sua jornada do herói, temos a princesa Mera (Amber Heard) e o conselheiro Vulko (Willem Dafoe).

Uma história simples, porém, bem contada (para os padrões já citados) pelo diretor australiano James Wan. Sim, o mesmo que trouxe Invocação do Mal, Anabelle e todo esse universo. Mas que mostrou que entendia de cenas exageradas de ação em Velozes e Furiosos 7 (2015).

Nas suas mãos, Momoa e Amber até funcionam juntos, protagonizando boas cenas de ação e humor. Deixo claro que
funcionam dentro dos limites desse tipo de filme.

Quanto aos vilões Orm (Patrick Wilson) e Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II), têm certo desenvolvimento, você entende os motivos do ódio deles, não são apenas maus e ponto. O que, para mim, já ganha pontos. E as atuações estão muito boas.

Sobre os efeitos de computação, deixam a desejar em algumas cenas, mas, no geral, estão bons, principalmente nos cenários de Atlântida, que ficou majestosa.

Em relação às cenas de ação, muitas são acompanhadas de momentos impactantes dos personagens, o que fará muito fã do herói vibrar na cadeira. Outro motivo de comemoração dos seguidores do Aquaman nos quadrinhos são os visuais, que estão bastante fiéis aos da nona arte.

Por fim, após anos sendo motivo de piadas, o rei dos mares, enfim, ganhou uma aparição digna de respeito.

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Regras existem para serem quebradas. Há quem acredite que isso se aplica especialmente ao cinema, como conceitos de enquadramentos, movimentos de câmera, montagem ou de roteiro. Um dos mais embasados na produção mundial é o da estrutura de cinco atos, com prólogo, início, meio, fim e epílogo. Mas, quando serve à mensagem e à história, essa norma deve ser quebrada.

É o que o diretor e roteirista Dan Fogelman busca com este A Vida em Si. É difícil até tentar explicar o que é a sinopse do longa. Ele acompanha dois casais com problemas de relacionamento, os americanos Will (Oscar Isaac) e Abby (Olivia Wilde) e os espanhóis Javier (Sergio Peris-Mencheta) e Isabel (Laia Costa) e os dois momentos em que as histórias deles se cruzaram.

Dizer apenas isso talvez possa até ser falar demais. Porque Fogelman divide o filme em duas partes, cada uma com seu ciclo narrativo fechado, para que ambas contem uma história como um todo. Primeiro do casal em Nova Iorque, e depois do casal em outro continente. Mas isso é importante dentro das reflexões que o realizador quer levantar.

Com um histórico de filmes e séries melodramáticos e lineares, ele abre este A Vida em Si com um amontoado de surpreendentes experiências narrativas. Os primeiro cinco minutos são narrados pelo Samuel L. Jackson, que aparentemente apenas lê o roteiro, com direito a falas como “Fade-in para texto. Capítulo 1.”

O que parece uma loucura auto-consciente e referencial ao Quentin Tarantino logo se revela como uma tentativa de Will em escrever um roteiro de curta-metragem que resuma as angústias dele. Então diversos aspectos daquela cena inicial são reflexos de um passado traumatizante que o espectador, e o protagonista também, desconhecem.

O trauma o impede de lembrar da verdade e a história a revela à medida em que ele se lembra em uma consulta com a psicóloga doutora Cait Morris (Annette Benning). Cada flashback é descrito em voice-over pelo personagem, que observa a cena junto com a terapeuta em cena. Aos poucos, as reviravoltas explicam como Will se tornou tão depressivo e traumatizado.

Essa estrutura de direção e de narrativa é forte e conduz bem o filme, até que a verdade é revelada e a história muda para o casal espanhol. Mesmo pequenos problemas como o fato de que Will não tem personalidade além do amor por Abby não incomodam quando ele é interpretado por um ator tão carismático e honesto quanto Isaac.

Mas, na Espanha, os experimentos narrativos são jogados fora e Fogelman parece disposto a abraçar o melodrama abertamente. Isabel e Javier são importunados pela presença constante do chefe dele, Saccione (Antonio Banderas), que tem mais dinheiro e, aparentemente, menos escrúpulos. A relação vira um triângulo amoroso até interessante, mas que não dialoga com a primeira metade do filme.

No contraste, fica até chato. E a falta de profundidade dos personagens se mantém. Javier é só um cara focado na vontade de fazer o que é certo, a ponto de não perceber que pode fazer o mal ao impor isso sobre a esposa. Os dois têm interpretações belas, mas Banderas ofusca qualquer pessoa nessa parte do filme ao trabalhar com pequenos trejeitos do antagonista. Desde uma olhada de canto para analisar alguém, até as reviravoltas no caráter do papel que interpreta.

De uma primeira hora interessantíssima e rica, A Vida em Si desanda com uma segunda metade que até é boa, mas freia o ritmo e arranca o espectador do universo do filme. Pior ainda com a coincidência absurda da mensagem final, que parece um devaneio de criança, ao invés de um filme que quer falar sobre uma epifania de vida. Para os fãs de melodrama, no entanto, é um prato cheio com direito a muito choro. Se for o caso do leitor, leve um lenço.

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Essas dez pessoas da imagem acima constituem o elenco principal de Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindewald. Sim, são dez personagens com conflitos desenvolvidos em começo, meio e fim em um filme de pouco mais de duas horas. Na continuação da retomada de uma das maiores franquias cinematográficas. Parece confuso?

Seis meses após o primeiro filme, Grindelwald (Johnny Depp) foge da prisão quando é transferido. Ciente que o antigo amigo e agora inimigo vai para a França para encontrar Credence (Ezra Miller), Dumbledore (Jude Law) pede para que Newt Scamander (Eddie Redmayne) visite o país e encontre o garoto antes. Lá, eles encontram outras pessoas em busca do menino poderoso.

Já na sinopse ficam claros dois dos maiores problemas desta produção: o fato de que o protagonista Scamander não tem ação dentro da narrativa, e que a roteirista J. K. Rowling está mais interessada em contar algo além dos eventos do filme. E é fácil notar como esses dois problemas são previsíveis quando se fala do décimo produto da franquia Harry Potter nos cinemas.

De forma bem simples, Os Crimes de Grindewald é uma peça de uma história. O que não necessariamente é negativo. Rowling tem noção de que o filme deve funcionar individualmente e faz um excelente trabalho ao criar uma condução que leva a um clímax eficiente. Tudo na história serve ao terceiro ato, desde as tramas paralelas, com todas as mil e uma reviravoltas, até uma conspiração relacionada diretamente aos verdadeiros protagonistas dessa nova franquia, chamada de Animais Fantásticos.

O que requer também uma mão eficiente de David Yates, o diretor. Já veterano do universo de magia (este é o sexto filme da série que ele conduz), ele sabe fazer com que o ritmo da ação e da montagem acelere até o grande conflito final, quando toda a conspiração criada por Rowling é revelada de maneira bombástica, o que funciona para atiçar o fã fervoroso de Harry Potter.

Por outro lado, para aqueles que não conhecem nada da saga, muitos dos eventos do filme passam quase desapercebidos. Isso porque, todo mundo está conectado. É incrível que uma história que se desenrole por três países tenha peso emocional para um grupo de pessoas conhecidos. É como se o mundo inteiro girasse ao redor de quatro ou cinco pessoas num fluxo de coincidências estapafúrdias.

Especialmente Newt, Tina (Katherine Waterstone), Queenie (Alison Sudol) e Jacob Kowalski (Dan Fogler). Se o quarteto era a alma e o coração do primeiro Animais Fantásticos, eles não passam de coadjuvantes neste. Porque, como o filme precisa dar andamento ao grande conflito que deve ocorrer na quinta parte, sobra pouco espaço para eles. E esse pouco espaço é utilizado em algumas das cenas mais mal escritas do longa.

Tina e Newt, supostamente o par romântico principal da nova franquia, têm poucas cenas juntos. E apenas uma fora de ação, quando eles discutem um desentendimento tão bobo que parece algo criado por uma criança. Já o outro casal, Queenie e Kowalski, tem um ciclo muito mais interessante, com direito a um final surpreendente que reflete a maior qualidade do filme: o discurso do vilão.

Ao contrário de Voldemort, um monstro criado da falta de amor, Grindewald fala sobre empatia. Ele não quer matar por ódio puro e aberto, mas por uma racionalização dele. Ele é carismático e o que prega realmente toca o coração daqueles que o escutam. Um retrato de como o preconceito pode se vestir de coisas belas para ter a liberdade se agredir. O que também faz com que a maldade dele seja mais perversa.

Yates e Rowling garantem um espetáculo digno do que se espera da franquia. Os efeitos especiais fazem com que tudo pareça real, desde o animal mágico mais grandioso até um truque pequeno de varinha. Mas além disso, é como eles usam a tecnologia.

O mundo de Animais Fantásticos é coerente dentro de uma iluminação soturna típica de Harry Potter, e mistura o extraordinário da magia com coisas banais, como uma sessão em um ministério em que estantes vitorianas se movem sozinhas. O que também é belo visualmente.

Infelizmente, o filme sofre do mesmo mal de inúmeras adaptações para o cinema, ele não se sustenta sozinho. Para ter um mínimo de compreensão do que acontece é preciso ter visto o primeiro. Para compreender todas as tramas, é preciso ter visto todos os Harry Potter. Para pegar detalhes até, é preciso ter lido os livros.

Nesse sentido, chega até a ser bobo como Rowling e Yates parecem piscar para os fãs com as inúmeras referências gratuitas a cada um dos oito filmes do bruxo com cicatriz na testa. Para uma produção que se permite discutir temas mais adultos, a ingenuidade dos realizadores incomoda. No entanto, ainda é um espetáculo divertido e que prende. Principalmente para quem entender tudo o que acontece na tela.

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Hoje em dia, quando se fala do estilo blaxploitation, o que vem à mente são as referências do Quentin Tarantino, os filmes do Shaft, ou a atriz Pam Grier. Restrita a uma época específica, a estética existe acima do visual e das músicas, mas também na valorização da população negra. E, felizmente, este Infiltrado na Klan se encaixa bem na descrição.

Ele acompanha o policial novato Ron Stallworth (John David Washington, um achado) após ele ligar para um anúncio da Ku Klux Klan no jornal local e marcar um encontro com os representantes do grupo. Como Stallworth é negro, o parceiro judeu Flip Zimmerman (Adam Driver, que empresta a estoicidade comum dele para um homem dividido entre o profissionalismo e a revolta) precisa se passar por ele.

A proposta, por mais absurda que pareça, é adaptada de livro escrito pelo Stallworth real. Um dos representantes da KKK no filme, inclusive, apareceu em noticiários brasileiros recentes após elogiar as ideologias de um candidato eleito das últimas eleições. E o diretor, Spike Lee, transita entre a dualidade do material original. O horror do racismo, e a comicidade da estupidez por trás do preconceito.

É por isso que Lee mostra os personagens “racionais” em ambientes descontraídos. Zimmerman e Stallworth brincam com a ideia de que o homem que encontra os preconceituosos é fisicamente judeu e negro em origem, mas não conseguem evitar o sentimento de revolta ao confrontarem de frente pessoas que os odeiam sem lógica. Mais ainda, quando descobrem o nível de periculosidade desses indivíduos.

Para isso, os roteiristas Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott, e o próprio Lee, dividem as cenas em extremos opostos. Em momentos, zombam abertamente dos racistas ao expor racionalizações estúpidas, como a propriedade do presidente da KKK, David Duke (Topher Grace, que serve mais uma vez ao papel do homem ignorante à própria pequenez), em achar que é capaz de reconhecer pessoas negras pelo jeito de falar.

Em outros momentos, o humor some para dar espaço para a tensão dos personagens que sofre abusos. Numa das cenas mais tensas, Patrice Dumas (Laura Harrier, surpreendentemente poderosa e raivosa após a patricinha adorável do último Homem-Aranha), possível interesse amoroso de Stallworth, é assediada por policiais brancos durante uma batida. É quase um reflexo do mundo real, onde as pessoas vivem calmas e sorriem durante a rotina, mas são forçadas a bater de frente com pequenos horrores diários.

Assim, Lee, usa e abusa do blaxploitation para criar as situações descontraídas, e desmonta tudo com um estilo cru e verossímil para os horrores. Não é difícil chutar que uns 90% dos personagens negros usam o famoso black power nos cortes de cabelo, com roupas que remetem fortemente à década de 1970, com muitas cores e colarinhos altos.

O diretor, inclusive, faz com que a montagem siga o ritmo de batidas de discotecas enquanto coloca sintetizadores na música incidental. Parece quase um videoclipe que engrandece a cultura afro dos Estados Unidos. Até que o preconceito do país bate neles de frente. Então as músicas param, a câmera abre os planos para que o espectador veja tudo o que acontece em cena.

Assim, a história é conduzida para um clímax de suspense em que todas as peças têm importância e o espectador se vê preso na cadeira enquanto torce para que aqueles ignorantes não machuquem personagens que são culpados apenas de viverem entre eles e querer direitos básicos.

E Lee, como não pode deixar de ser, faz questão de dar um ponto final pessimista para a história. Isso porque ele sabe que mesmo que a história se passe em um passado onde o racismo era mais aberto, ela ainda reflete preconceitos muito presentes no mundo atual. Mesmo que divirta do começo ao fim, é preciso lembrar o horror de então, e de agora.

 

P.S.: Lee aproveita para fazer uma merecida crítica ao primeiro filme narrativo da história do cinema, O Nascimento de uma Nação, aclamado pela importância da linguagem da arte, mas ainda uma das piores coisas feitas para as telonas.

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Entre os clássicos do Natal dos Estados Unidos, estão coisas estupendas como A Felicidade Não se Compra ou Duro de Matar. Na televisão, além desses, é obrigatório a retransmissão do desenho animado de 1966 Como o Grinch Roubou o Natal, adaptação do livro homônimo do Dr. Seuss. Com isso, a rabugenta antítese infantil do Papai Noel ganhou o imaginário popular relacionado à data.

O autor foi inteligente ao criar um personagem oposto ao natal para refletir os significados da data comemorativa. Cidadão recluso da Quemlândia, o Grinch (com voz brasileira de Lázaro Ramos) odeia as celebrações de fim de ano e decide roubar a festa dos conterrâneos.

Assim como o curta animado tem apenas 25 minutos, o livro tem menos de 70 páginas com pouco texto e muitas figuras. É uma história enxuta para mostrar para crianças que o Natal é mais que presentes e enfeites. Para encaixar em um longa-metragem, como ocorreu em 2000, com um live-action dirigido por Ron Howard e estrelado por Jim Carrey, é preciso rechear a trama.

Se na adaptação anterior foi construído um passado de rancor e preconceito por parte dos quens, a versão atual segue o caminho padrão dos estúdios Illumination: dar camadas e mais camadas de cenas de comédia visual. Para isso, os roteiristas Michael LeSieur e Tommy Swerdlow quebram os passos descritos em poucas linhas no livro em situações exageradas para o personagem.

Ele precisa de uma rena, então sai por uma nevasca, é atrapalhado por um bode montanhês que grita e afasta os animais, tem as roupas e os pelos congelados, depois é forçado a abandonar o único que encontra. Depois passa por penúrias para chegar ao trenó, além dos treinos com o equipamento, e por aí vai.

Apenas isso deve ocupar cerca de vinte minutos de projeção, que passa rápido para os que gostam do tipo de humor, e devagar para os que não gostam. Em cada situação, é colocado uma pequena demonstração dos valores do natal para que o espectador perceba antes do protagonista que ele, na verdade, não odeia as cerimônias.

Os diretores Yarrow Cheney e Scott Mosier aproveitam o humor visual para fazer com que a câmera viaje através dos cenários e, por vezes, de objetos. Então, quando o Grinch tenta jogar uma bola de neve gigante na árvore de natal da cidade e é arremessado por acidente, o espectador é arremessado junto e cai junto por entre os galhos.

Funciona dentro dos contextos das piadas, mas em muitos momentos o movimento é tão acelerado que, nos 24 quadros por segundo do cinema, as imagens ficam tremidas. Com isso, mesmo o trabalho técnico impecável que faz com que a neve, os líquidos e os pelos pareçam reais é perdido nos voos de câmera que apenas os mostra quebrados.

O Grinch não tenta enganar sobre o que realmente é: uma animação voltada para crianças com as mensagens que são tão queridas ao criador do livro. A meninada vai rir e se divertir com o protagonista verde enquanto ele quica, cai e brinca. Para os adultos, pode ser muito cansativo. Além disso, não há novidades ou nada mais profundo.

Nem mesmo em comparação ao outro filme do personagem. Como aquele representava um resquício do estilo que fazia sucesso na década de 1990 através da fotografia e do humor físico de Jim Carrey, este reflete os tempos atuais com adaptações de canções clássicas para o hip-hop com batida eletrônica e o humor físico dos minions.

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